Minha casa, minha luta: sobre preservação e perda da memória transgeracional

07out14

DSC01345Hoje a tarde ocorreu mais uma ocupação da Reitoria da Ufesm. Fundada em 1961, a primeira invasão da Reitoria, se não me falha a memória, ocorreu somente em 1986, logo no início da gestão do Professor Benetti. Foi uma ocupação relâmpago, que durou apenas o intervalo do almoço. A equipe de administração central estava reunida fora do campus, em um almoço de trabalho, quando foi avisada da invasão. Um grupo de estudantes, que protestava por temas ligados ao transporte – tarifas e melhores condições – entrou no quinto andar e ocupou o gabinete do Reitor. Por ali ficaram hora e meia, tomaram cafezinhos e deixaram seus recados, sem maiores estragos fora o susto provocado nos poucos funcionários que por ali ficavam no intervalo do almoço. Durante aqueles anos, de 1986 a 1989, vivemos outras ocupações, bloqueios do arco de entrada, cercos ao edifício, etc. Alguns dos líderes da época hoje são deputados, outros são assessores de alto coturno, vários outros são aspones com todo tipo de sucesso ou falta dele. Normal. Acho que todos temos alguma saudade daqueles tempos, que marcavam a retomada da vida democrática no país, depois de anos da ditadura, na qual uma invasão de reitoria nunca sequer foi tentada. Assim, se as ocupações nos incomodavam, também gozavam de um clima de tolerâncias, pois representavam um exercício de participação num clima que era novo para todos, depois de anos de chumbo e vozes baixas. Era, repito, o ano de 1986.
O mote da ocupação da Reitoria, na tarde de hoje, é a questão do modo de administração das Casas de Estudante. O tema é complicado e cheio de simbolismos. Mesmo nos anos de chumbo as Casas de Estudante da Ufesm foram espaços de resistência nos quais a mão da administração central pouco entrava. Reitor após reitor, desde 1986, tentou tomar posse do gerenciamento da casa: distribuição de moradores, lista completa e transparente, coisas assim, nunca estiveram sob controle dos setores administrativos da Ufesm. E agora, em 2014, mais um Reitor enfrenta a CEU, em busca do controle da mesma. Eu escrevi “enfrenta a CEU” pelo simples fato que as casas de estudante da Ufesm são um caso a parte no nosso caseiro processo político e cultural. O caso é raro pois ali não ocorreu a perda de memória transgeracional que se verifica em outros setores da instituição. É por isso que a Resolução que a PRAE aprovou na semana passada está sendo investida de um simbolismo especial pelos estudantes. Ela, por assim dizer, vira uma página da história da Universidade. Se entendi bem, a proposta da administração é exatamente esta, de virar uma página na história da CEU, o que não é pouco. Há algum mérito na Resolução, e nisso os próprios estudantes parecem concordar; alguma forma de paridade administrativa mais efetiva é necessária, nesses tempos nos quais a transparência é um valor tão incensado. Mas há um porém.
O porém é que há, como eu já disse, muito simbolismo envolvido nesse episódio. Os ocupantes do Gabinete do Reitor são os herdeiros e portadores de uma memória transgeracional muito peculiar, com aprendizados e histórias importantes; eles não querem ser vistos um dia como aqueles que se renderam à burocracia e entregaram as fichas. Eles exigem alguma forma de compromisso, que preserve ao menos o espírito de uma longa e complexa história de um dos setores mais fascinantes de nossa Ufesm.

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3 Responses to “Minha casa, minha luta: sobre preservação e perda da memória transgeracional”

  1. 1 Alexandre

    Caro Ronai, estando há pouco tempo na Ufesm – especialmente ao considerar a sua antiguidade na casa – não conheço esse simbolismo do qual falas, embora consiga fazer uma ideia a partir de suas palavras.

    Mas, sendo funcionário público, o ‘outro’ a ser respeitado, para mim, é a maioria da população que não é funcionário público e que paga (como nós mesmos) por toda a estrutura de nossas universidades federais. Se estivéssemos em tempo de ditadura, a ocupação da reitoria, dependendo da situação, faria todo sentido – e, é claro, requereria muito mais coragem. Mas considerando o enorme peso estudantil nas decisões da Ufesm hoje, considerando a facilidade única que os alunos residentes na Casa do Estudante têm para morar e se alimentar, qualquer ato de ocupação desse tipo é, para mim, uma atitude no mínimo histérica e, digamos, fruto de um mimo excessivo.

    A reflexão que me parece ser a mais pertinente nesse caso é: ocupar uma reitoria, abrir um colchão na mesa de um reitor, é uma atitude democrática? Ou é ditatorial? Que visão de democracia está sendo ensinada a esses alunos? As Casas do Estudante, em qualquer IES pública, são ou não são parte da IES em que se encontram? Se são, precisam ser administradas inteiramente por ela, pois é a IES quem responde pelo patrimônio, não?

    Se o reitor foi eleito por uma composição dos corpos da Ufesm, e não está cometendo nenhum crime em seu cargo, não é da democracia, em caso de insatisfação, retirá-lo somente no voto? É impossível agradar a gregos e troianos. A democracia é o governo da maioria, não de todos…

    Greve é uma coisa. Ocupação é outra. Ocupar é obrigar o outro a aceitar um ponto de vista. É no mínimo falta de respeito e não democrático… no máximo… Por isso sou contra as ocupações feitas por grevistas na Ufesm. Uma greve que não mobiliza a maioria de uma categoria por argumentos, mas só pela força bruta, não é uma greve. É um abuso contra a maioria. E mesmo que seja uma maioria, não pode, numa democracia, impor sua vontade à força sobre a minoria não grevista (o que, aliás, e embora mal escrito, está na Constituição, caso ela sirva para alguma coisa num país tão completamente tomado por corrupção).

    O Brasil saiu de uma ditadura para o extremo oposto, que acaba configurando outra ditadura – pelo menos no serviço público: a ideia, totalmente falsa, de que as forças de segurança não têm razão de ser numa verdadeira democracia. Basta olhar para as democracias mais desenvolvidas que a nossa para verificar, com facilidade, o contrário. As forças de segurança são personagens fundamentais para a manutenção das democracias. Um reitor não pode ser premido contra a parede por meia dúzia de estudantes radicais e ficar inerte diante da situação ou propor diálogo com quem não se interessa pelo diálogo só para não ser chamado de ditador. Se continuarmos assim, em breve teremos nas IES públicas o que já acontece no ensino básico e médio: alunos armados ameaçando professores em sala de aula porque discordam de suas notas ou coisa parecida. A área de educação requereu, requer e sempre requererá autoridade limitada a área de atuação de cada um. Quando não há autoridade, não há educação.

    O que será de nós se continuarmos assim?

    Abraços e desculpas pelo desabafo (estive hoje na reitoria e fiquei revoltado com o que vi),
    Alexandre

    • 2 Ronai Rocha

      Caríssimo Alexandre, obrigado pelo comentário. Reconheço que por vezes tenho uma certa condescendência com certos protestos, em parte, como dizes, pela minha antiguidade na casa. E o caso da casa é um deles. é uma longa história, essa do simbolismo. Os acontecimentos de hoje, quando os estudantes decidiram fechar o prédio, mostram que a coisa está escapando do controle e terminando a lua de mel da reitoria com o segmento que foi em grande parte responsável pela eleição. Esperamos todos que volte o bom senso amanhã e que a reitoria não saia do episódio enfraquecida; não há problema em rever decisões, mas isso depende de quanto e como elas foram amadurecidas. Mas a atitude dos estudantes hoje não ajudou em nada. Não sei se tinhas esse horizonte em mente, mas eu escrevi o texto ontem pensando na ocupação do gabinete apenas. Grande abraço!

      • 3 Alexandre

        Pois é Ronai. O meu horizonte é ser contra qualquer tipo de ocupação, por quem quer que seja, de um local público, ou privado que não lhe pertença – bem entendido, dado que o contexto seja o de uma democracia. No contexto democrático, ocupar é mudar a regra do jogo, é fazer a torre se mover em diagonal… E se um mela o jogo, todos têm o mesmo direito e daí vamos todos para aquela ilhota do Mar do Norte, cheios de entropia para dar…

        Um exemplo simples talvez ilustre melhor: conheço inúmeros professores da Ufesm que são abertamente contra a política de cotas raciais. Houve um ridículo, pseudo-referendo a respeito, e uma singela chantagem do governo federal: ou aceita ou aceita. Os discordantes podiam ter ocupado a reitoria, exposto à mídia a farsa que aquilo era e exigido um verdadeiro referendo. Seria uma ocupação, digamos, “moralmente muito superior” a essa última… Mas engolimos uma atitude ditatorial (entre tantas do governo) para não mudar a regra do jogo…

        Abração!


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