Objetos perdidos na mornidão dos dias que virão

14set12

A UFSM executará, em 2012, um orçamento superior a um bilhão de reais. É, de longe, um dos maiores – se não for o maior – orçamentos de um CGC no interior do estado do Rio Grande do Sul. Esse orçamento faz parte de um complexo de investimentos em educação que começou a ser planejado e executado nos anos setenta, em plena ditadura militar. Não há nada parecido com isso ao sul dos Estados Unidos: México, Argentina, Chile, para ficar nos maiores, não tem nada parecido com o nosso sistema de educação superior gratuita, de apoio a pesquisa, etc. Em todos esses países existe disposição de paredismo tão valente quanto a nossa. Esse sistema, evidentemente, não foi construído por movimentos paredistas. Somente descerebrados podem esquecer que tudo isso começou, na forma como existe ainda hoje, nos anos setenta, e depois de 1985, nenhuma mudança radical aconteceu. Aliás, uma delas ocorreu: somente em Santa Maria da Boca do Monte passamos de mil e duzentos professores para mil e setecentos, a imensa maioria deles em tempo integral e dedicação exclusiva, com mais de vinte e seis mil alunos, com milhares de bolsas de incentivo a pesquisa, em todos os niveis de ensino. Agora faça a seguinte conta: divida um orçamento de um bilhão de reais por quatro meses e imagine uma ficção: que a Ufesm tenha sido, efetivamente, paralisada por quatro meses. Com essa conta e com essa ficção dá para entender a farsa que foi encenada aqui?
Algum centavo desse bilhão de reais terá sua execução comprometida com a tal “paralisação da Ufesm”?
A Ufesm perdeu uma imensa oportunidade de aprendizagem institucional quando o Cepe, com o beneplácito de sua presidência, aceitou decretar “greve branca”, ao suspender o calendário escolar. Em nome do bom senso, resolveram abrir um aviário de corvos. Qual será o custo desse escândalo institucional, em prestígio institucional e olhos?
Ou alguém acha que essa farsa, que alguns estão chamando, quase em histeria cívica, de “a maior xxxxx”, “a xxxxx mais forte” será esquecida na mornidão dos dias que virão?
Um saldo, no entanto, é positivo. Finalmente provamos para a nossa cidade que o campus vive, sim, numa redoma, vive sim cercado por muros; alguns aproveitam os muros e a redoma para trabalharem feito bichos, fazendo todo tipo de coisa típica de uma universidade; outros aproveitam os mesmos muros para jogar faz-de-conta-que-salvamos-o-mundo. Afinal, se de fato todos esses milhões ficaram parados, como garantem alguns comandantes, haveria algum muro mais alto a nos separar do pobre e reles mundo municipal? E se não ficaram parados, se o orçamento vem sendo executado sem um centavo de desvio, poderia haver muro mais alto para desmentir essa conversa fiada de xxxxx?
Pior que falta de vergonha é falta de memória, diria Capistrano de Abreu, falando sobre alguns dos objetos perdidos na mornidão dos dias que se passaram.

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3 Responses to “Objetos perdidos na mornidão dos dias que virão”

  1. 1 Alexandre

    Excelente, Ronai!

  2. 2 Alexandre

    Veja que a safadeza é assumida publicamente pelos defensores dos fracos e oprimidos:

    “Durante uma rápida conversa, [o reitor, Sr. Felipe] Müller afirmou que já começou a tomar as providências que lhe cabiam, como a convocação de uma reunião do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) para avaliar o funcionamento do calendário acadêmico a partir de agora. Quando questionado sobre a existência de alguma proposta de calendário, o reitor afirmou que existem duas possibilidades, embora tudo só vá ser decidido na reunião do CEPE. Uma delas seria trabalhar a recuperação das aulas do primeiro semestre a partir da carga horária não cumprida. A segunda proposta seria de recuperação a partir de dias letivos, também não cumpridos. A reunião do CEPE será realizada na segunda-feira, 17, às 16h”.

    Retirado de: http://www.sedufsm.org.br/index.php?secao=noticias&id=1467

  3. 3 Edmund Burke

    “A Ufesm perdeu uma imensa oportunidade de aprendizagem institucional quando o Cepe, com o beneplácito de sua presidência, aceitou decretar “greve branca”, ao suspender o calendário escolar´
    Meu caro, esses recentes acontecimentos nos mostram que, antes do “aprendizado institucional”, acho que falta mesmo a “construção” da própria institucionalidade , no sentido profundo do termo. Isto é, da institucionalidade entendida como valores,princípios eregras de conduta fundantes da própria existência da organização em si…A UFSM é, ainda…,uma reunião de organizações (ou de órgãos…) administrativos (e sindical),mas com um “ambiente institucional” muito débil. Somos facilmente reféns da “organização-reitoria”, somos, mais facilmente ainda, reféns da “organização-sindicato”. Cada uma dessas organizações entendem que podem fazer “tudo”…e o “tudo” fica como está pois diz respeito apenas a elas mesmas. ..e nada à instituição lato sensu. É triste…


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