Uma modesta proposta de volta às aulas

22ago12

Assim, ao nível de proposta, bem menos antropofágica do que aquela de Swift, vem surgindo uma nova forma de trabalho no campus da Ufesm. As premissas são óbvias; o çepe faz o que quer, a Reitoria assiste e espera, e assim, cada um fazendo o que gosta, a coisa vai virando uma bosta; a letra aqui é do Aldir Blanc, é claro. O professorado que não aderiu ao protesto contra Power Dilma, por ter lido (ou não!) uma virgula de Lenin (o tema aqui é o da seriedade de uma equação que deve levar em conta condições subjetivas, condições objetivas e a qualidade das reivindicacões, que antigamente era chamado pela gente de “avaliação de conjuntura”, algo que virou fumaça), resolveu aderir ao contra-protesto: se cada um faz o que gosta, ficou aberta, desde a ultima sexta-feira, a temporada de volta às aulas. Na prática, funciona assim. Cada grupo de professores e alunos trata de se organizar; muitos brevistas arrependidos já começaram a terminar o primeiro semestre; muitos não-brevistas, entre eles eu, estamos nos reunindo com nossos alunos para começar o segundo; outros, eu entre eles, estão propondo aulas livres, para quem não suporta mais ficar em casa apenas lendo e escrevendo solitariamente. Vai ser assim, como era em Bolonha, em 1200: alunos e professores se encontram para celebrar o conhecimento. Afinal, as alternativas são terríveis. Os brevistas assumiram o controle do çepe e ataram as mãos da Reitoria. Por eles, a breve somente terminará quando Power Dilma ceder. A pós-graduação já começa a olhar para a graduação como se ela fosse um jardim de infância, o que não é verdade: a graduação é o bode da breve, na visão protestante. O que nos resta? Esperar que o çepe aprove os pedidos de estágio e começo de aulas para quem recusou a breve? A páscoa já passou.
Eu mesmo vou passear na floresta, de um jeito ou de outro. Não vou comer ninguém, claro, pois me faltam disposição e forças, como seria no caso da proposta de Swift, mas a indiferença, num caso desses, beira a alienação e não tenho mais idade para isso. Eu quero mais é celebrar o conhecimento, com aulas livres, aulas regulares, whatever, mas que simbolize a recusa dessa farsa de expiação chamada de “greve”. Se uns se dão o direito de encenar uma falsa tragédia de pseudo-heroísmo, se outros se vestem de esperanças, como terão coragem de tirar de nós o direito de celebrar o conhecimento?

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6 Responses to “Uma modesta proposta de volta às aulas”

  1. 1 Alexandre

    Em minha conversa com os alunos perguntei-lhes o que preferiam, começar já ou esperar pelos brevistas e trabalhar no inferno bocamontino. A grande maioria preferiu começar já. Expliquei-lhes então que estava valendo. Não seriam aulas livres. Seria o início oficial do 2º semestre, e quem faltasse receberia falta. Os que não conseguissem se matricular devido a funcionários em breve deveriam assistir às aulas normalmente, como se matriculados estivessem. Tudo será registrado, trabalhos, avaliações e faltas. Assim que o sistema estiver no ar, atualizamos tudo. Dia 15 de dezembro estarão todos de férias…

    • Contra a versão corrente de falta de condições de trabalho, na minha modesta sala de aula temos ar-condicionado. Assim, o inferno bocamontino não é o grande problema. O problema, como sabes, é essa deriva que faz com que nossa graduação comece a ter problemas de auto-estima, reféns que são da falta de iniciativa de uns e do desiquilibrio institucional de outros. Vamos em frente com nossa modesta proposta de fazer o que gostamos, sem a rima do Aldir Blanc.

      • 3 Alexandre

        Ronai, na sala que dou minhas aulas o ar condicionado funciona (apesar da sinfonia dos pingos que caem para dentro da sala sobre o balde improvisado e que atrapalham as aulas), mas em muitas salas do nosso dpto os aparelhos ou estão quebrados ou só ventilam. Na maior das salas, que às vezes serve de auditório, o aparelho é um mini-split que no auge do verão não daria conta nem do meu quarto de dormir! Nessa sala (a única em que cabem as turmas grandes de teoria e percepção) é impossível trabalhar no verão, pois a temperatura, mesmo com o arzico ligado, chega tranquilo aos 50º. Não se pode abrir as janelas porque a sala é rapidamente invadida por uma revoada de marimbondos (os ninhos em torno do edifício são prolíficos)… E o novo complexo da música, próximo ao vosso edifício, já era para estar pronto há um ano… mas as “irregularidades” típicas do serviço público vêm impedindo o fim da obra…

        Em outras palavras, nossas condições físicas estão longe de ser das melhores, mas isto é muito mais fruto de politicagem na distribuição das verbas da Ufesm que outra coisa…

      • 4 Róbson

        Ronai, nem celebração do conhecimento, nem conhecimento: já circula no nosso Departamento a declaração de que não serão liberadas chaves das salas de aula para eventuais professores amantes do saber (ou praticantes de desobediência çepeal). Obviamente, o autor de tal decisão é desconhecido, apenas os declamadores têm nome.

      • 5 Ronai Rocha

        Inacreditvel!

  2. 6 Ananda

    Só uma observação para dar o tom do que será os graduandos terem aula em janeiro: mesmo com salas climatizadas (o que é certamente um alento), os alunos ainda enfrentarão o inferno bocamontino no ônibus, que não é climatizado e vai sempre lotado, ou no sol para aqueles que vão a pé.


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