“- Não sei bem o que o o senhor entende por ‘glória’ – …”

11abr13

“- Não sei bem o que o o senhor entende por ‘glória’ – disse Alice.
– Humpty Dumpty sorriu com desdém. – Claro que você não sabe, até eu lhe dizer. O que quero dizer é: “eis aí um argumento arrasador para você.”
– Mas “glória” não significa “um argumento arrasador” objetou Alice.
– Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exatamente aquilo que eu quero que signifique… nem mais, nem menos.
– A questão – ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes.
– A questão, replicou Humpty Dumpty – é saber quem é que manda. É só isso.
Alice ficou desconcertada demais para poder dizer qualquer coisa, e assim, depois de um minuto, Humpty Dumpty recomeçou: – Algumas palavras tem mau gênio, especialmente os verbos, que são os mais orgulhosos. Os adjetivos, você pode fazer o que quiser com eles, mas não com os verbos… Contudo, posso dominar todos! Impenetrabilidade! É o que eu digo.
– O senhor poderia me dizer, por favor – perguntou Alice – o que isso significa?
– Ah, agora você fala como uma criança sensata – disse Humpty Dumpty, parecendo muito satisfeito. Por “impenetrabilidade” eu quis dizer que já falamos demais desse assunto e não seria mau se você dissesse o que tem a intenção de fazer logo depois, supondo-se que não pretende ficar aqui o resto da vida.
– É muita coisa para uma palavra só dizer – disse Alice com uma inflexão pensativa.
– Quando faço uma palavra trabalhar tanto assim – explicou Humpty Dumpty – pago sempre extra.
– Oh – exclamou Alice. Estava desorientada demais para fazer qualquer outro comentário.”

O Padre Louro disse hoje, em entrevista na ZH, que a cena que ele descreveu, dos jovens diante de Deus, decidindo se querem ou não ficar no céu, era um “simbolismo”. “É um simbolismo. Não tem nada a ver com a realidade”. Só para constar, já que o Padre Louro fez algumas disciplinas no Departamento de Filosofia da Ufesm, faz muitos e muitos anos: de duas, três: ou ele não tem a menor idéia do que é “simbolismo” ou ele é mesmo um canalha. A terceira opção, como se sabe, ele fez faz muitos anos: sabe ganhar dinheiro às custas das lições que prega à “humanidade”, brincando levianamente de mandar nas palavras.

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5 Responses to ““- Não sei bem o que o o senhor entende por ‘glória’ – …””

  1. 1 Juca

    Dá para marcar as três opções?

    • É evidente, pelo que ele diz na entrevista, que não sabe o que é “simbolismo”, na medida em que diz o simbolismo não tem nada a ver com a realidade. Qualquer guri da faculdade sabe qual foi a sacanagem semântica que ele fez ali, então podes marcar a alternativa a); que ele ganha dinheiro dizendo que tudo é questão de “poder da mente” – e que isso é uma outra baita sacanagem, não precisa ser dito, todo mundo sabe, então vale a c); no caso da b), como se sabe, “canalha” é o sujeito que faz canalhices como escrever um livro em quatro dias para, palavras dele, “consolar a humanidade”; então, sim, dá para marcar as quatro opções.
      Epa, eram apenas três… Deve ter mais alguma que eu deixarei para depois.

  2. A pregação (canalhice) pressupõe, me parece, a patetice das pessoas. Boicote ao pregador.

    • Gisele, o Padre Louro, nos idos de antigamente, passou na seleção para o Mestrado em Filosofia da Ufesm; ele havia sido despejado, pelos Palotinos, da direção da Revista Rainha, uma pequena horta de papel onde ele cultivava beatarias diversas. Ele comandava a revista com mão de ferro e ia bem, no caminho que ele mal entendia. Desocupado pelo comando Palotino, que passou a sede da revista para Porto Alegre e para outras pessoas, o Padre Louro aportou na Ufesm, para fazer o Mestrado. Depois de alguns meses, mostrou seu projeto de dissertação para o Prof. Leônidas Didonet, então coordenador do Curso. Didonet leu o projeto e reuniu o colegiado do curso. Discutimos, votamos. E assim foi dada a má notícia ao aluno: “Seu Louro, isso não é Filosofia!” Tratava-se de um trabalho sobre o poder da mente. Padre Louro então escafedeu-se do curso e deu um jeito de transformar a abortada dissertação em um livro, publicado às suas custas. Deu no que deu. Padre Louro, graças à rejeição da Filosofia, ficou rico pregando o poder da mente; deve ter dado alguma risada da gente. Contei essa história para o repórter da Rolling Stone, anos atrás, mas ele não publicou esses detalhes. Conto agora, em honra à memória do Prof. Leonidas Didonet, e para que se compreenda melhor a trajetória do Padre Louro; afinal, na reportagem da Rolling Stone, de 1968, há uma frase estranha a meu respeito, dizendo que acompanho a trajetória dele faz trinta anos. Bem, foi inevitável, moramos na mesma cidade e eu votei pela recusa do trabalho dele como algo que tivesse algum sentido filosófico. E é com alguma tristeza que gasto energias agora com ele; mas não poderia deixar de registrar aqui nessa caderneta virtual minha opinião; o Padre Louro não tem a mínima idéia do que pensa que pensa. É, além de canalha, no sentido rodriguiano da palavra, um idiota que se proclama a serviço da humanidade. “Comme il faut”, em casos desse tipo.

  3. A humanidade, coitada.


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