Os candidatos e as metáforas

15maio13

Ficamos sabendo hoje os lemas das campanhas dos colegas que desejam dirigir a Ufesm. São os seguintes: “Para voar mais alto é preciso mudar”, da Chapa 1: “Seja mais UFSM”, da chapa 2; “UFSM humana, crescer com a participação de todos”, da Chapa 3.
Os três slogans exploram metáforas muito comuns no nosso dia a dia e vale a pena examinar cada uma mais de perto. Vou fazer um exercício. Não me leve muito a sério, por favor.
Como se sabe, a maior parte do nosso sistema conceitual comum é de natureza metafórica. Metáforas não são apenas figuras semânticas de linguagem e estilo, ornamentos retóricos e poéticos. As metáforas conformam, em certo sentido, nossa própria percepção do mundo, nossas formas de comportamento e pensamento. Essas ideias ganharam força desde os anos setenta, a partir do livro de Lakoff&Johnson, “Metáforas da Vida Cotidiana”, hoje esgotadíssimo. Nem na Estante Virtual descobri um exemplar para repor o meu, perdido já faz muitos anos. A essência da metáfora, como dizem esses autores, reside em se compreender e experienciar uma coisa em termos de outra. Uma dificuldade na teoria das metáforas é descobrir o chão de literalidade que serve de referência para ela. Mesmo os conceitos intelectuais puros, no interior de uma teoria científica muito abstrata não estão isentos de metáfora. O exemplo de L&J são expressões como “partículas de alta energia” (ou “funções de alto nível”); nesses dois casos ocorre uma metáfora de espacialização (“alto“); as metáforas de espacialização se enraizam na experiência cotidiana, bruta e cultural; baixo e alto dizem respeito, por exemplo, à posições em relação ao nosso corpo. Mas, diga-se logo, esse tema da base experiencial das metáforas é muito complexo. Fico no geral.
No caso da Chapa 1, temos uma dupla metáfora e vários implícitos: já estamos voando, mas baixo, e é preciso ir mais alto; são metáforas de quantidade e espacialização, mais e alto, e devemos nos imaginar como aves, dirigíveis, enfim, como objetos alados. “Alto” pertence ao grupo de metáforas como “elevado”, “para cima”, “superior” “em cima”, etc. Aqui temos metáforas orientacionais. A Chapa 2 escolheu uma metáfora mais simples, materializada no “mais”; mais é melhor que “menos”; e, da mesma forma, “mais” é “para cima”. Podemos dizer que se trata de uma variante de metáforas orientacionais. A Chapa 3 também foi pelo caminho de metáforas e implícitos: basta pensar no antônimo de “humano”; ora, instituições não são pessoas, logo, metáfora! E instituições não crescem; dê-lhe metáfora. Aqui temos metáforas com outra base material: organismos, plantas.
O ponto negativo da primeira é o eleitor que tem medo de altura ou problemas de vertigem. O ponto negativo da segunda é o eleitor que vai rechear o “mais” como bem entender. O ponto negativo da terceira é o eleitor que não é assim tão chegado no social-participativo. Acho que deu um empate.
Bela hora para reler Lakoff&Johnson.

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