A menor das malas

11jun13

Mariano e JangoEu havia decidido não abrir meu voto na consultação. Cheguei mesmo a pensar em não participar da mesma, expressando assim meu desconforto com esse modo de escolha de reitores, com o qual não concordo mais desde o início dos anos noventa. Mas reconsiderei. Mesmo discordando do processo resolvi participar dele e escolher um candidato. Todos eles são boas pessoas, colegas de fino trato, mas eu acho que há ao menos uma diferença relevante entre eles, enquanto candidatos (e isso quer dizer: que trazem consigo toda sorte de apoiamentos). Essa diferença tem a ver com o clima que estamos vivendo desde o ano passado. Ali ficou claro que as pressões corporativas – todas elas legítimas, me apresso a acrescentar – tendem a crescer nos próximos anos, e que uma das metas dessas pressões é alterar a composição dos conselhos superiores da Ufesm, no sentido de serem paritários, como é a própria consultação.
Me explico.
O processo paritário de escolha, o “um terço, um terço, um terço” foi criado por nós no início dos anos 80, como forma de escolha e protesto contra o regime político no qual vivíamos desde 1964. O regime mudou apenas em 1985 e consolidou-se com a Constituição de 1988. Naquele momento comecei a pensar que a legitimidade iniciada pela base dos departamentos de ensino criaria em breve conselhos superiores suficientemente representativos para a escolha (sem protesto) de reitores por um colegiado especial (por exemplo, CEPE+Consu+Curadores) composto, evidentemente, pela maioria docente. Não foi isso o que aconteceu. Não apenas mantivemos, até hoje o “um terço” mas, ao que me parece, caminhamos para que os próprios conselhos superiores tenham um dia esse tipo de composição. Eu disse “ao que me parece” porque é o que concluo a partir daquilo que alguns candidatos estão escrevendo e dizendo sobre esse tema, desde o lançamento da consultação.
Eu não consigo engolir a falácia que consiste em comparar a universidade (que é uma instituição com estrutura e propósitos bem definidos) com uma pequena sociedade política. Fazer esse tipo de comparação é uma grosseria que somente pode prosperar na gleba rasa do populismo que vem crescendo nas universidades, a saber, no clima de crescente benevolência em relação a propostas de gestão acadêmica paritária.
O tema está embutido, por exemplo, nas discussões sobre a necessidade de uma “estatuinte universitária”. O chororô de uma estatuinte ampla e irrestrita me parece ser o cavalo de tróia para duas ou três mudanças que estão na manga de uma agenda corporativa que nada tem a ver com a essência de uma universidade. O principal alvo é a mudança da composição dos conselhos. Não há perspectiva, faz cinquenta anos, de alguma mudança substantiva na estrutura acadêmica. Ninguém, em cinquenta anos, conseguiu pensar e implementar nada muito diferente do que temos – centros, departamentos, cursos – não apenas aqui, em Santa Maria, mas também nas melhores universidades do mundo. O arremedo de reforma patrocinado no CCSH nos anos noventa foi apenas isso, um arremedo. Os departamentos e cursos do CCSH foram transformados, por maquiagem no papel, em “faculdades”. A “Faculdade de Filosofia”, por exemplo, tinha 12 professores.
Eu não sou contra uma “estatuinte”. Eu aceitaria um processo “estatuinte” que fosse elaborado com a maioria docente assegurada em todos os momentos do mesmo. E isso me parece obscuro na fala dos candidatos que se pronunciaram sobre o tema. Penso que as melhorias que podemos e devemos fazer na UFSM podem ser realizadas ainda por muito tempo, dentro do estatuto que temos; elas dependem apenas da vontade política dos agentes.
A universidade, como o diabo, mora dos detalhes. E os reitores podem pouco, podem detalhes. Todos eles são, por assim dizer, diabos velhos. Pensando nesses detalhes e depois de ler os materiais das três chapas e de tomar conhecimento do debate de hoje, estou me inclinando a votar na Chapa 2. O Professor Müller, apesar de seu tamanho, está me parecendo a menor das malas, pois até agora ele não se pronunciou a favor de uma estatuinte ampla, geral, participativa, bandeira com a qual me parecem flertar os outros dois candidatos, mais (Chapa 1) ou menos (chapa 3). Estou inclinado a votar, portanto, no Professor Felipe.
Bem sei que existiriam outros aspectos que poderiam ser levados em conta na escolha. Para mim eles são irrelevantes na atual conjuntura. A maioria das críticas feitas ao atual reitor são ao “atual reitor” e sempre serão dirigidas a quem estiver no poder. Trata-se do ônus típico de quem está no cargo. Nenhum reitor escapou delas nem escapará. Mas um reitor deve manter distância dessas comparações da universidade com uma pequena sociedade política, como se fôssemos um pequeno município ou um apêndice dele.
“Estou me inclinando”, eu escrevi. Ainda faltam vários dias para a consultação.
Vai que …
PS: Na foto estão Mariano e Jango. Qualquer coincidência é mera semelhança.

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One Response to “A menor das malas”

  1. 1 Ricardo

    Toda nova eleição me pergunto: além das coisas que fazem parte do cotidiano e do processo de expansão das IFES, qual o candidato que sera’ capaz de, além do cotidiano, ainda conseguir buscar um processo de expansão da qualidade da pesquisa, do ensino e da extensão como metas subordinadas à primeira.
    Há pessoas que entendem a universidade prioritariamente como obrigada a fornecer ensino. Mas e’ preciso entender-se que sem novo conhecimento, haverá apenas reprodução do conhecimento existente já produzido.
    Esta não me parece uma preocupacao com a inovação, a menos que o modo de ensinar fosse ele proprio um processo de introduzir inovacao.
    Neste sentido Vejo que o ensino e extensão podem ser entendidos respectivamente como divulgação e aplicação da inovação almejada.
    Por isso, a avaliação da Universidade deveria centrar-se principalmente em metas propostas em periodo anterior a serem atingidas na producao de conhecimento inovador.
    Quais as metas a serem atingidas na pesquisa nas áreas cientificas e tecnologicas em cada área de conhecimento?
    O que os reitores vão destinar para apoiar os GUPOS DE PESQUISA da UFSM?
    A pesquisa de ponta em nivel internacional em todas as áreas não e’ mais possivel com apenas uma pessoa.
    A distribuição interna dos recursos poderia ser destinada aos grupos que apresentem resultados positivos nos últimos anos.
    Quais as áreas de pesquisa básica e aplicada que são fundamentais para a sociedade brasileira inserida no mundo mundo globalizado que tenham relevância para o pais e que trariam novas patentes para a Ufsm?
    Assim também cada área (considerando os Grupos) poderia estabelecer de forma organizada suas metas cientificas?
    Os alunos deveriam com mais rapidez der inseridos nestes grupos.
    Nao ouvi falar, salvo maiores informações, que os candidatos estejam propondo algo neste sentido.


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