“Como! Não me viu trinchar pessoalmente os perus?”

12dez13

Assisti hoje, pela web, o final da reunião do Conselho Universitário da Ufesm, que deliberava sobre a adesão da mesma à empresa brasileira dos hospitais, etc. Acompanhei o longo parecer de vistas, contrário, e depois o parecer da comissão, a favor. O primeiro obteve um obsequioso silêncio por parte dos manifestantes que ocupavam os corredores e a ante-sala do conselho. No segundo, rufou um samba de protesto. Ao final do mesmo, a sala dos conselhos foi invadida pela meninada; concedo, havia um que outro de mais idade, mas a maioria era mesmo gurizada. Chegaram e ficaram. Restou ao reitor Heródoto encerrar a sessão.
Uma das palavras de desordens, repetida muitas vezes pelos ocupantes, foi essa: “Irmão, pode esperar, a tua hora vai chegar”. Hora de quê, pensei?
Os conselheiros foram embora e os estudantes, aos poucos, ocuparam os assentos, e deram início ao que denominaram, literalmente, “vamos votar a hospitalidade agora.” E cantaram que o polvo unido é polvo forte, que não teme a luta e nem a morte, avante, eia sus, ó sus! (companheiros, bis, bis)” Estava lindo, um deles disse, sorrindo um gato de Carrol na boca amarela. E por ali ficaram, comemorando a reunião da invasão.
A imagem congelou na tela, mostrando uma mocinha forte com um megafone na boca, arengando os novos aconselhadores. Desliguei.
Horas depois, o reitor Felipe assinou a adesão.
Confesso que, na minha estupidez, não havia pensado que ele pudesse fazer essa gentileza ao futuro próximo reitor da Ufesm. Imaginei que o atual feitor deixaria para o próximo a tarefa inglória de assinar o tal contrato, amplamente aprovado em todas as instâncias internas da Ufesm e apoiado pela imensa maioria dos prefeitos da georegião.
Eu não entendo nada mesmo dos meandros do poder, admito.
A unica coisa que me deixou meio pensativo foi o fato da gurizada ter interrompido a reunião, batendo lata e inviabilizando a mesma. Achei, por um momento, antes da reunião, que eles deixariam o conselho universitário deliberar, argumentar, discutir, pesar, criticar, e, finalmente, votar. Eu nada entendo de hora nenhuma.
A gurizada sambou na lata e enterrou o assunto.
Quase, né?
Não contavam que, entre os apoiadores do futuro feitor, estava o atual.
Tenho quase quarenta anos de atividade na Ufesm, mas isso é culpa e não mérito.
Nesses quase quarenta anos nunca antes tal havia se sucedido, tal invasão e enxotamento dos aconselhadores. Já houve batucada e corredor polonês. Invasão nunca, acima do quinto-andar (em abril de 1985 o DCE ocupou, pioneiramente, o Gabinete do Reitor, por duas horas).
Daqui para a frente, depois do dia de hoje, fica difícil prever.
(PS: meus respeitos, tanto ao atual, Filípico, morituri te saúdam; gesto nobre nessa quadra de natal, no dia de hoje: quanto ao novel, que consiga, como diria Marcel Proust, “trinchar os perus” que lhe estão sendo servidos.
(PS: estamos aguardando, para qualquer dia desses, a nova tradução do “Em busca do Tempo Perdido”, do Conti, que vai marcar, no Brasil, os 100 anos de lançamento do livro. A frase sobre os perus está em Sodoma e Gomorra, na tradução do Mário Quintana).

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One Response to ““Como! Não me viu trinchar pessoalmente os perus?””

  1. 1 Róbson

    Ronai, também assisti a festa da democracia, interrompida autoritariamente, que continuou sendo transmitida pela Web como teatro de um conselho superior em uma universidade pública de futuro. Notei que a gurizada era mais festiva do que alguns foliões mais velhos que passavam pela webcam. Pensei: o pepino será colhido em Janeiro, sem os calores das ruas. Três ou mais coelhos. Bela tática da marmota. Porém, um senador murmurou que a decisão de assinar o termo baseia-se numa avaliação de consciência. Não para alívio do próximo acolhedor, mas por respeitar o que lhe aparece como certo no foro íntimo da própria consciência, nosso nobre colega entra para a história como “O autoritário”. Chapeau! Confesso a minha ignorância em relação aos caminhos dos “novos” sábios da política que corre nos campos da fome de saber (bastante famélica também), e fico a pensar sobre o momento do sacrifício. Sacrifício? Sobre a nossa hora, parece-me que ainda chegaremos ao ponto em que Hirschmann diria “Vem, vamos embora!”. Cosas veredes!


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