Os pacíficos, os “vândalos” e a “voz das ruas”

21jun13

imageDona Dilma não resistiu ao modelito e saiu-se pelo caminho tradicional. Ela disse que as ruas estão falando e que ela está escutando.
Ou ao menos ela faz de conta que está escutando.
Ao ouvir a Dona Dilma foi inevitável lembrar de Albert Hirschman e seu livro já clássico, “Saída, voz e lealdade”. Ele sugeriu, nesse livro, um modelo de análise de coisas como a coisa que estamos vivendo nesses dias: certo tipo de acontecimento social, organizacional, político. O modelo de Hirschman está centrado nos conceitos de saída, voz e lealdade. Esses três conceitos são usados por ele como metáforas (sempre elas…) para nos ajudar a colocar alguma luz em situações obscuras como essas que estamos vivendo agora.
O modelo de Hirschman tem como ponto de partida um conceito que ele busca na economia, o de saída. Quando a gente não está satisfeito com o padeiro da esquina, procuramos nosso cacetinho em outro cruzamento. Na política o conceito de saída também funciona: a gente abandona nosso partido querido quando a hipocrisia do líder passa de certos limites; e a gente troca de igreja quando a venda de lugares no céu passa da conta. A nossa saída pode ser percebida pelo padeiro da esquina e ele tenta melhorar o pão, e quem sabe a gente volta para ele. Sair, as vezes, é um tipo de alerta para a organização da qual saímos, quando ela se dá conta disso. Para quem sai, no entanto, o significado muitas vezes é apenas que a gente não quer mais se aborrecer, brigar com o ulalá ou xingar o padeiro. A gente fica quieto e vai apenas vai embora, sai, se escafede, escolhe outra pradaria. Ou outra escola. Ou etc. A gente sai para não se incomodar mais. Sair, de certa forma, é fugir. Nos anos sessenta, a saída era o Galeão, como escrevi ontem.
Agora, a vez da voz. Voz é protesto, manifestação, é quando a gente abre a boca e tenta se fazer ouvir para mudar as coisas; queremos melhorar o partido ou a igreja, ou mudar a cabeça do diretor da escola. Voz é a metáfora para o nosso lado participativo, político. Hirschmann relaciona a voz com a saída, lembrando que sair tem um custo, e assim vale a pena tentar a voz para mudar as coisas. Por exemplo, não há saída para os states, agora, nem para a Espanha, por lá as coisas estão piores ainda…
Voz e saída se relacionam, portanto. Quanto mais não podemos sair, mais tentamos ter voz (e isso quer dizer, protestar, manifestar-se). Se estamos muito envolvidos no partido, no emprego, dê-lhe voz. Na escola, por exemplo, se não temos outra opção de escola razoável – ou seja, se as nossas saídas são poucas ou nulas – vamos para a voz.
A voz, no entanto, tem custos. Rouquidão, por exemplo. Botar a boca no mundo tem um preço e o menor deles é a dor de garganta. Mobilizar gente com a gente, negociar, juntar os pais ou os colegas de partido, tudo isso custa. A Sedufesm que o diga. Ali se pratica voz, ali se articulam as vontades e os interesses de uma categoria, por exemplo. Dretórios partidários, associações de pais, sindicatos, são voz. E quando a voz tem força? Suponha que na vila onde moro existe apenas um padeiro. Depois de muito reclamar, posso até gentilmente ameaçá-lo dizendo que vou passar a comprar pão na ilha vizinha, distante três dias em barco a remo? A voz somente funciona quando houver um outro padeiro por perto, isto é, quando a saída for uma possibilidade real.
Na realidade, a voz só pode ser exercida de modo efetivo quando há uma possibilidade de saída. Quando não há saída, a ameaça amolece.
Finalmente, a lealdade. Seu ponto de partida é simples: temos uma tendência a querer que as coisas funcionem e estamos dispostos a contribuir para que isso ocorra. Somos, digamos assim, mais ou menos racionais, desde que as expectativas que temos ao fazer acordos sejam razoavelmente atendidas pela organização com que pactuamos. A lealdade tem a ver com isso: esperamos ser bem tratados pelo padeiro e pelo diretor da escola e se isso acontecer fica tudo bem, eles terão nossa lealdade. E ela assegurará, com sorte, a nossa influência na instituição. Isso reforça nossa tendência para a voz e não para a saída.
O combustível da lealdade é a voz. Mas sempre podemos pensar em sair.
Dona Dilma e as dilmetes, na fala de hoje, esqueceram, de propósito, que a fala das ruas, por vezes, é muda.
Besta sou eu.

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One Response to “Os pacíficos, os “vândalos” e a “voz das ruas””

  1. 1 Bruno Ramos Mendonça

    Olá, professor

    Permita-me discordar. Para mim as ruas falam muito e não é de hoje. o governo é que anda meio esquecido de escutar.

    Um abraço, Bruno.


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