Não há saída; há ruas, praças, avenidas

21jun13

GotasUm dos cartazes mais interessantes que vi nas manifestações de ontem trazia os seguintes dizeres: “Não há saída. Há praças, ruas, avenidas”. O cartaz me fez lembrar, como escrevi ontem, as manifestações políticas dos anos setenta e aquelas do início dos anos oitenta. Naquela época os slogans convergiam, e as frases eram poucas: diretas já, abaixo a ditadura, fora o FMI, e a coisa ia nesse tom. Havia uma saída, além do aeroporto do Galeão. Tratava-se do fim do regime militar, em essência. Hoje a Tinica me perguntou “quo vadis?“, para onde vai isso, no que vai dar isso? Eu fiquei pensando e concluí pelo cartaz que li ontem: pluft, plaft, zum, não vai a lugar nenhum: não há saída, há ruas, praças, avenidas.
Me explico melhor.
Dizem que Dona Dilma está reunida desde a manhã, para avaliar os acontecimentos. Ela está um tanto atônita e se pergunta, em especial, o que pode ser feito para interromper as manifestações que ocorrem no Brasil faz mais de semana. Ela espera que a decisão do pessoal do MPL (Movimento do Passe Livre) de não mais convocar manifestações arrefeça os ânimos e que a coisa toda se encerre nesse final de semana.
Qualquer pessoa de bom senso sabe que não há muita coisa que Dona Dilma possa fazer nesse momento, a não ser manter o bom senso; o bom senso faltou ao senador Cristóvão Buarque, que, numa crise de criatividade, está propondo a extinção de todos os partidos e a convocação de uma Constituinte já (deve estar apoiando a chapa 1, eu acho). Até Pedro Simon achou a idéia boa. Os intelectuais da USP reuniram-se hoje para conversar sobre o assunto e concluíram a seguinte conclusão: o assunto é complicado, requer uma análise muito cuidadosa.
Eu acho que é possível que a coisa arrefeça nesse final de semana. Mas depois que a coisa começa, nada nos garante que ela não volte logo, daqui a uma semana ou duas, com mais força ainda.
Tinica me perguntou para onde a coisa vai. Eu estou pensando com força nisso, mas o tempo do pobre é escasso, e o meu quase não existe mais nessa quinzena que me espera. Assim, o que eu posso dizer para a Tinica? Que eu não sei, e acho que ninguém sabe, “para onde a coisa vai?”, e “quando a coisa termina”. Todos temos uma idéia sobre de onde a coisa veio, no gatilho mais imediato: os vinte centavos, a indignação acumulada contra a corrupção e contra a roubalheira, esses cartazes. Acho que temos que pensar bastante sobre “de onde veio”, não no gatilho imediato, mas dentro do espírito do que ontem chamei, descuidadamente, de “ciclos”.
Faz vinte e alguns anos que tivemos um espasmo cívico parecido. Naquela época, como escrevi acima, os slogans eram poucos e iam na mesma direção. Em 2013, não apenas não falamos mais de uma ou duas coisas; agora partimos da base de direitos civis e políticos, para reivindicar uma multidão de coisas: qualidade de vida urbana, qualidade de educação e saúde, entre elas. E estamos reivindicando de volta alguns sentimentos que se empanaram com o tempo, entre eles dignidade e esperança.
Tinica, no fundo eu acho que as pessoas estão protestando por razões parecidas à do choro dos bebês: por uma certa alegria em se sentir vivas e dignas de um pouco mais de esperanças do aquelas que nos tem sido racionadas por nós mesmos e por nossos governantes. E é por isso que não há uma explicação simples, uma solução simples, uma saída. Estamos encalacrados mas há ruas, praças, e avenidas que esperam nossos próximos passos.

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2 Responses to “Não há saída; há ruas, praças, avenidas”

  1. 1 Eni

    Mas a melhor, o que me fez rir litros, embora seja um assunto sério, foi o “deve estar apoiando a chapa 1″… Misturar dois assuntos , o micro e o macro… Só você mesmo, Ronai… Gênio!

  2. 2 marta

    Adorei a ” chapa 1″ . Foi minha risada gostosa do dia!!!!

    alea jacta est!!!!!! Com esta acabei com meu latim!


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