Para Marilu

18jun14

Aí vem MariluEla chegou em Santa Maria em outubro de 1979 e foi bem recebida, isso eu garanto. Chutou vários baldes no Rio de Janeiro e mudou-se, de mala e cuia para a Boca do Monte. Houve até uma crônica no jornal A Razão em homenagem a ela, apresentando-lhe a cidade onde ela passaria a morar por três décadas. Aqui ela fez o mestrado, aqui ela ingressou nos quadros da Universidade Federal de Santa Maria, em 1983, como professora e aqui ela foi líder e guerreira pela criação do Curso de Psicologia. Nesse meio tempo Marilu fez o doutorado e ajudou a consolidar, como poucos, a presença da psicanálise em Santa Maria. Junto com seu trabalho acadêmico Marilu conduziu grupos de estudos, clínicas e teve uma participação intensa na vida cultural da cidade. No ultimo dia 13 de junho ela faleceu, no Rio de Janeiro, onde estava morando depois de aposentada.
Marilu
Eu a conheci em 1979 e desde então nos cruzamos, aqui e ali, com maior ou menor intensidade. Acompanhei o trabalho dela na criação do Curso de Psicologia; enfrentou tudo e todos para nos convencer que a universidade precisava apostar na criação do curso, embora, na época, os recursos humanos e materiais fossem parcos, para não dizer raros. O curso começou com pouco mais de meia-duzia de professores e eu tive a honra de fazer parte da equipe inicial, com as disciplinas oferecidas pelo Departamento de Filosofia. Não foi nem um pouco fácil. As instalações eram precárias, resultado da reforma do antigo hospital-escola da universidade, e a tensão institucional era constante, pois o quadro de professores, por muitos anos, ficou restrito ao pequeno grupo inicial. Junto ao trabalho na universidade que incluiu desde o início, na filosofia, a orientação de pesquisas, grupos de leitura e estudos, e depois, na psicologia, dezenas de orientações de pesquisas e monografias, Marilu desenvolveu seu lado de formadora e agitadora cultural fora da academia, na Bergasse, na Paul Harris, no jornalismo cultural, nas centenas de palestras e debates de que participou. Marilu teve, felizmente, o reconhecimento carinhoso de seus alunos, pois foi homenageada pelo curso de Psicologia como patronesse e paraninfa de diversas turmas. Marilu não deixou barato sua passagem por Santa Maria. Intensa, apaixonada, guerreira, ninguém foi indiferente à sua presença. Muitos de nós estamos agora suportando o silêncio de sua voz, consternados, ainda apaixonados pelas histórias que a envolveram aqui e que não cansamos de guardar e renovar em nossas memórias, com as surpresas e os carinhos que reservamos para poucos.

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One Response to “Para Marilu”

  1. 1 Daniel Plá

    Marilu foi minha professora.
    Ela era a responsável pela disciplina “Psicanálise e Teatro” no antigo currículo do curso de artes cênicas da UFSM. Com ela aprendi sobre os revirões, sobre olhar os abismos, sobre estranhar o conhecido. Apaixonada pelo que fazia, nos apaixonou. Apresentou-nos um Freud jovem, curioso, contemporâneo.
    Marilu, agora que encaraste o desafio de atravessar o limite do conhecido rumo ao inefável, desejo que possamos celebrar o teu exemplo e cultivar em nós as boas sementes que plantaste. Que Deus te acompanhe, seja lá o que isso signifique…


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