Sobre o “vandalismo” e o “pacifismo”

21jun13

RedesVai ficando evidente a fixação de um eixo de avaliação cândido sobre copa das manifestações. Autoridades de todo corte e feitio tem se limitado (junto com a imensa maioria da mídia) a condenar o que vem sendo chamado de “vandalismo” de uma minoria e a elogiar o pacifismo da maioria dos manifestantes. Esses são legitimados pelo direito civil de protestar. E espera-se que, com o cansaço, a coisa vá mermando. O nosso governador saiu-se hoje com a proposta de criar um passe livre para os estudantes e uma ágora virtual para os manifestantes registrarem suas queixas sobre maus tratos policiais. Assim, parece que ficamos em uma atitude defensiva: combatemos o vandalismo, elogiamos o pacifismo e reconhecemos o direito democrático ao protesto. E esperamos que o movimento deixe um alerta, etc., e seja considerado como relevante para a formulação de novas e melhores política públicas
Sei não. Acho que estamos sendo muito otimistas.
(Eu ia escrever: estamos sendo estúpidos, alguns por inadvertência, outros por incompetência; mas isso não seria bem educado.)
O problema, a meu ver, é tratar fenômenos de massa com categorias semi-moralistas.
Acho que não sabemos bem o que é “massa”. Eu, se fosse Dona Dilma, estaria advertido que atribuir “vandalismo” (ou “baderna”) ao comportamento de massas é parecido a se queixar do cachorro que come a linguiça com que o amarramos. O que eu quero dizer é que alguém deveria avisar Dona Dilma que vai haver muito mais “vandalismo”, e que isso, em certo sentido, faz parte da coisa. Isso não quer dizer, me apresso a acrescentar, que os “vândalos” devem ser tratados com luvas ou desculpados. O lugar de quem faz quebra-quebra é onde prevê a constituição.
A questão é outra.
A questão diz respeito ao que estamos preparados para ver.
Alguém faz idéia de quantos automóveis são incendiados na noite de São Silvestre, na França, por pequenos grupos de marginais? Nesse ano que passou, foram quase 1.200. Na França, ao longo de um ano, pequenos bandos de marginais incendeiam 40.000 automóveis. E isso faz já uns quinze anos, o que nos dá a assombrosa cifra de 500.000 automóveis incendiados.
Olhando para os acontecimentos com mais calma, fica evidente que estamos pegando leve e esperando pelo melhor. Será?
O meu ceticismo consiste nisso: “movimento” é uma palavra bonita, que tenta ser neutra, mas que deve ser substituída, quando a conversa é para valer, por massa. Uma vez constituída uma massa, segue-se uma dinâmica relativamente diagnosticada: acentua-se entre os pertencentes a ela um despojamento de diferenças, um sentimento de igualdade; desaparecem as diferenças, ninguém é mais ou melhor do que ninguém. Esse momento na vida da massa é conhecido como descarga. Ele proporciona um raro sentimento de alegria e alívio em todos os pertencentes à massa. A massa, uma vez constituída, sabe que corre o perigo de desaparecer, e porisso ela procura sempre mais crescer, incrementar-se. E nesse processo, uma vez que ela já destruiu diferenças e distâncias entre pessoas, ela busca coisas materiais para destruir, casas e coisas. As massas gostam de duas coisas: ruídos e fogo.
Como escreve meu autor favorito (Elias Canetti) sobre esse tema: “É bem verdade que o ruído produzido pela destruição, o barulho das vidraças se partindo fornece uma contribuição importante ao encanto da coisa toda: são os vigorosos vagidos de uma nova criatura, os gritos de um recém nascido. O fato de eles serem tão facilmente provocados aumenta sua popularidade; tudo grita em uníssono e esse barulho equivale ao aplauso das coisas”.
É como se a persistência da massa dependesse de alguma destruição. Ela surgiu para destruir algo. Ela precisa marcar a destruição de hierarquias que não são mais aceitas. E disso vai apenas um passo para a destruição de imagens, portas, janelas, que representam limites. O indivíduo, dentro da massa, tem a sensação de que consegue ultrapassar os limites de si mesmo. E faz coisas que nunca faria solitariamente. O fogo, por exemplo, é fundamental para as massas. O fogo é visivel à grandes distâncias, atrai mais gente, e oferece para a massa a sensação de que ela é irresistível. O fogo, diz Canetti, é o símbolo mais vigoroso que existe para a massa.
O “Movimento Passe Livre” está tentando cair fora da massa e diz que não vai mais “chamar novas manifestações”.
Talvez seja tarde.
A meninada vai seguir em frente. Eles sentam no chão para não serem confundidos com os vândalos. A meninada, se pode, prende os vândalos e os entrega para a polícia. Essa parte funcionou bem até agora. Resta saber se os tais “vândalos” já não ganharam corpo para andar por si mesmos. Se sim, vem aí um são bartolomeu.
Dona Dilma deve saber de tudo isso, eu acho. Ela vai falar, daqui a pouco, as nove horas da noite. Vamos ver se ela e seus assessores fazem idéia da coisa. Se ela ficar no “vandalismo” e no “pacifismo”, periga a coisa ficar mais séria.

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2 Responses to “Sobre o “vandalismo” e o “pacifismo””

  1. 1 José Antônio Trindade Borges da costa

    Meu querido amigo. Depois de olhar e olhar, ouvir e ouvir, ler e ler, acompanhar e acompanhar, tendo a entender o que está acontecendo como algo absolutamente “irracional”, do ponto de vista coletivo, ainda que, individualmente, cada participante possa ter boas razões. Para mim, pelo menos no momento, a palavra chave é EMERGÊNCIA (“emergence” e não “emergency”) http://en.wikipedia.org/wiki/Emergence

    • 2 José Antônio Trindade Borges da costa

      Emergência de um comportamento coletivo, em que seus participantes não têm uma liderança e não compartilham as mesmas ideias…. o que, no fim das contas acaba por nos levar a uma emergência (“emergency” e não “emergence”).


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