Os “white blocks”

29ago14

Alguns economistas defendem a ideia de que há ciclos de comportamentos coletivos, “movimentos pendulares de duração razoavelmente regular”. Assim, declínios e recessões econômicas teriam alguma relação interna relevante com ascensões e progressos. Com base nessas especulações alguém pode se perguntar se haveriam ciclos semelhantes, não apenas no comportamento coletivo vinculado ao mundo da produção econômica, mas também nos comportamentos coletivos na vida publica. De fato, Albert Hirschmann escreveu um livro assim, intitulado “De Consumidor a Cidadão – Atividade privada e participação na vida pública“, publicado no Brasil em 1983, do qual sou um piedoso leitor.
A ideia básica do livro é relativamente simples: quando praticamos os atos cotidianos de consumo de bens, mercadorias e serviços, esperamos algum grau de satisfação; da mesma forma, quando nos empenhamos em alguma participação em questões públicas, esperamos que algo bom decorra daí. Nas duas situações, no entanto, ocorrem decepções e insatisfações. Nas palavras de Hirschmann, “qualquer padrão de consumo ou de uso prolongado carrega dentro de si, para usar a abençoada metáfora, ‘as sementes de sua própria destruição’.
A pergunta que o livro faz é se as sociedades tem alguma predisposição a oscilarem “entre períodos de intensa preocupação com questões publicas e de de quase total concentração no desenvolvimento e bem-estar individuais.” O autor pensa que sim e argumenta em favor disso ao longo de cento e quarenta luminosas páginas. Não posso resumir os argumentos dele aqui mas juro que o livro vale cada página; eu mesmo não consigo pensar sobre nossas vidas políticas sem me lembrar das teses do livro, que me voltaram agora, nessa quadra das eleições presidenciais.
Conto.
Eu era apenas um guri de dez anos quando acompanhei a eleição de Jânio Quadros, em 1960. O símbolo da campanha de Jânio era a vassoura – haviam broches dourados em formatos de vassoura – que ele usaria para varrer os males da política. Os versos eram esses: Varre, varre,varre vassourinha, Varre, varre a bandalheira! Que o povo já ‘tá cansado De sofrer dessa maneira Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! Jânio Quadros é a certeza de um Brasil, moralizado!“. Jânio elegeu-se de forma arrasadora mas seu mandato – apaixonado, polêmico – durou poucos meses. Ao redor dele tivemos um dos mais intensos momentos de participação coletiva em temas de natureza pública, que terminaram com o golpe de 64. E ali começou o mito da política-técnica, sem malezas e corrupção. Seguiu-se um longo período de calmaria e atividades privadas, apenas rompido nas ruas com as Diretas Já, vinte anos depois. Foi um longo e facilmente explicável ciclo.
A partir de 1985 começa, a meu ver, um período de refluxo de participação coletiva em temas públicos, tendo em vista a normalidade democrática conquistada, com o tão sonhado fim do regime militar. As pessoas foram para casa novamente, e desta vez cada um cuidava mais de si, tentando escapar de uma hiperinflação que chegava a trinta por cento ao mês. Foi nesse cenário que surgiu Collor, em um partido inexpressivo, falando em combater os marajás e terminar com a inflação num golpe só. Derrubou, numa vez só, Brizola, Lula, Covas, Maluf, Afif e o velho Ulysses Guimarães. E também a inflação, por algum tempo. Continuamos em casa, saindo nas ruas apenas para apeá-lo, por corrupção. A partir daí segue-se uma história de estabilização econômica e inserção social, capitaneada pelo PSDB e PT, que permitiu que a gente voltasse para casa, para novamente trabalhar nos assuntos privados, deixando aos políticos a tarefa de cuidar das coisas públicas.
Desde o ano passado, no entanto, a insatisfação com os novos padrões de consumo, criados a partir da estabilidade econômica e de programas de inserção, vem tentando achar uma voz; é, simultaneamente uma insatisfação com o consumo de saúde, transporte e educação, mas também com o consumo da política, a partir de uma visão superficial e moralista da mesma. Mais ainda, a partir de uma visão maniqueísta, que começa agora, com Marina, a falar em bons e maus, e que dá a entender que a corrupção e o mal feito podem ser erradicados da sociedade pelo trabalho dos bem-intencionados.
Temos um Jânio em saia na cena? Temos um Collor em saia na cena? Eu diria que não, pois, se há algo em Marina que pode nos lembrar esses dois casos, há algo mais e mais assustador: um clima de evangelização e santidade pessoal, a biografia fiadora, que vai reunir o que há de bom em nós. Sempre em branco, com xales, pairando acima dos partidos e das corrupções, Marina une os protestantes de junho com os pentecostalistas da política, criando um bloco branco.
Como já escrevi outra vez, sou um velho ranzinza e conservador e não acho que vá sair boa coisa desses blocos brancos. No fundo, eles tem tudo a ver com os outros, os tais black.
E mais no fundo, fico pensando nesses ciclos.

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