“Pretender que reitores, promanados do corporativismo interno das universidades, exerçam sua responsabilidade, seria de grande ingenuidade”.

16ago12

Transcrevo abaixo o artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje, do físico paulista Rogério Cézar de Cerqueira Leite, com o título “A greve universitária e o princípio do prazer”. Eu substituí o título aqui no blogue apenas por birra; fiquei chateado por ver o arco de entrada da Ufesm trancado o dia inteiro ontem; centenas de pessoas foram obrigadas a caminhadas intermináveis por causa disso, pois o acesso dos onibus ficou restringido. Todos os que reclamavam acabavam por dizer o mantra” “Mas a Reitoria não vai fazer nada?” Daí que, ao entardecer, me veio a idéia: liguei para o Professor Rogério e pedi que ele escrevesse um texto explicando porque as Reitorias não fazem nada nesses casos. Ele, muito gentil, encontrou um tempinho, depois de reler a obra completa de Freud mais uma vez; a Folha foi compreensiva e achou um lugarzinho na página 3 para publicar a explicação, que copio abaixo. As breves longas dão oportunidade para exercícios como esse do Professor Rogério. Boa Leitura!

“Freud, entre as inúmeras contribuições que constituiriam a teoria psicanalítica, propôs este revelador fenômeno que consiste na transição sofrida pela criança: a passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade.
Durante aquela fase inicial, a criança vê o seu mundo como um aparelho cuja única função é satisfazer seus desejos. Não há limites. O agente, o instrumento desse domínio, é a mãe.
O início da transição para atuação sob o princípio da realidade -ou seja, para a maturidade- ocorre quando limites começam a ser impostos aos desejos da criança.
Este papel é responsabilidade principalmente do pai, pois a mãe, acostumada a satisfazer os desejos da criança, é menos capaz de impor limites a ela.
Freud, entre as inúmeras contribuições que constituiriam a teoria psicanalítica, propôs este revelador fenômeno que consiste na transição sofrida pela criança: a passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade.
Durante aquela fase inicial, a criança vê o seu mundo como um aparelho cuja única função é satisfazer seus desejos. Não há limites. O agente, o instrumento desse domínio, é a mãe.
O início da transição para atuação sob o princípio da realidade -ou seja, para a maturidade- ocorre quando limites começam a ser impostos aos desejos da criança.
Este papel é responsabilidade principalmente do pai, pois a mãe, acostumada a satisfazer os desejos da criança, é menos capaz de impor limites a ela.
Portanto, para que a criança amadureça e se torne um cidadão saudável, é absolutamente necessário que o pai exerça a sua obrigação.
É claro que é desejável que a transição entre os princípios do prazer e da realidade se faça suavemente, tornando a passagem tolerável. Eis porque a intermediação pela mãe é desejável.
A proposta do executivo federal para o ensino superior é não apenas generosa. Ela é também extremamente inteligente, pois concilia os valores acadêmicos com os interesses individuais.
Oferece salários competitivos, equivalentes, talvez até superiores, àqueles típicos de universidades europeias. Estimula o aumento da competência acadêmica ao privilegiar o tempo integral e a titulação. Além do mais, como também acontece com as universidades do mundo desenvolvido, salários de professores ainda podem ser complementados pelo CNPq com relativa facilidade para aqueles que realizam pesquisas com alguma seriedade.
Olhando, por outro lado, o estímulo representado pelo aumento, que seria de 25% a 40% (que, descontando uma inflação prevista de 15% para os próximos três anos, resultaria aumento de 25% para fins de carreira, 15% para posições intermediárias e 10% para iniciantes), não deixa de ser elogiável o esforço.
Embora Freud não tivesse se preocupado, em sua análise dos princípios do prazer e da realidade, com excessos de comportamento da criança, é hoje consenso que ela procurará, para encontrar seus próprios limites de atuação, infringir regras, abusar de seus direitos. Para isso, desafia os progenitores. Se eles não exercem as suas obrigações, o caos advém.
E agora, tomando como paradigma a descoberta do saudoso Stephen J. Gould de que “a filogenia imita a ontogenia”, assumindo que a evolução do comportamento social imita a da psicológica, podemos concluir que a comunidade acadêmica ainda opera de acordo com o princípio do prazer.
O amortizador natural para excessos grevistas é a supressão de salários. Sem este dispositivo, a greve perde sua legitimidade e grevistas se destituem de autoestima, como crianças de pais ausentes, alienados.
A greve deixa de ser um ato respeitável, por vezes heroico, para se tornar um acontecimento prosaico. Pretender, todavia, que reitores, promanados que são do corporativismo interno das universidades, venham a exercer sua inequívoca responsabilidade seria de grande ingenuidade, embora não haja dúvidas de que grevistas estão apenas testando seus limites, como as crianças que fazem “birra”.
Como propõe a moderna pedagogia, palmadas não são adequadas. O único aliado que tem o Executivo é, portanto, a consciência do cidadão, que percebe o mal que está fazendo para a sociedade e para si mesmo com o próprio comportamento insólito e injustificável.”
(ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, 80, físico, é professor emérito da Unicamp, pesquisador emérito do CNPq e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha.)

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9 Responses to ““Pretender que reitores, promanados do corporativismo interno das universidades, exerçam sua responsabilidade, seria de grande ingenuidade”.”

  1. 1 Victor da Filosofia

    Folgo em ver gente grande articulando, mais e melhor que eu, certas ideias com as quais eu flertei desde meus primeiros dias no (agora já parte do meu passado) movimento estudantil, a saber, a de que certas perspectivas políticas são doentes e suas atitudes não são ações, mas sintomas. Manifestações de compulsões e de psicose. Refiro-me à mesma extrema esquerda que – repetindo o autor do texto – por uma birra infantil, ancora-se ao âmbito do princípio do prazer. Simplesmente não passa para uma nova “figura do espírito”. Por um tempo cheguei a pensar que esse “mal” fosse um ingrediente da realidade sine qua non não existiria política: se não tiver quem peça 100, como ganharíamos 50? Acabei percebendo que essa lógica foi a mentira que eu inventei pra mim mesmo, para que através dela eu não precisasse ter o asco que esse delírio – e seus delirantes – merecem e inspiram. Eles não pedem 100 pra ganhar 50, porque eles não querem ganhar. Eles querem fazer birra mesmo, e só. É disso que é feita, pra mim, a essência da atitude dos “brevistas”.

    O que eu não folgo em ver são as consequências que essa doença, respeitada porque travestida de convicção política, tem causado no meu pago.

  2. 2 Alexandre

    A intenção desse texto do prof. Cerqueira Leite é excelente, mas me parece que ela só aparece nas entrelinhas. O problema do texto é que elogiar uma proposta do governo que só foi feita em consequência da greve acaba implicitamente atribuindo o mérito da proposta (por ele elogiada) à greve… Na realidade Cerqueira Leite reconhece o mérito (ele chama de “heroísmo”) intrínseco do instrumento greve, criticando porém os abusos cometidos por grevistas. A maneira como escreve seu texto não explicita tal intenção, o que se revela nas respostas de alguns leitores.

    O tema é complexo, mas o que mais incomoda nos tantos artigos publicados por aí a respeito é que ainda não li nada que toque o fulcro da questão – neste caso algo como um coração com dois ventrículos: de um lado o sistema educacional em si, e do outro lado a gestão deste. Com a única, e ainda assim muito parcial exceção do sistema educacional soviético, o rolo compressor do centralismo estatal se move na direção contrária à da produção científica e artística. O problema da educação e da cultura no Brasil é que nem o Estado as assume inteiramente (e portanto totalitariamente), como na ex-URSS ou em Cuba, nem a iniciativa privada o faz. O Estado não as assume porque se diz democrático, preferindo assim o suposto meio-termo da autarquia. Mas dado que o oxigênio da autarquia vem todo do Estado, a autarquia nunca chega a alimentar-se pela boca, mantendo um eterno cordão umbilical que a impede de crescer. E a iniciativa privada, com raríssimas exceções, não assume a educação e a cultura porque, entre outras razões históricas, submete-se a práticas tributárias extorsivas e se usa deste fato para repassar, refletir (no sentido ótico) ou meramente atribuir ao Estado tais funções. Assim tem-se um ciclo vicioso de difícil solução que mantém o país continuamente subdesenvolvido.

    Diante desta realidade, é evidente que, enquanto o sistema for assim, o uso de greves nunca resolverá nada – até porque educação e cultura não entram no rol das atividades essenciais à sobrevivência, nem segundo a Constituição nem segundo a única lei de greve existente no país. Portanto o máximo que se pode obter com greves de docentes são alterações salariais quase cosméticas, como sempre foi. Por este ângulo é compreensível que o sindicalismo docente aumente esses micro-ganhos com lentes hiperbólicas, e até mesmo com fé religiosa, já que, sem tal atitude, correr-se-ia o risco de olhar para a realidade como ela é e perceber que todo o esforço de anos de greves e protestos jamais resultou em qualquer mudança significativa na atitude de tantos governos para com a educação e a cultura de seus eleitores-contribuintes.

    As constatações acima mostram que a infantilidade dos excessos e abusos dos grevistas não está somente na falta do cumprimento da lei por parte dos reitores e das autoridades, mas em algo muito anterior: a incapacidade (esperamos que não eterna) dos docentes de diagnosticar o problema para poder curá-lo. Sem total independência de gestão, inclusive financeira, as universidades nunca poderão aplicar o que de fato significa uma meritocracia. Qualquer um que conheça as universidades norte-americanas, da melhor à pior, privada ou pública, sabe que isonomia salarial e meritocracia são antônimos. Junte-se a isso o fato de que o inchaço gigante do Estado (roubos aqui inclusos) gera o ciclo vicioso da tributação excessiva, sonegação e afins, temos então o óbvio ululante de que as greves de docentes são parte integrante, e pelo visto cada vez mais fundamental, do ciclo vicioso. Jamais a solução para este.

  3. 3 Gisele Secco

    Concordo com a ênfase do Alexandre na incapacidade de diagnóstico acertado do problema. Debate vaim debate volta e fica claro que medidas estruturantes (por exemplo: porque os salários não são indexados? “Todos os nossos preços estão indexados, certo? E indexados anualmente pelo IGP-M. Desde aluguéis aos serviços públicos que foram privatizados: energia, metrô, trem, ônibus, telecomunicações, pedágios e, claro, comida, roupa, etc. No caso dos serviços privatizados, os reajustes anuais constam nos contratos e não é raro serem autorizados pelas “agências reguladoras” com índices acima do IGP-M. Pergunta que não quer calar: Porque só os salários, não?” Essa fala é de um funcionári aposentado da Fiocruz, que concorda comigo sobre os obscurantismos dessa breve, mas também o atribui às ações “não-estruturantes” dos governos).
    Aí retorno ao meu ponto sobre a reinvenção da luta: não pode ser via paralisação sazonal das atividades, mas podia ser via mobilização mais cotidiana em torno desse tipo de conversa. Mas aí é toda uma cultura que peca pela cegueira e pelo “cada um por si”…

    • 4 Alexandre

      Gisele, não sou economista mas tenho a impressão de que os salários não são indexados justamente para, de um lado, diminuir o impacto dos tributos sobre a iniciativa privada, e do outro lado para garantir a “mais valia” do governo. Se os salários fossem indexados, os pequenos e médios empresários teriam menos perspectiva de crescimento e fariam muito mais pressão sobre o governo. Num sistema financeiro semi-capitalista (quase pseudo-capitalista) como o brasileiro, onde a tributação abusiva escorcha os empresários e favorece a sonegação e a corrupção, o governo não pode investir muito em educação. O investimento em educação leva à competência profissional e à consciência política (real, não a brincadeira que estamos vendo), o que por sua vez exige grande variedade de salários médios a altos, como nos EUA. No Brasil só ganham salário alto os políticos e os jogadores de futebol – os políticos porque votam o próprio salário, com a conivência popular, e os jogadores de futebol porque se inserem num mercado que se rege por parâmetros internacionais.

      Universidades federais são um fenômeno recente na história do país (década de 1950 em diante) e marcam um importante declínio da qualidade do ensino, pois visavam à massificação dos mais básicos conhecimentos técnicos. Se por um lado muitos professores foram incentivados a estudar no exterior (como já se fazia no âmbito das elites), por outro lado o rolo compressor de um sistema centralizado no e pelo governo gerou a ilusão da funcionalidade de concursos públicos, através dos quais admite-se um funcionário para sempre a partir de dois ou três dias de provas – como se isso garantisse eterna competência e dedicação (o probatório nas federais só prova a sempre urgente necessidade dos professores estáveis de não incomodar para não serem incomodados, nivelando tudo necessariamente por baixo). O impressionante baixo nível intelectual e político de uma enorme maioria dos professores das federais de hoje é resultante justamente desse descaso sistêmico com a educação – só importa a aparência, nunca a essência…

  4. 5 Gisele Secco

    A minha segunda frase não está completa. Queria dizer “Fica claro que medidas estruturantes não são o foco.” Não é tranquilo pra mim o modo como o governo vem realizando as modificações/cortes em coisas como a previdência, mas de novo, essas questões grandes não se tratam de quando em vez – e não podem servir de hálibi para os obscurantismos nossos de cada breve.
    É mesmo. Róbson, uma grande noite.

    • 6 Alexandre

      Pois é. Talvez pior que uma ditadura militar branda seja um governo de ideologia comunista que tenta ajustar seu apertado quadrado no círculo do capitalismo para sobreviver. Gerir tudo é o mesmo que não gerir nada. Cortes na previdência são medidas desesperadas para “adequar” o Brasil ao Consenso de Washington sem antes fazer o mínimo do mínimo para descentralizar a própria vida das pessoas (pobre do povo cuja maior ambição profissional é mamar nas tetas do Estado, mantendo-se eternamente em berço esplêndido…).

      A verdade é que as esquerdas brasileiras são muito mais ávidas por dinheiro que qualquer outro grupo político. Ninguém prega mais o que não faz do que elas. Infelizmente demorei muito para entender isso, devido justamente à estupidez embotante da ideologia marxista. Mas o sistema educacional público que temos é esse aí, e ele não funciona nem nunca funcionará. As greves acabaram se tornando ironicamente a melhor das provas desse fato. O mais infantil e estúpido de todos os lemas que escutamos hoje é justamente o “educação pública gratuita e de qualidade”… leia-se “a ser exigida de quem menos tem condição de provê-la”… Mas o que importa aos grevistas a falta de condição? Eles querem criá-la “no peito e na raça” ex gubernatione terrae brasilis”, o que é ainda mais difícil que ex nihilo! Enquanto isso, os reitores fingem que não sabem disso e deixam de lado sua função administrativa pelo oportunismo político… Não perdem nada mesmo, não é?

  5. 7 Gilberto

    PERVERSOS POLIMORFOS. Quando a inteligência funciona o orgasmo é inevitável

  6. 8 Gilberto

    “elogiar uma proposta do governo que só foi feita em consequência da greve” -e por onde andaram esses grevistas nos últimos 10 anos??? pelo que andei lendo, ficaram sentados numa banqueta do lado de fora esperando pelo Lula e depois pela Dilma. ô gente politizada essa hem?

    “O problema da educação e da cultura no Brasil é que nem o Estado as assume inteiramente” – e os professores que ganhavam 7.400 e vão faturar 10 mil pra 8 horas de aula por semana andaram fazendo que nas 32 que sobraram??? estudando uma proveca de merda pra meter no rabo dos alunos e provar que são fodão? e choraram pq a proposta era aumentar pra 12h/a/semana??? 32 h mensais trabalhadas dá mais de 300 por hora efetivamente trabalhada. e vem falar em Cuba? esquecem q governo não se faz sem povo, e o povo mais ativo é exatamente aquele q faz do ofício o ganha pão. como? ops: o privado é ganha pão e os profes que faturam 300 por hora são o que mesmo????

    “Todos os nossos preços estão indexados, certo?” – errado. profe de universidade pública faz especialização sem perda de salário e com bolsa. um doutorado custa uns 200 mil. o povo paga. o profe afirma que isso não é salário…

    “O investimento em educação leva à competência profissional e à consciência política” – que investimento em ensino formal o que. educação não é isso. educação começa com distribuição de renda. sem isso, quem é o profe que vai suportar aluno 3F – feio, faminto e fedorento? competência profissional? consciência política? essa gente anda falando bem pra caralho, mas só fazem e falam merda…

    enfim. corta o ponto dessas mala, Dilma, e manda trabalhar. 3 meses varrendo a areia da casa da praia e vomitando competência. e falo isso em nome dos 10 anos – 10 ANOS, DESDE LULA – tudo em cima do muro. Ah o Lula disse que vai fazer, esperemo aqui co bundão no sofá e se nu dé metemo a lata vazia na fuça do felaputa….

    papelão, vergonha. essa é a lição deixada por uns grevistas que deveriam ter baixado a cabeça em junho, enfiado os pila no bolso e ir trabalhar. teriam saido com algum resquicio de dignidade.

  7. 9 Gilberto

    aliás, ouço vozes: a Dilma deu R$ 15 bi pras faculdades que vendem diploma. puta merda: os grevistas são bons mesmo, pois a maioria dos diplomas vendidos tem assinatura dos avaliadores do MEC, que em maioria são de universidades públicas e aprovam TODOS, TODOS – QUALQUER CURSO, QUALQUER COISA. Avaliação do MEC é turismo remunerado. sei de um caso de um professor que só aprovou um curso depois de receber umas aulinhas numa especialização – e andou na Europa às custas da viúva, e outras duas comissões que, sem saber, aprovaram dois cursos que não existem embasados em documentos pretensamente reais: os dois cursos aprovados na realidade são apenas um que garante três diplomas – um tecnólogo e dois bacharelados – em 4 anos! Esses são os grevistas que foram à greve, e eu fico pasmo, sem uma pauta de reivindicações e ficam mugindo mundo afora: NEGOCIA, DILMA!! Mas negociar o que cara pálida????????????


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