O rumo do Alegrete

01ago14

Faz muitos anos, José Genoíno, hoje na prisão, referiu-se a uma tentação clássica das esquerdas da seguinte forma:
“Na concepção da esquerda tradicional sempre imperou a máxima de que os fins justificam os meios.”
Essa convicção não é privilégio da esquerda tradicional. Desde o clássico trabalho de Max Weber, A Política como Vocação, (de 1919) não podemos mais pensar que os paradoxos éticos que envolvem a relação entre meios e fins na política sejam privilégios desta ou daquela tendência ou crença política. A máxima de que os fins justificam os meios diz respeito à política como um todo. O que podemos pensar é que talvez exista alguma relação peculiar entre o desejo de ter sempre razão, em política, e as posições da esquerda conservadora. Essa discussão weberiana sobre o vício clerical de querer ter sempre razão é uma das passagens mais relevantes de seu ensaio. Em que consiste este vício?
Weber dá o exemplo do homem que, tendo deixado de amar uma mulher para amar outra, sente-se obrigado a justificar-se diante de si mesmo, dizendo que a primeira mulher não era digna de seu amor. Ele diz que ela o decepcionou ou inventa qualquer outra razão parecida. Ao invés de simplesmente admitir para si (e para ela) que não gosta mais dela, esse bom homem procura criar uma legitimidade em virtude da qual ele pretende ter razão para fazer a troca de mulheres. Como se não bastasse deixar a antiga mulher, esta ainda é considerada culpada pela separação. Essa mesma alma, quando compete com outro homem pelo amor de uma mulher e o vence, fica convencido do valor menor do rival, pois afinal foi derrotado! Esta alma boa, na política, quando ganha, é porque tem razão, e quando perde, é porque… tem razão! A ética, para essa boa alma, é apenas um meio de se convencer que a razão está sempre com ela. Essa boa alma nunca perderá um embate, seja uma guerra, uma eleição ou uma greve. Santificada pelos fins que persegue, a alma boa sacrifica nesse altar os valores do cavalheirismo para com as mulheres. E nesse altar sangrarão os valores da objetividade e da dignidade.
Não é assim que a gente perde o rumo do Alegrete?

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