“Greve democrática ou autoritária?”

05set12

Reproduzo abaixo o artigo que foi publicado no Diário de Santa Maria, faz poucos dias. Eu tenho insistido aqui sobre o fato trivial de que o orgulho pelos mais de cem dias de “greve” que alguns sindicalistas ostentam nada mais é do que uma fachada de cinismo que tenta esconder um escândalo jamais visto na história sindical de Santa Maria: na impossibilidade de manter a paralisação com suas próprias forças, arquitetaram uma manobra, bem sucedida, diga-se de passagem, de pedir uma bengala para os órgãos colegiados da Ufsm, levando-os a suspender as aulas. Desde o início de agosto vivemos uma farsa que os sindicalistas insistem em chamar de “greve”. O Professor Leandro Costa da Silveira, membro do colegiado, escreve abaixo sobre como vê isso:

Como alguém que cresceu durante o regime militar, eu não conheci greve na minha infância. Hoje sou pai e tenho que ensinar aos meus filhos que greve é o ato de recusar a fazer algo que se é obrigado.
Um dia destes, meu filho menor disse que estava em greve com as bananas que eu havia comprado. Afinal, elas não estavam maduras, e ele teve que aguardar o amadurecimento por mais um dia. Assim, ficou um dia em greve de bananas. Ele não é obrigado a comer bananas, mas ele as ingere diariamente, e por um dia foi impedido.
Eu sou um dos privilegiados membros do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) que tiveram a oportunidade de decidir o destino de mais de 30 mil pessoas que formam a comunidade universitária da UFSM ao tratar do calendário acadêmico. De um lado, estava um grupo que defendia uma medida para oferecer uma bengala à greve da UFSM, que não se sustentou pela maioria, mas por uma minoria barulhenta. De outra parte, os que, por aceitar a diversidade de uma universidade, defendiam um calendário para os cursos aptos a começar o segundo semestre. O grupo de 46 presentes decidiu por 31 votos a 15 que não se poderia escolher.
Não há mais o direito de opção individual. Muitos terão de esperar até o fim da greve que não participaram para conhecerem quando será o dia da retomada das suas atividades letivas, que se dará após a recuperação das aulas daqueles que optaram pela greve. A estes, tudo: o direito democrático de optarem pela greve, de obstruir prédios e estradas. Aos demais, a submissão a um ato autoritário que impede inclusive o direito de escolher pela greve. Pois se hoje não temos aulas, não é porque estão em greve. Não há outra opção. Neste caso, tivemos uma proposta que dava liberdade e uma que tolhia a liberdade. Quantos serão atingidos por esse ato?
Nessa democracia, a decisão vai numa única direção. Aceite isso ou… Não existe ou. Agora temos que acabar com a greve para poder trabalhar. Antes, podíamos conviver com a divergência. Como posso ensinar aos meus filhos o que é autoritário e o que é democrático? As bananas amadureceram, a vida continua. Vamos dar a oportunidade aos demais também amadurecerem.
Professor e coordenador do curso de Engenharia Mecânica da UFSM
LEANDRO COSTA DE OLIVEIRA

Eu não pedi licença ao Professor Leandro para fazer essa republicação e espero que ele não se incomode em ser visto por aqui. Mas eu não pude resistir em divulgar o texto dele, pois somos, ao menos, uma boa dúzia, espero, a registrar nosso ponto de vista sobre a decadência política e moral desse momento de nossa vida sindical.

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13 Responses to ““Greve democrática ou autoritária?””

  1. 1 Edmund Burke

    Ao Leandro: Touché e parabéns pelo texto!

    Aos dirigentes do ex/finado-sindicato de DOCENTES da UFSM:

    Parabéns pela tarefa realizada, “camaradas”. Exímio trabalho. O Zé Maria e a Marinalva (sempre pela ordem da hierarquia) devem estar orgulhosos de vcs .

    Mas atenção: cuidem direito agora na confecção das Atas das Assembléias,..sabe como é podem querer impugnar legalmente a alquimia feita ontem. Contar e somar votos de assembléias diferentes e com propostas votadas também diferentes não é lá muito legal…

    Mas entendo..O que importa é sempre o fim (a causa…) e não os meios. Mas essa lógica é um detalhe burguês mesmo!

    A todos:
    Eu proponho um movimento de desfiliação em massa do nosso Sedusfm.

    Slogan: Sedusfm? Tô fora!

    • 2 Vitor Biasoli

      Prezado Ministro (nunca pensei que um dia escreveria ao seu Edmund – será que é esta a maneira correta de me dirigir a esta autoridade?).
      Prezado Ministro, acho que não é hora de propor desfiliação.
      Se um dia o senhor defendeu o direito dos colonos da América questionarem a autoridade do Rei, não é o caso, agora, de defender que os mesmos pobres colonos atuais – ou, em outros termos, os aturdidos sindicalizados da SEDUFSM – dialoguem e se entendam com seu Rei?

      • 3 Róbson

        Prezado Vitor, depois de mais um esbulho promovido pela Coroa, você acredita em algum diálogo que não seja para continuar explorando e dominando a Colônia? O tiranicídio mata o corpo físico do Rei, mas não o corpo artificial. Contudo: antes República do que Monarquia! O dia em que todos os docentes da UFSM puderem deixar seus votos numa urna para decidirem questões como as de ontem, então teremos deixamos de ser colônia. Um abraço.

  2. 4 Alexandre

    Apoiadíssimo, Róbson!!

  3. 5 Alexandre

    Olha, desculpem-me se incomodo com um certo realismo que pode ser visto como pessimismo: não acredito em sindicalismo. Nossa constituição, entre outros problemas, tem esse defeito de confundir democracia com técnicas para agradar a gregos e troianos. Nenhum sindicato central jamais representará a contento os anseios de categorias profissionais num país de 200 milhões. Nem a SEDUFESM nem nenhuma outra seção sindical jamais representará qualquer coisa que não seja os interesses ideológicos e financeiros de quem ali estiver na liderança, pois sua ambição é “unificada”, para usar o termo do nobre professor Figueirense. Qualquer ilusão em contrário será mérito dos demagogos da vez. É parte do ser político atribuir a si os ganhos e a outrem as perdas. Os iluminados do SEDUFESM/DESANDES jamais assumirão a responsabilidade pelo malfadado PL.

    Em outras palavras, educação pública gratuita de boa qualidade é uma quimera. “Ahh, mas se não roubassem tanto seria uma maravilha”… Mas eles roubam muito e continuarão roubando. E porque o roubo e a impunidade dependem em parte da falta de educação, é claro que continuarão roubando. E quanto mais se disserem defensores dos fracos e oprimidos mais roubarão… O socialismo é como a religião. Sem problemas perde a razão de ser…

    • Alexandre.
      Concordo contigo que um sindicato Tenta agradar gregos e troianos e faz a politica de uns a custa dos outros. Mas isso e um problema de um tipo de igualitarismo que nivela pelos “piores situados” para garantir demagogicamente seu poder.
      Uma solução para isso e o pluralismo sindical no nivel local ou regional. Havendo diferentes sindicatos você se filiaria ao que lhe interessa. O problema se transfere ao governo. Ele terá que decidir qual propostas ele vai contemplar.
      Assim, poderiamos ter um sindicato aqui que fosse independente das centrais e encaminhasse os interesses de seus filiados.

  4. O Leandro, que não conheço pessoalmente fez uma bela manifestação. Cheguei ao Brasil dia 9/8/2012 depois de posdoc na Inglaterra.
    Pensei que se tratava de mais uma greve insana como tantas outras. Mas depois da deliberação do CEP/UFSM, que impediu os cursos que haviam cumprido as aulas e exames do 1. Semestre, percebi a gravidade da situação.
    Te expressas muito bem sobre o episódio.
    A Universidade foi dominada pelos grevistas! Perdeu-se a liberdade de opção. Esta e a razão pela qual democracia (governo da maioria) pode tornar-se totalitária. O coletivo se impõem de forma absoluta sobre o individual. Liberdades individuais são vistas como “individualismo burguês”. Disto decorrem todas as outras consequências: bloqueio da entrada do pórtico, invasão da reitoria para impedir o acesso aos que querem trabalhar, suspensão do calendário para os que querem dar aulas, etc.

    • 9 Alexandre

      Ricardo, não entendi por que dizes que a democracia pode tornar-se totalitária. A questão é que a democracia requer a participação de todos nas decisões, caso contrário não se ouve a vontade da maioria. O que acontece hoje na UFESM é que, de um lado, a maioria não brevista quase não se manifesta nem se organiza para tal. E do outro lado a reitoria não cumpre as leis de greve. A combinação desses dois problemas resultou num estado de exceção na UFESM, onde realmente deixou e continua deixando de haver democracia. A universidade vive hoje literalmente sob uma ditadura sindical…

      Há coisas na lei brasileira que são feitas para não funcionar. Uma delas é a exigência constitucional de que só possa haver um sindicato por categoria por município…

      • A Democracia e’ caracterizada pela soberania popular, ou seja, o governo do povo para o povo. A questão esta’ no modo como a soberania popular poderá ser exercida. Através de que instituições? Ou seja, como se passa dos princípios para a institucionalização?
        Há duas formas básicas: a) a democracia direta; e b)a representativa. Mas pode-se ter uma mistura destas formas tb na sociedade.
        A constituIção de um Estado Democrático de direito prevê direitos individuais e coletivos.
        Mas quando o coletivo se sobrepõe ao indivíduo e as minorias há uma ditadura da maioria se os direitos individuais não forem preservados. Entre eles estão as liberdades. Por isso a liberdade de expressão, de deslocamento e de organização, desde que nos marcos do sistema, precisa ser garantida. Caso contrário, pessoas poderiam ser perseguidas e cerceadas por ter uma ideal diferente. Assim aconteceu no surgimento e consolidação dos regimes comunistas e fascistas, íncluindo os Estados Teocraticos contemporâneos.
        Por isso não pode haver democracia sem liberalismo político.
        Deu para entender?

  5. 11 Edmund Burke

    Obrigado pela deferência prof. Biasoli. É uma honra receber a atenção do impoluto professor. Nesta desolação política da colônia não sou ministro de nada; somos (todos nós…) apenas colegas-reféns dos “Reis” locais. O problema maior , no entanto, é que nosso reis daqui são “servos-servis” de outros reis maiores e mais ameaçadores à “liberdade individual” (àquela dita “burguesa”, mas que rege a civilização ocidental lato sensu…). O coletivismo autoritário se reproduz a largo passos nestes últimos anos e com força inaudita. Não vejo alternativa endógena de mudanças para o atual Sedusfm.O auto-engano político ainda é muito grande nesta colônia…

    Continuo propondo a desfiliação em massa do atual Sedusm e (concordando com a proposição já feita aqui) trabalhar na construção de um sindicato alternativo e mais respeitoso ao indivíduo; talvez filiado ao Proifes. Hic Rhodus, hic salta!…

  6. 12 Ricardo Bins di Napoli

    Caro Edmund.

    Estou fora do SEDUFSM há algum tempo. Foi quando a diretoria de plantão resolveu, no meio de uma negociação com a UNIMED para reajustar os serviços, colocar alguns detalhes da proposta na mídia denunciando a UNIMED como um bando de patrões ávidos pelo dinheiro alheio. Perdemos o plano por alguns meses e o súdito aqui, que precisava de um médico só pode pagar suas consultas e exames que precisava em “cash”.
    Gostaria de saber a tua verdadeira identidade. Como sou novo nesse papo digital, gostaria de saber pelo menos com quem falo.
    O teu “pseudônimo” deve ter alguma razão de ser. Quem sabe podes me explicar tb a razão de ser do mesmo?
    Vi que meu colega Vitor o trata de Ministro, o que denota uma certa reverência no falar.

    Att.,

    Ricardo.


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