Luísa espera

04jun13

Luísa esperaLuísa espera que Luís erga a parede de tijolos que vai selar a pequena peça onde ela vai ficar trancada por quase vinte horas. Luísa levou consigo um casaco, um cachecol, uma garrafa de água, coisas assim. Muitas pessoas ficaram se perguntando sobre o sentido do que ela estava fazendo. E mesmo no grupo de artistas que se apresentava na gare surgiram perguntas sobre o aspecto estético envolvido no pequeno emparedamento de Luísa. Ela não me pareceu muito preocupada em teorizar sobre o que estava fazendo. É certo que ela procurou responder, com uma suavidade e gentileza quase angelical, as perguntas que foram feitas sobre isso. Mas suas respostas eram delicados gestos de troca afetiva sobre incertezas mútuas e nunca panfletos de certezas estéticas.
No mesmo dia em que Luísa emparedou-se no “arte#ocupaSM”, a ZH publicou uma entrevista com o escultor gaúcho Saint Clair Cemin (nascido perto daqui, em Cruz Alta, e hoje um bem sucedido escultor em Nova York). A repórter (Milena Fischer) perguntou a ele sobre o “sentido estético” das obras dele. E ele disse:
“A pergunta ‘o que é arte?’ só pode ser respondida por ela mesma.”
Em resumo, disse ele, “a arte é um campo aberto para todos os sentidos. Não ter uma definição é salutar.” E acrescentou:
“É muito importante não poder definir o que é arte. Isso abre um campo de experiências vital. É um real apelo à vida! Não é uma indústria e não serve a ninguém, é um manifesto à permissão de ser louco, de sair da atividade codificada e entrar na área do extraordinário”.
Luísa e Sara e Mirieli e Adriana e Alexandre e Andreia e Benjamim e Catiuscia e Claudia e Cristiano e Cristina e os três Daniel (Castellanos, Paz e Plá) e Dany e David e Efrain e Elias e Gisela e Gonzalo e Helga e Heloisa e Hermes e Jane e Jordi e Jorge e José e Judith e Kelly e Lisandro e Lorenza e Luana e Lucas e Luciana e Marcel e Marcelo e Marcos e Maria e Mel e Nico e Power e Ricardo e Roberto e Roderick e Sandro e Sergio e Tatiana e Vani e William e Bianca e Magali e Roberto e outros tantos, juntos com Rebeca Stumm, a curadora geral do arte#ocupaSM/2013, nos deram uma oportunidade de espiar por alguns momentos a área do extraordinário.
Eles nos emparedaram no lado do comum. Acho que queriam nos dar a chance, ao mostrar alguns extraordinários, de olhar para esse comum de outras formas.
Luísa ficou vinte horas num quarto escuro e mofado, emparedada.
Eu me senti também emparedado, de certa forma. Se não me senti bem, não me senti mal, pois estou chegando numa idade em que desconfio de quem tem definições claras e distintas sobre tudo, em especial sobre essas regiões da experiência humana.

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One Response to “Luísa espera”

  1. 1 D.

    Saint Clair Cemin disse:

    “É muito importante não poder definir o que é arte. Isso abre um campo de experiências vital. É um real apelo à vida! Não é uma indústria e não serve a ninguém, é um manifesto à permissão de ser louco, de sair da atividade codificada e entrar na área do extraordinário”.

    Ora, se não se pode definir, então se deixa o campo aberto inclusive para que a arte não seja também um apelo à vida! ou seja, mas em outros sentidos… Por que não pode servir à indústria?! Pode também. O conceito é aberto, indefinível… O que há?! Por que esses critérios de valor para algo sem definição? E por que não pode servir? Pode servir, pode não servir… Pode ser uma permissão à loucura, pode ser uma restrição à loucura, pode ser um elogio à não-loucura… Inclusive pode até ser codificada e não ser nada extraordinária.


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