Os sonhos ocos (I)

21abr13

Liguei a lambreta cedinho e saí. Miúdo veio com a dele e rumamos, devagarito, para os lados do Arroio do Só, lugar bastante para um arrepio de curiosidade no passante. Dali fomos para o Passo das Tunas e cruzamos o Rio Vacacaí sem nos molhar. E nos perdemos, empoeirados, no rumo do Passo de São Lourenço. Para chegar ao Passo é preciso atravessar o Fundo do Formigueiro, lugar onde se pode morrer de cachorro. No Fundo do Formigueiro, reza a lenda, a lei era escassa e demorada. Ali planta-se arroz e algum soja e a vida depende do tempo e da sorte, como o sabor das laranjas no inverno. O Fundo ficou famoso no tempo em que a colheita do arroz era na base da foice. Cada ramo devia ser ceifado a braço de gente e haja braço; eles chegavam nos trens de Restinga; os foiceiros, como eram chamados, moravam em turmas, em galpões mal fechados e depois que a dormência nos músculos se misturava com a tontura da cachaça barata era aquilo. No vapor a foice talhava mais do que ramos; e a lei, em Restinga, pouco tardava em fazer. E assim foi a fama do Fundo. Hoje as colheitaderas fazem, num dia, o trabalho de cem braços, que não se sabe bem onde foram parar.
De foice em foice chegamos ao Passo, nas lambretas.
Balsa-2
Felizmente o balseiro estava de plantão – safra plena – e as lambretas atravessaram o Jacuí na Balsa do santo de mesmo nome. Dali foi um pulo até Cachoeira do Sul, que desviamos, rumo a Rio Pardo pela RS 403, com um tanto mais de poeira, chão e chão. Feita a proeza – ir de Santa Maria a Rio Pardo sem andar no asfalto (em parte, pois foram inevitáveis uns trechinhos), era hora de saborear uma traíra ao molho escabeche nas margens do Jacuí, no Restaurante Costaneira. Preço modesto, comida simples, mas a traíra estava no ponto. Feito o almoço, era a hora do sonho.

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