John Malkovich e as paixões

14ago12

Por volta de 2008, John Malkovich publicou um artigo no The New York Times que foi traduzido e publicado pela Folha, no dia 28 de janeiro de 2008. Arrumando uma gaveta, hoje a tarde, encontrei o recorte, amarelecido, que conservei com carinho durante esses anos todos, impressionado que fiquei por um trecho que vou reproduzir abaixo. O texto de Malkovich é muito bonito e é uma descrição bela e cruel de como funciona o “negócio do cinema”. O ponto de partida pode ser o seguinte: “um cineasta tem uma idéia ou conceito sobre uma idéia, e então ele, ou ela, ou seus associados, saem em busca de dinheiro para filmá-la”. A partir desse ponto entram outros fatores, que muito frequentemente esmagam “tudo o que encontram”. Malkovich, nesse ponto, faz a pergunta clássica. Eu cito:
“Assim, poderia perguntar um sábio, por que fazer alguma coisa?”
A tentativa de resposta de Malkovich me impressionou desde aquele dia que a li, recortei, grudei na parede com um durex, depois guardei na gaveta.
“Desprovido de qualquer inclinação religiosa, política ou ideológica como sou, suponho que as únicas coisas que já retiveram meu interesse na vida são as histórias que contamos uns aos outros, as coisas ouvidas ao acaso e as que se deixa sem dizer, as escolhas que as pessoas fazem, seus desejos, medos e sonhos. Mas é muito difícil exercitar esse interesse nos filmes norte-americanos modernos. Porque, neles, o único árbitro de toda forma de arte (ou mesmo entretenimento) não é o quanto oferecem, mas o quanto faturam.”
Estamos vendo coisas, nesses dias de delírio brevista na Ufesm, que nunca pensamos poder ver em vida. A mais impressionante delas é ver uma efígie da Presidenta Dilma travestida de Tio Sam, representada como a grande algoz dos servidores públicos. Eu me senti transportado para o imaginário daqueles que imaginam que a repartição do mundo entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, depende apenas de um faturamento da imaginação descolada da atenção ao real. Como insinuou o Juca ontem, é preciso pisar e tripudiar sobre a história do Brasil para elaborar um cenário que justifique um unico dia de bloqueio ao funcionamento de uma escola. Ontem os estudantes e professores do Cetism foram impedidos de estudar. Faz mais três meses que uma biblioteca sequestrou os livros. O nome disso é obscurantismo, simples assim, direto assim, obviamente assim. O sequestro de livros e do encontro de professores e alunos tem apenas esses nomes: obscurantismo, fascismo, estupidez, ignorância, pequenez, idiotice. Com o sequestro dos livros e das aulas, em nome do Tio Sam, estamos apenas oferecendo apenas uma evidência do quanto nos rebaixamos. Como contaremos essas histórias sobre nós mesmos, se nelas o que parece cada vez mais contar é o quanto cada um pensa em faturar, depois de findo um espasmo de estupidez institucional coletiva?
Felizmente, teremos os ganhos da breve. O mais importante deles, felizmente, é que ficou abalado o modelo de escolha de reitores das Federais. O modelo de flerte institucional fracassa nesses momentos, quando a Reitoria coloca em si mesmo uma mordaça e fica literalmente imprensada entre seus eleitores e quem a nomeia para o cargo.
Belo ganho.
Como diria John Malkovich, há algumas histórias para a gente contar sobre essa breve. E esse roteiro nada tem a ver com o falso triunfalismo dos Desmandos da Breve. Ela parece, falsamente, um filme norte-americano moderno, com Tio Sam e tudo nas imagens. Falsamente, eu disse.
A grande pergunta, como ele disse, é: “por que fazer alguma coisa?”
Quem escolheu a vida universitária sabe com qual humor deve responder essa pergunta. Quem escolheu a vida universitária nunca jamais e em tempo algum fecharia uma biblioteca. Se não sabe, deveria escolher outra vida.

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