As propostas hidráulicas para “canalizar” as energias das gentes

23jun13

IMG_7402Surgiu em Brasília, na quinta-feira passada, pela palavra do Senador Cristovão Buarque a ideia de se convocar uma mini-constituinte, que teria como objetivo fazer uma reforma política que deixasse o Brasil à altura da crise da copa das manifestações. A idéia progrediu. Mais alguns senadores juntaram-se a ele e tascaram um manifesto, no qual defendem a convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. O argumento dos senadores é que a constituinte seria uma pequena ajuda para os amigos protestantes, que sem uma ajuda legislativa continuarão apenas sonhando. Eles propuseram algumas linhas. A constituinte seria exclusiva e teria um ano de prazo para repensar o sistema político; poderiam ser constituintes pessoas sem partido, avulsas. Feito o trabalho, haveria um plebiscito.
Aí eu pensei em mandar para o Senador o meu escrito sobre montanhas e ratos da semana passada e perguntar porque a tal da reforma política não é feita por eles? Mas não fiz isso porque me lembrei da resposta – conhecida como “falácia genética” – que eles dão sobre esse fracasso: os eleitos pelo atual sistema não tem condições de mudá-lo. Por “atual sistema” entendam-se coisas como “sistema de votação”, “presidencialismo”, “financiamento de campanhas” etc, – alguns itens fundamentais em “reforma política”.
Hoje, em Porto Alegre, o governador do Rio Grande do Sul, deu uma entrevista em direção parecida. Ele ficou impressionado com o grande numero de acessos que o gabinete digital do governo teve durante as manifestações. Segundo ele, foram mais de 500.000 acessos. Esse fato lhe sugere “uma linha, uma visão política para canalizar toda essa energia criadora da população, do povo, para um processo político“. Segundo ele, é preciso “começar a encaminhar um segundo passo estratégico para fortalecer a democracia política no Brasil e o estado de direito.” Não sei bem qual é o primeiro passo, mas só pode ter sido a Constituinte de 1988, penso eu. O “passo estratégico” consistiria em convocar uma “assembléia constituinte originária” na qual não apenas haveriam candidatos dos partidos, mas onde poderiam concorrer candidatos sem partido. O objetivo da “constituinte originária” seria a “produção de um novo pacto político constitucional”. A participação através das redes, ele acrescentou, é um novo dado da democracia e temos que constituir canais abertos para essa participação direta; reestruturar o pacto democrático, pois temos uma crise da representação política, da limitação das instituições atuais.” “Esse grande movimento social e político que está nas ruas”, conclui-se, é uma espécie de sintoma dessas crises.
E se a moda de apelar para uma constituinte pegar? Seria perfeito, não? Uns dois anos para convocar, mais uns dois para ela trabalhar, mais um para um plebiscito e temos aí cinco anos de barriga. Perfeito para quem? Evidentemente que para todos os atuais governantes e legisladores. Essa proposta hidráulica de canalização das energias das gentes – me desculpa, Governador, mas antes eu do que um inimigo – pode ser transformada em uma canalhização das energias das gentes, na hipótese mais malvada. Na hipótese melhor, seria uma banalização. As manifestações pediram coisas concretas e quando se referiram à política, também foi para falar de coisas concretas: o escárnio da cura gay e os notórios desvios de verbas públicas. Melhor mobilidade urbana, melhores escolas, melhor sistema de saúde, etc, nenhum novo pacto político constitucional resolve isso. Um certo sistema conceitual quer insinuar que essas bandeiras são de “direita” e isso é outra cegueira. Um outro sistema conceitual quer “canalizar” energias e insinua que essas energias estão à deriva; canalizá-las é urgente, portanto.
E antes que pensem mal de mim, é evidente que o governador do nosso estado não é um canalha. Ele apenas usou, de modo informal, uma metáfora infeliz e eu não resisti ao trocadilho; isso não vai abalar nossa estima, pelo menos na parte que me toca. Tarso pode fazer mais e melhor do que pensar em canais para a energia da meninada. Ele sabe, melhor do que eu, que essa conversa de “crise de representação” vem sendo feita desde que o sistema de voto universal começou a ser instituído, no século dezenove. Qualquer aluno de Ciências Sociais sabe disso.
O buraco é mais embaixo. Infelizmente, se a moda pega, vão tapar o buraco com a constituinte. E por falar em buracos, Camobi, onde fica a Ufesm, não tem saneamento básico. A culpa foi da constituinte de 88?

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3 Responses to “As propostas hidráulicas para “canalizar” as energias das gentes”

  1. 1 Róbson

    Tens alguma hipótese a respeito dos motivos pelos quais o governador, sabendo que o buraco é mais embaixo, mesmo assim enunciou este tipo de canal energético? Um projeto de poder parece ser uma resposta quase tautológica.

  2. Pois é, mas ele tem um encantamento antigo com “concertações”; assim, para variar, uma “consertação”, quem sabe, transformar-se-ia em concertação.


  1. 1 windows media player

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