Onde fica Tebas?

05ago13

T. J. Clark, um fino historiador da arte, escreveu recentemente um texto sobre os rumos da esquerda. Ser de esquerda, sem frescuras, é comprometer-se com o problema da pobreza. Dito isso, ele entende que a esquerda está sendo incapaz de propor alternativas à altura das crises economicas. O título do livro é, ao mesmo tempo, enigmático e esclarecedor: “Por uma esquerda sem futuro”. O texto foi publicado originalmente na New Left Review, no ano passado, e foi traduzido e lançado no Brasil faz poucas semanas, pela Editora 34. É um livro pequeno, de 70 páginas, que pode ser lido em duas horas, mas que dá o que pensar.
A idéia central é a seguinte: a esquerda deveria levar a sério as experiências de derrota que teve ao longo do século XX (os totalitarismos de todo tipo e feitio) e abandonar os conceito messiânicos que tem sobre o futuro. O tradicional utopismo (uma “invenção dos primeiros funcionários publicos modernos”) deveria dar lugar a uma visão mais realista sobre, afinal de contas, o que somos nós, os humanos; as utopias são dispositivos de tranquilização que anestesiam nossa compreensão do fracasso.
A esquerda, diz ele, precisa parar de ficar olhando para a frente, fazendo profecias e vendo o presente apenas como portador de presságios do futuro: “revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação”. Os militantes seriam exércitos de terracota? Enquanto isso, nessas horas de espera e leitura de entranhas, “o gás lacrimogênio é colírio nos olhos dos investidores”. Uma mudança possível seria a de aceitar a natureza trágica da humanidade e incorporar o sentido trágico da vida como um antídoto para o conforto de apenas ruminar as derrotas e falar mal do capitalismo.
Aqui eu comecei a pensar em Santa Maria, nos dias de hoje.
A tragédia, lembra Clark, nos oferece uma “visão pessimista da condição humana”. Cito uma passagem mais extensa:
“Seus temas são o sofrimento e a calamidade, a presença constante da violência nos assuntos humanos, a dificuldade extraordinária que é conciliar essa violência com o domínio da lei ou com um padrão de sanções sociais previamente pactuadas. Ela faz com que seus protagonistas se equivoquem sobre si mesmos, acomete-os com a derrota e, sobretudo, lança-os de grande altura para que se esborrachem no chão – uma queda que amedronta e assombra os que a testemunham, pois parece falar a uma impotência que há no homem, e também uma sujeição generalizada a uma força ou totalidade derivada do caráter mesmo das coisas. A tragédia trata da grandeza que vira ruína”.
Nas tragédias, como se sabe, temos uma relação problemática entre o que pensamos estar fazendo e o que efetivamente fazemos: temos opacidade no conhecimento e transparência na ação: Édipo, em Tebas, pensava estar matando um velho impertinente que o desafiou numa encruzilhada, enquanto sua espada atravessava o peito daquele que viria a conhecer como pai.
As tragédias, como sabemos, acontecem onde temos a condição humana. E a pergunta sobre onde fica Tebas, penso eu, deve ter como resposta que Tebas é aqui e ali, em todo lugar.
Vencer o infantilismo na política (e na vida) implica no reconhecimento da possibilidade da tragédia no mais comezinho cotidiano. Felizmente, nem tudo é tragédia, assim como nem tudo é política.
A bronca do T. J. Clark é contra a gente que quer fazer política sem ter um sentimento trágico da vida. Dá naquilo, utopismo desenfreado, infantilismo, etc.
Enquanto eu lia o Clark, lembrava, inevitavelmente, de nossa tragédia de janeiro e das formas nas quais todos nós, santamarienses, estamos envolvidos nela. Como lembra o Claudemir e o Blattes e tantos outros, Tebas é aqui, e anda devagar, quase parando.
Mas é nesse mesmo momento que não posso deixar de me perguntar: será adequado, correto, politizar nossa tragédia? E em qual medida? Certos slogans que estão sendo usados, como tentam isso. Vamos ser honestos: certas frases (sobre luto e luta) são de trágico gosto. Certas frases tentam politizar algo que está aquém e além da política. Elas sugerem que as dores do luto podem, sem intervalos e mediação, ser transformadas em luta por justiça. Eu não nego que tenhamos que buscar por justiça, nesse caso particular. O que eu não consigo aceitar é que, na medida em que entendemos, dentro de certos parâmetros, que ali tivemos uma tragédia, que seja simples e fácil a relação dela com a justiça. Eu não consigo conter a impressão que temos, em alguns slogans sobre luto e luta, uma perda de contato com nosso senso de humanidade, um flerte irresistível com a crença de que as sentenças judiciais serão capazes de aplacar as dores e as perdas.
Schirmer não tem mais futuro político e ele sabe disso. Digamos que ele renuncie. Isso aplacará a dores? Digamos que ele fosse condenado. Isso aplacaria a dores? Talvez tenha faltado a Schirmer o tom, a sintonia: talvez ele nunca devesse ter dito certas coisas. Faltou a ele abraçar a tragédia até o fundo, afundar com ela e nela? Mas vamos ficar melhor passando, assim no mais, do luto à luta? Nenhum de nós está bem: seis meses depois, sejamos honestos, não sabemos bem o que dizer, o que pensar, e talvez não haja muito, agora, para dizer e pensar. Assim é o luto. Ninguém manda no tempo dele. Muito menos aqueles que, como sugere o Clark, fariam melhor se esquecessem um pouco do futuro e se concentrassem mais nas dores do presente. O que temos de recomeçar não será depois do luto, mas com ele.

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4 Responses to “Onde fica Tebas?”

  1. 1 Victor da Filosofia

    Politizar o trágico é de mau-gosto (kitsch) como de mau-gosto é todo maniqueísmo barato.

    Mas “tragicizar” (?) o político é pior. Pior porque perigoso. Ao invés de me explicar, cito:

    “Quando Édipo percebeu que havia matado seu pai, ele não pode suportar a visão do que havia feito. Ele arrancou os próprios olhos e deixou a cidade. Ele não se sentiu inocente.”

  2. Ofereço algo do Thomas Browne para reflexão (tua e aos demais deste burgo): “Apenas recordamos nuestras dichas, y los golpes más agudos de la pena nos dejan tán solo punzadas efímeras. El sentido no tolera las extremidades, y los pesares nos destruyen o se destruyen. Llorar hasta volverse piedra es fábula: las aflicciones producen callosidades, las desgracias son resbaladizas, o caen como la nieve sobre nosotros; lo cual, sin embargo, no es un infeliz entumecimiento. Ignorar los males venideros, y olvidar los males pasados, es una misericordiosa disposición de la naturaleza, por la cual digerimos la mixtura de nuestros escasos y malvados días; y, al no recaer nuestros liberados sentidos en hirientes remembranzas, nuestras penos no se mantienen en carne viva por el filo de las repeticiones”.

  3. 4 Lisete Rigoni

    Caro professor Ronai, boa reflexão. Me permita uma opinião. Pensei mais particularmente quando colocas que as tragédias acontecem onde temos a condição humana. Certamente. Assim como nossa condição humana está em todos os demais aspectos das realizações, sejam políticas, sociais, religiosas, enfim, qualquer lugar onde estejamos vivos. Isso implica nos depararmos com a morte, inclusive em seu caráter mais doloroso, como foi a trágica ceifa de vidas jovens em Santa Maria. É este o ponto, o do nosso limite, aquele que nos mostra que nossa condição humana é restrita em muitos assuntos, e mais efetivamente, nos que dizem respeito não só aos modos como gerenciar a vida, mas também o modo como preservá-la. Impossível não encontrar, mais cedo ou mais tarde, a linha de chegada, aquele onde todos teremos que nos conformar, doendo ou não: a morte. Podemos fazer todas as reflexões possíveis e imagináveis para resolver as urgências do presente, mas nada vai evitar que o caminho será para um futuro que não precisa ser pensado como utopia, mas é necessário que seja pensado. E creio que essa percepção do conjunto dos tempos passado, presente e futuro, somados a uma real análise da nossa condição humana, pode promover um pouco mais de sensatez. Não vai tirar a dor da perda, nem negar a derrota das resoluções políticas e judiciais, e nem mesmo impedir de projetar “utopias”. Mas o conjunto faz pesar os pés no chão. Somos obrigados a lidar com os limites do sentir e do fazer, do conhecer e do relacionar. E, principalmente, com o limite da própria existência, como fato máximo da nossa condição humana. Com isso, temos plena liberdade de pensar sobre vida e morte, às quais associamos todos conceitos da nossa restrita capacidade de apreender a verdade das coisas e do real, Podemos, e naturalmente escolhemos um caminho, alguns deixando a vida lhes levar, outros se agarrando com unhas e dentes à ilusão de que a vida lhes pertence. Penso seriamente sobre isso e concluo: a vida não nos pertence. O que é nosso é o direito e a possibilidade de dar a ela algum significado, escrever uma história, com passado, presente e futuro, que faça sentido, não apenas para nós, mas para se possível toda humanidade. É a constatação do meu tempo, do meu fim, da minha inexorável condição humana. Um grande abraço.


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