“Como dizia uma velha comendo sabão, ‘é brabo, mas é queijo’!”

21ago12

O texto abaixo tem mais de dez anos. Eu o escrevi a propósito da greve de 2000. É um texto longo e chato, mas dá uma noção das razões pelas quais recebi, na época, a comenda “Velocino de Ouro”, pelas mãos do Professor Róbson Reis, medalha da qual muito me orgulho. Tendo em vista as circunstâncias, e lembrado que fui da existência dele, partilho-o com meus dezoito leitores.

A “greve” em curso pode ao menos se prestar para um exercício de ontologia. Lembremos uma distinção feita por Strawson, em Indivíduos, ao discutir a capacidade do esquema conceitual humano de identificar particulares. Ele caracteriza um tipo de conceito que ele chama de sortal. Sortal é, então, um conceito universal que nos fornece um princípio para distinguir, contar e reidentificar particulares, para dizer de que tipo ele é. Sortal, creio eu, é proposto a partir da expressão em inglês sort, que quer dizer tipo, espécie, forma, maneira. Como verbo, sort quer dizer classificar, ordenar, selecionar, etc. Se um sortal pode ser aplicado a um objeto em algum momento, então ele se aplica a esse objeto em toda sua existência. Assim, “gato”, “lebre”, são sortais, e “coisa”, “coisa vermelha”, “chuva”, não são sortais. A palavra sortal não ocorre na língua portuguesa. Os tradutores do Dicionário Oxford, por exemplo, a traduziram por “categorial”, com a seguinte definição: “termo usado para referir um substantivo ou predicável, como “homem”, “mulher”, ou “tigre”, que fornece um princípio para individuar e contar exemplos de coisas de um tipo.” Os sortais, que foram sugeridos por Locke, no Ensaio, III, 3, também podem ser chamados de “termos contáveis”.
Uma “greve” é uma coisa? A ela se aplicam os sortais? Parece claro que não é uma coisa. Mas em algum sentido podemos dizer que contamos greves. Por exemplo, quando nos referimos à greve do ano tal. Então, contamos algo. Qual a natureza desse algo? O que é isso que contamos? Em suma, o que é, ontologicamente, uma greve? Uma ação/processo/evento/acontecimento de natureza social-histórica? Ação, processo, evento ou acontecimento? Quais são as expressões adequadas? Se a greve é conceituada como uma “ação coletiva … que acarreta um dano efetivo à contraparte, porque bloqueia a produção” (Dicionário de Política, Bobbio, p. 560), temos um problema. Não é bem esse o bicho que contamos. A menos que você adote a seguinte definição de Universidade-que-faz-greve: “local de produção de bacharéis e licenciados em geral.” Mas qual seria mesmo a tal da “contraparte”?
Um dos problemas aqui embutidos é se ações e acontecimentos podem ser entendidos como se fossem objetos, isto é, como um certo tipo de coisa que pode ser localizada no espaço e no tempo e descrita de maneiras diversas. Uma posição alternativa a essa é a que diz que a identidade de ações e de acontecimentos depende essencialmente dos conceitos ali envolvidos. No caso de “greve” parece que os dois pontos de vista devem ser considerados como complementares. Afinal, as “greves” da Universidade sempre provocam acontecimentos que podem ser descritos como “objetos”: demissões de motoristas de ônibus, de operadores de xerox e de outras ocupações que vicejam na periferia da Instituição. Mas as “greves” dependem também de conceitos. Afinal, qualquer dicionário de política indica, na tipologia das greves, greves de protesto, greves simbólicas, demonstrativas, de constituição de identidade, de tática, etc. Assim, ao contarmos as greves vamos usar algumas notas características que darão ao conceito limites, contornos, condições de aplicação.
E eventos? Um evento é usualmente uma mudança, com alguma duração, que podemos observar nas qualidades ou nas relações de alguma coisa. Não por acaso a expressão por vezes é usada para designar fenômenos naturais nos quais as explicações de natureza causal são relevantes e onde prescindimos de conceitos intencionais, que são, ao contrário, indispensáveis para o conceito de ação.
Contamos as greves por datas: a de 84, a de 92, a de 96, a de 98. Elas tem uma identidade, podemos lembrar desta e daquela. A identidade que lhes conferimos é de natureza temporal. Dizemos coisas assim: “Na greve de 84, que durou mais de três meses, os supermercados nos abriram linhas de crédito quando o governo militar nos cortou o salário”.
Tome a frase acima: “Na greve de 84, que durou mais de três meses, os supermercados nos abriram linhas de crédito quando o governo militar nos cortou o salário”. A forma dessa frase sugere que a identificação da greve é feita apenas pelo indexador temporal, 1984. A descrição que se segue parece ser apenas o relato de um certo acontecimento menor localizado no contexto do primeiro, que não contribui para o entendimento da identidade e da natureza do acontecimento, a “greve de 1984”. Da mesma forma, poderíamos seguir contando coisas e mais coisas que aconteceram nessa e naquela greve; invariavelmente a identificação de uma greve particular será feita por meio de um indexador temporal, que funciona de forma semelhante aos dêiticos: “eu”, “tu”, “aqui”, “lá”, “agora”, “amanhã”; a capacidade que essas expressões tem para produzir referência depende inteiramente do contexto de uso. O que acontece quando usamos datas para referir as greves? É apenas uma convenção cômoda? Bem, se a diferença entre 1985 e 1988, na história do Brasil, é apenas uma questão de contagem de anos, é certo que a identificação das greves é totalmente exterior a cada uma delas. Temos aqui um caso trágico de afasia cultural e política.
O que acontece se identificamos as greves por meio de datas? A meu ver, os malefícios não são poucos: elas sutilmente deixam de ser acontecimentos sócio-históricos e passam a ser vistas como eventos identificados por marcas externas aos mesmos. A greve é eventualizada. Há só uma vaga referência ao “movimento”, mas que no nosso caso é semelhante ao das marés. A identificação por meio de datas evita a discussão das características da greve, de sua identidade através do espaço e do tempo. Mais ainda: cria a ficção de um objeto estável, cuja essência estaria garantida em algum lugar (incerto) da literatura sobre o movimento operário. Na frase que citei como exemplo, tudo aquilo que se segue à virgula depois do ano faz parte da identidade daquela greve (e isso se aplica a todas as demais) e possui uma relação substantiva com aquele momento. Caso contrário, não temos um objeto sócio-histórico e podemos nos referir às greves como se fossem safras de uvas!
“Greve” é um desses conceitos que toma uma parte de seu sentido dos contextos e conjunturas em que é aplicado; a outra parte é tomada da história do movimento operário e sindical. É certo que podemos introduzir novos elementos no conceito, nos momentos adequados. Mas não há limites para isso? Creio que não é por acaso que nas Assembléias do Sindicato não se faz mais aquilo que se chamava antigamente de “avaliação de conjuntura”. Aquelas que são apresentadas nas assembléias são cozidos e requentados pratos ficcionais de atropelo ao senso.
Qual é a caracterização de Universidade adequada para as greves que fazemos? Se nossas “greves” querem dizer “parar a Universidade”, é óbvio que nunca fizemos nenhuma greve, desde os anos setenta, mesmo que todos os professores tenham parado todas as aulas de graduação. O que fazemos, desde o início, é parar e adiar por algumas semanas as aulas que damos para os cursos de graduação. Até 1985 isso era tolerado e não nos perturbava porque não apenas havia uma ditadura a ser combatida, havia um Estado de Direito a ser alcançado. E, o que é mais importante, apenas se erguia o sistema de pesquisa e pós-graduação.
Se paramos para pensar no que mudou na Universidade fica claro porque algumas pessoas consideram nossas greves, de uns tempos para cá, como pequenas farsas, tingidas de hipocrisia e cinismo: a UFSM tem quase mil e quinhentos alunos de cursos de pós-graduação, tem centenas de bolsas de estudo do CNPq e da CAPES, tem prazos rígidos para a conclusão dos mestrados e doutorados, tem milhões de reais em financiamentos de pesquisa, e isso não pode parar. São os nossos altos-fornos, que não podem ser desligados. Assim na medida em que foi crescendo o sistema de pós-graduação e pesquisa, o simplismo de parar as aulas (que fazia algum sentido no contexto de enfraquecimento da ditadura militar) deu lugar ao cinismo de parar as aulas da graduação (algumas da especialização, quem sabe, ou de algum mestrado teórico que até pode parar algumas aulas, desde que não ocorra prejuízo do calendário da pós, pois que a Capes está aí para cortar as bolsas); nossos estudantes de graduação passaram a ser a cota de sacrifício que usamos para encenar, anualmente, para a grande imprensa, o drama do ensino público e gratuito. O diabo é que nossos atores não estão gostando muito do papel que lhes toca, pois alguns acham que o drama está virando uma farsa. O povo, como todos sabemos, é bobo, e acha que o nosso privilégio de parar por três meses sem perda de um centavo está muito certo e bem, pois afinal a gente depois repõe a produção, não é mesmo?
O pior cego é o que quer ver. Se a realidade institucional mudou, se caiu neve em seus cabelos mas seu discurso continua o mesmo, há uma boa chance de você enfrentar problemas de relacionamento com essa coisa meio fora de moda que é a tal da realidade.
Centenas de professores, eu creio, não mudamos muito. Continuamos visando os alvos de sempre, em termos de defesa da universidade pública, gratuita, de qualidade. Só que não há nenhuma greve decente para se fazer, ultimamente. Essas que vem sendo feitas nos últimos anos, em nome da defesa da universidade, quem quiser chamar de “greve” e de “defesa”, que chame. Afinal, como dizia a velha comendo sabão, “é ruim, mas é queijo!” Quando nos cobram alternativas para o movimento, é difícil que eles prestem atenção em nossa pergunta de troco: alternativas para o quê? Para o movimento docente ou para a defesa da Universidade? Se é para o movimento docente, acho que ainda está para nascer o camarada que vai lhe fazer a autocrítica, como na novela do Carlos Semprum Maura. O movimento não se movimenta mais e não há nenhuma alternativa de reconstituição da capacidade de interlocução do mesmo à curto prazo, prisioneiro que está da retórica fácil dos grandes relatos e slogans. Para a defesa da Universidade? Aí é mais fácil achar um rumo: em primeiro lugar, vamos parar de ser incoerentes. Dissemos, durante anos, que o ensino, a pesquisa e a extensão eram indissociáveis. Muito bem. Quando a freguesia ficou convencida, zelosamente mostramos, por meio de greves intermináveis (que nada mais são do que o adiamento das aulas da graduação) que essas atividades são perfeitamente dissociáveis. Que tal uma greve de férias? Hein? Cancele as férias! Vinte dias de trabalho voluntário! Não acha que isso funcionaria melhor como protesto?
Acho que “greve” não é um termo sortal. Por mais que nossas greves tenham se transformado, como dizem alguns, “numa coisa” (e eles estão certos, na medida em que elas cada vez são menos ações e mais eventos), o termo mais parece ter se transformado em um adjetivo. O leitor cuidadoso logo vai encontrar os substantivos que ela qualifica. Isso poderia nos levar a explorar a hipótese de que “greve” seria uma expressão que no nosso contexto sindical funciona como exteriorizadora. Mas isso já seria uma outra conversa.

(Esse texto é uma homenagem à Tânia, ex-operadora do xerox do Prédio de Apoio (o Antigo Hospital). Digo ex- porque ela foi demitida no decorrer da atual greve. Em todas as greves da Universidade alguém é demitido. Claro que isso acontece fora dos quadros da Universidade. Isso não deve ser objeto de lamento. O lamento deve ser deixado por conta das Zélias da greve, para quem as operadoras de xerox devem ser apenas um detalhe.)
Santa Maria, 07/06/2000
PS: Se você insiste em dizer que não há aqui nenhuma proposta, só me resta dizer: o pior leitor é o que quer ler. Seu caso é de afasia cultural e política mesmo. Busque um tratamento.

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2 Responses to ““Como dizia uma velha comendo sabão, ‘é brabo, mas é queijo’!””

  1. 1 Gisele Secco

    Obrigada, Ronai, por lembrar-me de um dos primeiros textos “de formação” que li na Universidade. E também ao Róbson (lembro-me de uma “aula” conjunta que deram sobre greves. Lembro também de quase ter sido impedida – por colegas ravicalmente redolucionários – de entrar na sala de aula para fazer a primiera prova de Lógica I. Felizmente fui salva pelo professor Abel e, desde então, estou lidando bem com as acusações de peleguice). É verdade que a Universidade hoje não é mais “a mesma” hoje em dia (somos maiores e temos mais dindin), mas infelizmente não é verdade que tenhamos amadurecido na mesma progressão da expansão. As lutas e movimentos caducam como o quê, e ainda não estamos mostrando que somos capazes de reinventa-las, de maneira mais propositiva, positiva e fazedora (ao contrário de restritiva, negativa, etc).
    De todo modo, tem coisas que vem de casa, e meu modo de viver e valorizar a Universidade veio da minha.
    Um abraço!

  2. 2 Ronai Rocha

    Dear, dearest!@!


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