Memória de pequenas crises

29maio14

IMG_1227Crise, como se sabe, não é todo dia, como flor bonita.
Em 1986 o Conselho Universitário da Ufesm invocou e convocou uma assim chamada “Assembléia Universitária” (a expressão constava do Estatuto da Universidade, numa frase vaga, sem competências e atribuições) para deliberar sobre a crise orçamentária que então se abatia sobre a instituição. A proposta de convocação foi feita por um conselheiro Diretor de Centro e foi aprovada pelo voto de minerva do então reitor, Prof. Gilberto Aquino Benetti. Foi um pequeno caos institucional. Fomos para o Centro de Educação Física e ali passamos um dia inteiro – com intervalo para o almoço – discutindo a crise da universidade e os rumos a tomar. No meio da tarde houve a deliberação: o Reitor, um assessor, um representante do DCE, iriam a Brasília reivindicar as verbas faltantes. E nós, demais membros da comunidade, aguardaríamos parados, em greve, por uma solução. A Ufesm ficou dez dias em greve, resolveu-se o orçamento, mas aqueles dias provocaram algumas tempestades; pois a tal de “Assembléia Universitária” ficou entalada na garganta de muitos professores, que nunca concordaram com tal procedimento. Foi naqueles dias que começou a desenhar-se a separação futura entre a APUSM e a SEDUFSM. Essa foi, creio eu, a primeira crise de relacionamento na comunidade interna da UFSM.
Muitos anos depois, em 1995, uma decisão do então reitor, Professor Odilon foi objeto de avaliação pela Sedufsm. Ele havia recorrido, por obrigação do cargo e com sucesso, de uma decisão salarial favorável aos docentes, que estava sendo aplicada. O sindicato decidiu, em assembléia, declarar o reitor “persona non grata” para a comunidade acadêmica. Essa foi, creio eu, a segunda crise de relacionamento na comunidade interna da UFSM.
Muitos anos depois, em 2014, estamos vivendo, pela primeira vez na história da UFSM, uma crise inédita. Não se trata, como nas outras vezes, de uma crise de relacionamentos internos. Trata-se sim, do relacionamento com a comunidade externa.
Ao menos essa é a impressão que estou tendo, ao ouvir as conversas e ler as notícias. Acabo de ouvir, por exemplo, as declarações do advogado Adede y Castro, ex-promotor público em Santa Maria, de tantas causas. Ele, a pedido da Cacism e de outras entidades, aceitou a causa de entrar na justiça contra a decisão do CEPE de suspender o vestibular deste ano. Como ele mesmo disse, o entendimento havido na cidade é que a Ufesm “virou as costas para a cidade”, ao tomar, de surpresa, a decisão pelo fim do vestibular. Até as pedras sabem que na semana anterior à decisão a Universidade promoveu eventos que supunham a ocorrência do vestibular. Assim, a decisão surpreendente, por legal e oportuna que tivesse sido do ponto de vista amplo da política nacional brasileira, surgiu como uma decisão administrativamente imatura e inaceitável para o cotidiano da cidade.
Terá sucesso Adede y Castro? Em breve saberemos. Ele prometeu ter a ação pronta no início da semana que vem. De um lado, contra ele, há o fato da decisão do CEPE ter sido tomada dentro das normativas internas da Ufsm. Seus argumentos serão um tanto delicados mas ele tem seus trunfos – a insegurança jurídica criada, que é incompatível com uma instituição do porte da UFSM, o prejuízo para os desavisados que estavam fora do ar nas 24 horas que restaram para as inscrições, a ocultação implícita de planejamento, etc. Mas se ele for vitorioso, ao menos uma das bancadas do Cepe – a dos estudantes – não vai perder. Politicamente, como queriam os proponentes do DCE, foi uma vitória e tanto, como faz tempo não se via. Se Adede ganhar, eles continuam vitoriosos; se Adede perder, também.
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Qualquer que seja o resultado, o saldo dessa crise de relacionamento inédita entre a universidade e a comunidade será pago, como nas outras vezes, das quais pouca gente sabe, em prestações de prestígio, perdidos de um lado, ganhos em outro. Como diria o poeta do Alegrete, as crises passarão, a Universidade passarinho.

1985

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