A Tabela Periódica de Mendeleiev

27jul12

“Começamos a estudar física juntos, e Sandro ficou espantado quando busquei explicar-lhe algumas das idéias que confusamente cultivava naquele tempo. Que a nobreza do Homem, adquirida em cem séculos de tentativas e erros, consistia em tornar-se senhor da matéria, e que eu me matriculara em Química porque queria manter-me fiel a esta nobreza. Que vencer a matéria é compreendê-la e compreender a matéria é necessário para compreender o universo e a nós mesmos: e que, portanto, a Tabela Períodica de Mendeleiev, que justamente naquelas semanas aprendíamos laboriosamente a desenredar, era uma poesia, maior e mais solene do que todas as poesias digeridas no ginásio: pensando bem, tinha até rima! Que, se buscava a ponte, o elo perdido, entre o mundo dos papéis e o mundo das coisas, não precisava ir longe: estava ali, no Autenrieth, naqueles nossos laboratórios enfumaçados e em nosso futuro ofício.
E por fim, e fundamentalmente: ele, rapaz honesto e aberto, não sentia o mau cheiro das verdades fascistas que empestava o céu, não considerava uma ignomínia que a um ser pensante se exigisse crer sem pensar? Não sentia desprezo por todos os dogmas, todas as afirmações não demonstradas, por todos os imperativos? Sentia: e então, como podia deixar de perceber em nosso estudo uma dignidade e uma majestade novas, como podia ignorar que a química e a física de que nos nutríamos, além de alimentos vitais por si mesmos, eram o antídoto ao fascismo que ele e eu buscávamos, porque eram claras e distintas, a cada passo verificáveis, e não tecidas de mentiras e vaidades, como o rádio e os jornais?”

Primo Levi, A Tabela Periódica, pp.47/48. Rio de Janeiro, Editora Relume Dumará.

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12 Responses to “A Tabela Periódica de Mendeleiev”

  1. 1 Róbson

    Ronai, apesar dos dias ensolarados, suas postagens ficaram mais sombrias. Não sem razão, presumo. Veja que o mesmo CLG que acusou, em carta com AR, de assédio moral a todos que estivessem garantindo o funcionamento das atividades relacionadas com a matrícula do segundo semestre, agora convida coordenadores e diretores de centro para uma reunião cujo objetivo é fazer ” um levantamento da situação dos estudantes”. Na mesma linha tática, também serão recebidos em outra reunião os conselheiros do CEPE, para ouvir “a posição dos conselheiros antes da reunião do CEPE”, aqueles mesmos que não puderam expressar suas opiniões em razão de algum bloqueio acontecido em dias passados. É tudo muito óbvio, mas não é de duvidar que ainda se acredite na existência de tão nobres pretensões de esclarecimento. Se assim for, e para agregar mais sombras nos seus comentários, contribuo com a tristemente lembrada expressão de Mao Tsé-Tung: Uma Centena de Flores!

    • Róbson, muito bem lembrada a estratégia de Mao Tsé-Tung, agora em prática na casa para preparar o clima de bloqueio do segundo semestre. Na verdade, não chegarão a cem flores. Umas oitenta, quem sabe? A semana que vem será a mais tensa de toda a história da Ufesm, por conta de diversos fatores, quase nenhum deles ao alcance e controle dos próprios envolvidos. Será, como dizia meu amado Rosa, “o diabo na rua no meio do redemunho.” Nas minhas contas, ao redor de oitenta por cento das disciplinas ofertadas no primeiro semestre foram cumpridas, o que soma aproximadamente mil docentes. Esses corriam o risco de levar a porrada do Cepe por não terem aderido ao delírio, não fosse o bom senso da Prograd. Contra a Prograd haverá apenas o argumento do corte dos cabos de transmissão de dados do CPD. Esse (ou algo parecido) será o passo disponível aos comandos, depois dos sucessivos bloqueios do CPD por três dias e do sexto andar hoje. Depois que a coisa vai para esse lado, não tem mais volta. Daí meu tom sombrio e pessimismo. O Reitor está agora imprensado entre a possibilidade de responder por improbidade administrativa, por pagar integralmente o salário dos brevistas e essa estratégia de bloqueios. Infelizmente, não há nada que ele possa fazer, pois mesmo as demandas locais são inaceitáveis, na linha de “trabalhar menos e ganhar mais”, como fica óbvio na campanha das 30 horas e no sonho de fazer com que a carreira do professor e a do servidor sejam a mesma, sob o ponto de vista do ponto. Quanto às flores, diferentemente do caso de Mao, essas “audiências” do CLB seriam trágicas, se não fossem comicas, desde que descontados os assédios morais que ocorrerão na semana que vem.

  2. 3 Alexandre

    Caros, ouvi dizer ontem que o governo anda considerando a possibilidade de cortar ponto dos grevistas e instar os reitores a contratar professores temporários para que as aulas procedam comme il faudrait… Acho que não vai acontecer. Se acontecesse seria de morrer de rir ver um governo do PT fazendo isso! Mas a conversa em si é no mínimo um sinal de que este governo parece estar se dando conta de que o Brasil, além de estar na Terra, também está no Braço de Orion…

    • 4 Róbson

      Até onde posso ver, já há uma instrução para o corte, mas apenas uma determinação judicial mobilizará as instâncias causais pertinentes. O que não depende de alguma determinação judicial, parece-me, seria a contratação temporária de recursos humanos para o funcionamento dos RUs e das Bibliotecas. Também sou cético em relação a esse cenário.

      • Quanto ao RU, eu não duvidaria de alguma novidade. A ver.

      • 6 Róbson

        Creio que no RU há uma possibilidade não tão remota, pois boa parte dos serviços é terceirizada, não?

    • Alexandre, o tom da fala de Mercadante ontem não dá a entender o corte de ponto. Acho que não por acaso ele referiu-se ao fato da Ufscar ter indicado a saída de greve. Se não sabes, a Ufscar é uma universidade muito representativa do movimento docente, desde os anos 80; Mercadante enfatizou que não haverá outra proposta. Depois da semana que vem, aí sim, acredito que não restará aos dirigentes outro curso de ação que não o corte,mas não essa saída de contratos temporários. Se vale a tradição, o corte do ponto sempre foi suficiente para trazer um pouco de princípio de realidade.

      • 8 Róbson

        A Ufscar é ligada ao Proifes, o que significa demonização. Sobre o corte como retorno ao princípio de realidade e seus descontentes, vale comparar as manifestações de alguns docentes brevistas e técnicos: os primeiros bradam “breve até a vitória”, os segundos preocupam-se com o pagamento das contas e com as refeições. É uma diferença com classe, para “una universidad sin clases”.

  3. 9 Alexandre

    Acho que o reitor terá que se posicionar muito em breve… Especialmente se os troglos continuarem a fazer o que é sua especialidade…

    • Eles estão sendo chamados às falas, por “improbidade administrativa”. Não há nada de errado em reivindicar o pagamento dos dias parados, isso faz parte da cultura sindical. Mas para isso o administrador deve primeiro descontar os dias dias parados. Isso faz parte do jogo. Mas no caso da breve, o jogo é um especialíssimo caso de contas.

  4. 11 Alexandre

    Mesmo sabendo que me tornaria mais famoso na história cristã que na judaica, resolvi entrar (na verdade fui entrado por alguém) no “Forum Independente dos Professores Federais” no FB. Tenho usado armamento pesado para sobreviver… mas uma coisa ali me chamou a atenção: um professor da UFMT (até onde vi, o único doutor na polilocução contra mim) me perguntou por que não entramos na justiça contra o sindicato, já que eles estão falando em nome de todos com apenas 20% de legitimidade. Segundo ele, se o fizéssemos o sindicato cairia no dia seguinte… Como minha vida não é feita só disso e demorei 24 horas para voltar ao PC, eis que vejo o dito doutor biólogo e ecólogo, apoiado por alguns amantes da mais escrota(l) de todas as bolsas, a xingar-me de “pelego” e usar um belo “porra” ao dar crédito a uma “notícia” divulgada na Internet de que não poderíamos estar dando aulas porque “os alunos estão em greve”. Ou seja, o doutor em questão não consegue nem conceber a realidade da UFSM dentro daquela típica, por única, cronologia em que todos nos reconhecemos… Olha, que esses professores todos consigam delirar juntinhos parece um fenômeno paranormal… mas só até eu me lembrar dos alemães durante o nazismo…

    • É bem isso, quando a gente pensa que já viu de tudo… Aqui também foi usado esse arroto. No início da breve houve uma nota raivosa do sindicato dizendo que as aulas dadas não tinha validade pois os alunos estavam em breve. Concordo que é preocupante ver a facilidade com que certas pessoas fazem afirmações simplesmente falsas como essas.


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