“O PT foi o único partido…”

13jan13

O que segue abaixo é um momento de nostalgia. Fui procurar uma postagem que fiz sobre o “Tratado Ontológico sobre as Bolas do Boi”, do José Quiroga, um dos melhores escritores do Brasil – mas que pouca gente conhece – e dei de cara com essa frase do Gianotti, que me pareceu bem interessante na atual conjuntura. Acho que vou recuperar mais algumas postagens de quase dez anos atrás…
“…o PT foi o único partido e o último a que me filiei…”.
A frase é de José Arthur Gianotti; ele disse isso em 1989, quando já havia tomado uma boa distância do entusiasmo que deve ter sentido no início dos anos oitenta. Gianotti esteve na assembléia de fundação do PT, no Colégio Sion, assinou a ata, junto com Marilena Chauí e dezenas de outros intelectuais e professores da USP, bem como, por certo, trabalhadores, etc.
Nessa época eu tive a feliz oportunidade de conhecer Marilena Chauí, fato que culminou com sua visita a Santa Maria, para dar uma palestra. Pude conviver um pouco com ela, aqui e em São Paulo, e não me esqueço do entusiasmo que ela depositava no PT, recém fundado. Aqui no Rio Grande do Sul, no início dos anos oitenta, o PT era menos do que um embrião, e assim que foi fundado levou chumbo grosso de algumas pessoas que militavam sob a bandeira lícita do MDB, os perrecistas. E toma chumbo grosso, durante muito tempo. Hoje esses mesmos são próceres do PT.
A vida é assim mesmo, muito d-i-n-â-m-i-c-a.
Em 1989, no mesmo encontro que ouviu a frase do JAG, estava o José Dirceu, que fez uma fala que vale a pena ouvir de novo.
(Entenda o contexto: era abril de 89, começava a corrida eleitoral para a Presidência da Republica, e Lula parecia ter chances de ganhar. Todos os itálicos são meus.)
Dizia o camarada Dirceu:
“Chegou então a hora da verdade para o partido, a hora da disputa, agora, do governo do país. O esforço que o PT tem feito nos últimos anos para produzir políticas públicas – ainda com resultados insuficientes, porque a nossa experiência mal começa nas administrações municipais – precisará ser redobrado para superarmos a nossa compreensível incompetência em gerir e administrar o Estado, para podermos assumir os sérios desafios que temos pela frente, para enfrentar as dificuldades de ordem política, econômica e social que o país atravessa.”
“Façamos, então, um comentário sobre a nossa maior angústia: seremos todos social-democratas com a vitória de Lula e deixaremos de ser revolucionários? Em vez de comandar uma coluna guerrilheira – o grande sonho da minha vida – vou ter de comandar uma coluna de carros oficiais em Brasília? Vou ter de comandar colunas de mesas de escritórios no governo, como aliás, alguns de nós do partido já estamos comandando?”
Dirceu, em poucas semanas será cassado, bem como João “Vaidade” Paulo e mais alguns do PT e de outros partidos. Vai sobrar para Dirceu nem coluna de carros em Brasília, nem colunas de mesas de escritórios; vai comandar uma chacrinha em Ibiúna, vizinho de FHC.E se o fio continuar sendo puxado vai arder mais gente nessa fogueira. Houve uma “compreensível incompetência” na tentativa de imitar as maracutaias das velhas raposas. Até para maracutaia é preciso escola. Quem não desconfia de quem dobra suas posses de ano para ano?
O PT foi o único partido a quem muita gente se filiou, como Gianotti e Marilena. Eu também. Muitos já rasgaram as fichas, outros estão constrangidos e quietos, meio sem acreditar; acho que nem o Lula acredita. “Je ne regrette rien.” Fui acusado de ser da direita da direita do PT, por ter criticado, desde os anos oitenta, a maioria das coisas que o povo petista dizia. Acho que a filiação era para mim, além do adeus à uma certa eterna disponibilidade, uma forma de poder ver e dizer as coisas desde dentro e ajudar a dar alguns passos mínimos em direção a certas reformas sociais, que o próprio PT via com horror, iludido com o papo socialista. Perdi feio a maioria das apostas, ganhei uma que outra no varejo. Eu queria que o PT virasse vidraça, para ficar parecido com os demais partidos, zerar tudo para começar um novo jogo, sem que um jogador tivesse mania de ser melhor que os outros. O nome disso, em filosofia, é “contingência”, as coisas do sublunar são assim mesmo, diria Aristóteles; mas precisavam nos surpreender tanto?
O preço da vigilância vai subir mais ainda, mas não parece haver alternativa, no municipio, no estado, no federal. Lupa neles.
Vai sobrar alguma coisa dessa demolição? Se Lula agüentar o aziago agosto, chega ao final? Lula já começa a se reunir com metalúrgicos, como a dizer que seu povo de verdade são os sindicalistas, operários, dos idos de setenta. Não parece ser bom sinal.
Em tempo: as frases que citei, de Gianotti e de José Dirceu, estão no livro PT: Um Projeto para o Brasil. SP, Editora Brasiliense, 1989.
POSTED BY RONAI ROCHA AT 9:25 PM”.
A postagem original é do antigo “Moranafilosofia”, em algum dia da metade de 2005.

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