No frio de renguear cusco

20jun13

imageHoje fez um frio de renguear cusco e choverou miúdo toda a tarde. Mesmo assim uma multidão ocupou o centro da Boca do Monte e fez sua parte na copa das manifestações. Fala-se em duas, três, dez mil pessoas, não sei. O comércio do centro fechou cedo, quatro da tarde. Desde a manhã os motoristas avisaram os passageiros que o serviço dos ônibus ia mermar pela tarde. E assim Santa Maria não passou em branco nas manifestações de hoje. Ontem a noite eu apostei com meus alunos, com quem venho conversando sobre o assunto, que no sábado teremos em São Paulo e no Rio passeatas com mais de milhão e meio. De dois para fora, arrisco dizer. E no computo geral do Brasil, vamos à dezena de milhões nas ruas no final de semana. Depois, vai ser como no amor?
Coisa nunca vista?
Guardadas as proporções, nem de longe. Na história brasileira recente já batemos na casa do milhão e meio duas ou três vezes, desde os sessenta. Em 64, a marcha da família, em São Paulo, reuniu 500.000 pessoas, e no Rio, no dia 2 de abril, um milhão. Em 84, vinte anos depois, o comício final das diretas já reuniu milhão e meio em São Paulo. Quase trinta anos depois, dois milhões em São Paulo e mais dois no Rio, vai ser fichinha, eu acho. Afinal, assim como os bebês, que também choram por alegria, os protestos também podem ser feitos pela pura alegria da coisa. Afinal, nas palavras de Odorico Paraguassu, as gentes, depois do recuo dos governos cariocas e paulistas no preço das passagens, estão se sentindo de alma lavada. Falta apenas enxaguar.
Nos meus tempos de estudante, morei em uma república na qual um dos moradores escreveu na parede uns versos de Menotti del Picchia, sobre o amor. Segundo eles, o amor tem um ciclo, ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. A gente decorava esses versos, pois eles estavam escritos na parede do quarto mais frequentado:

Amor?
Receios, desejos, promessas de paraíso.
Depois sonhos, depois risos, depois beijos!
Depois…
E depois, amada?
Depois dores sem remédio,
depois pranto, depois tédio,
depois… nada!”

Era 1969. Estávamos na ressaca do Maio de 68, um movimento europeu que, apesar de toda a repressão que havia, teve episódios verde-amarelos, cujo apogeu foi a passeata dos cem mil. Cem mil é troco, hoje, com a diferença que os presos de hoje, boa parte deles, tem antecedentes criminais. Na época, eram, na maioria, universitários.
A gente lia esses versos terríveis e assuntava, almas desesperançadas, humor aquoso. Ruas, praças e avenidas não eram alternativas. E não nos ocorria pensar que assim como era no amor, poderia ser na política e nos nossos engajamentos pessoais, ciclos?
Mal podíamos sonhar com o que nos esperava. Tínhamos visto o milhão com deus e a família pela liberdade, mas mal chegávamos aos dez por cento. E depois, o que veríamos, se era tão pouco o que se podia fazer?
Onde mesmo ficava a saída?

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