Eu achava que estava apenas jogando futebol

10jul14

IMG_2824Morei, na adolescência, no norte do Paraná, numa pequena cidade chamada Nova Esperança. Ao lado de nossa casa havia um terreno baldio, uma “data”, como se dizia, na qual eu jogava futebol todos os dias que podia, com meu irmão e primos e amigos. Havia apenas uma goleira grande, quase oficial, e o jogo consistia basicamente em disputa de dupla: dois no gol, os outros dois no campo. Chute a gol na marca do pênalti; havendo rebatida, um dos goleiros sai para recuperar a bola no pé, os outros dois tentam o gol. Até cinco e vira. Fazíamos isso dia sim e outro também, semana após semana.
Havia também jogo na escola, o Ginásio Estadual Nova Esperança, nos recreios; os dois melhores tiravam par ou ímpar e escolhiam os jogadores, um a um, até não ficar de fora ninguém interessado. Era lindo de ver, uma tropa de guris se entendendo sozinhos e voltando para a aula suados e empoeirados, mas uma alegria só.
E havia, glória, jogo com jogo de camiseta, conseguido a duras penas com algum candidato a vereador. O meu time era o Água Verde Futebol Clube, e o campo de jogo era o reserva do campo municipal, uma imensidão a percorrer que cansava só de olhar. Nesses, eu sempre era reserva. Do reserva. Não sabia driblar, nunca aprendi como fazer isso. Para conseguir a reserva da reserva aprendi a chutar bem, forte, com precisão, com os dois pés. E corria bem. De resto, para fazer um gol só na corrida ou de banheira. Fiz dois gols pelo Água Verde, em um ano. Um deles na pura sorte, o outro na corrida, aproveitando uma banheira. Eu era, tirando o chute razoável, uma nulidade.
Um dia vim para o Sul e abandonei as esperanças.
Deixei de jogar futebol ou qualquer outro esporte coletivo e público e me perdi na filosofia.
Demorei muito para entender que quando eu estava jogando meu futebolzinho estava também fazendo e aprendendo outras coisas sobre a vida. Um pouco de ética viva, por exemplo.
Um dia desses eu estava lendo um dos meus autores favoritos e uma frase dele me pegou pelo pescoço. Ela falava sobre uma das virtudes dos esportes coletivos e públicos, como o futebol.
Uma das virtudes do futebol é que ele celebra e dramatiza um aspecto essencial de nossa vida comunitária, a saber, o fato de que existem momentos de vida nos quais precisamos tomar decisões e fazer julgamentos a quente, sem demora e espera, e isso, além de nos expor ao erro, evidencia uma certa folga nas bielas da vida, uma certa frouxidão que precisamos assumir como constitutiva de nossa condição humana. Nesses julgamentos e decisões – do juiz, por exemplo – ter certeza sobre algo resume-se em ver algo, com todos os riscos disso. E nós, os jogadores e o público, convivemos a decisão dele – concordamos, discordamos -, mas antes disso nos provemos dele, juiz, e delas, decisões. O julgamento das ações humanas depende da constituição dessa frágil arena, na qual as certezas tem a base fugidia de nossas capacidades de observação. Assim, no futebol nos provemos não apenas de regras – um aprendizado de ética – mas aprendemos a promover e celebrar nossa habilidade de assumir nossas próprias regiões de indeterminações na vida.
Eu achava, lá em Nova Esperança, no norte do Paraná, que apenas estava jogando futebol.
Fiquei pensando nessas coisas depois do vareio que levamos da Alemanha, pois não consigo pensar que o futebol, afinal de contas, seja apenas futebol. Muito aquém das roubalheiras dos cartolas e dos extravios do profissionalismo, para a gurizada o futebol é um aprendizado da vida. É uma pena que algumas pessoas, depois que ficam grandes, parecem esquecer isso.

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2 Responses to “Eu achava que estava apenas jogando futebol”

  1. Parabéns, Ronai. Concordo com você: o futebol dramatiza nosso processo a seco de tomar decisões, sem saber direito sobre o que decidimos, e arcando com as consequências das nossas escolhas. Há ainda outro aspecto, salientado por JM Coetzee em Here and Now, livro com a correspondência do autor com o escritor Paul Auster durante 2008-2011. Algumas das cartas, bem reflexivas, dizem respeito à Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Em uma das cartas, Coetzee diz que o futebol, assim como outros esportes, dramatiza nossa vida ao retratar o perdedor de ontem como o vencedor de hoje, o vencedor de ontem como o perdedor de hoje, fazendo-nos entender que há o dia de amanhã, e que a vida continuará, não importando se hoje perdemos, ou vencemos. Há ainda o que Zé Miguel Wisnik pensa sobre o assunto, coisa fantástica, mas isso é pra outra hora. Mais uma vez, parabéns!
    (OBS: Este é o mesmo comentário que postei no Facebook. Só o repito aqui para participar da conversa também por aqui. Abraço!)

  2. 2 Antonio Trindade

    Vc me fez lembrar de minha infância, também, joguei muita bola no “campão” e no campo de baixo era assim que chamávamos, o que vcs chamavam de reserva. Fiz muitas amizades, aprendi muito.


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