Uma conversa

21nov13

photoPobreza encontrou-se com História. Conhecidas de longo tempo, retomaram uma conversa também muito antiga.
“Sempre tive pouco”, disse Pobreza, “e soube viver com isso: meu manto, minha tigela, coisinhas. Mas ultimamente insistem em me perguntar se não ando cansada dessa vida de pouco. Quase me canso em dizer que não, vou bem, obrigada, pouco me basta.”
História escutava, pensativa, e ficou quieta, por um raro instante. História costuma ser agitada.
“No que pensas, História?”, perguntou Pobreza.
“Comigo acontece algo semelhante. Muitos me perguntam, cada vez mais, se já vi de tudo.”
“Mas isso não significaria teu fim, ter visto tudo?”, indagou Pobreza.
História mal podia se conter. História, por vezes, não se continha.
“Se eu tivesse visto tudo, é claro que não estaria mais por aqui! Mas, por vezes me sinto como se já tivesse visto e vivido tudo, e mal posso conter o tédio.”
Tédio passava por ali e ficou com uma ponta de orgulho ao ouvir seu nome. Mas Tédio tinha muitos assuntos por resolver naquele momento e não entrou na conversa da História.
Pobreza sentiu que precisava dizer uma palavra de apoio para sua velha amiga História, que dava sinais de uma ligeira crise de identidade.
“Fica triste não, História. Eu, por exemplo: todos os dias me encontro com minha irmã gêmea, Riqueza. Nem sempre conversamos, mas nos vemos de longe todos os dias. Ela me disse, um dia desses, que não sabe se ri ou chora por ser tão mal compreendida pelas gentes. Eu a consolei, lembrando que as nossas ambiguidades facilitam isso. Ela concordou, ela sabe que somos um tanto ambíguas e não é de admirar que poucos nos compreendam.”
História pareceu gostar da comparação, mas não sentiu-se consolada, pois, como sabemos, História não tem irmãos, como Pobreza, e sente, invariavelmente muita solidão.
“Lá isso é verdade…”, ela murmurou.
Verdade passava por ali e viu História e Pobreza conversando. Tédio estava afastado, ocupado em chicotear o Tempo.
Verdade pensou em juntar-se ao pequeno bando. Gostava muito de História, mas tinha suas dúvidas sobre a reciprocidade. Hesitou. Sentia-se muito à vontade com Pobreza, não sabia bem porque. Mas diante de História, Verdade por vezes emudecia. Ficou por ali, vendo Tédio ao longe chicotear Tempo, vendo a tigela de Pobreza, ainda uma vez mais, vazia.

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One Response to “Uma conversa”

  1. 1 José Antônio Trindade Borges da costa

    “Verdade … vendo Tédio ao longe chicotear Tempo, vendo a tigela de Pobreza, ainda uma vez mais, vazia.” Queria ser Salvador Dali. Juro que eu ia fazer um retrato dessa cena!


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