Sobre a torre de marfim do mundo acadêmico

21dez14

Um dos poucos leitores desse parado blogue reclamou da duração da parada. Expliquei que estou meio macunaíma em relação aos temas usuais do mesmo, muita referência e pouco sentido, meu mal é nessa terceira idade. Mas o ano termina e outro se anuncia, com a previsão de muitos debates sobre as possibilidades no horizonte de um encontro estatuinte na Ufesm e, junto com isso, as conversas sobre o sentido de “universidade”.
Muitos falam mal dela, acusando-a de estar rodeada de muros, de ser uma torre de marfim. Já que tantos falam mal dela usando essas metáforas, sinto-me no dever de dançar com a feia. Ajuda-me nisso uma página de Gumbrecht, em Produção de Presença.
A metáfora da universidade como uma torre de marfim costuma ser vista como negativa.
A metáfora da universidade como uma academia rodeada de muros que a distanciam da comunidade costuma ser vista como negativa.
É todo o contrário.
Se você quer ver mais longe, é preciso estar em um lugar mais elevado.
Se você não quer sucumbir à idiotice das maiorias desinformadas, convém manter uma distância delas.
É simples assim.
Aquilo que compete a uma universidade fazer, a saber, lidar com conhecimentos e formações complexas, lidar com conhecimentos e formações de risco e demoradas, precisa de um escudo à volta. Os muros devem nos proteger do populismo, da pressão imediata e barata, da estupidez e idiossincrasia que grassam como gramas no verão, para que tenhamos as condições de lidar com os “tópicos de risco”, típicos do pensamento acadêmico, e as complexidades. DSC00733-1
Para ver os rumos da caminhada, precisamos de torres, para divisar horizontes. Muros tem portões, torres tem portas e janelas.
Ver nessas metáforas aquilo que há de mais valioso em uma universidade não é uma graça ao alcance de todos, infelizmente. Deixo aqui minhas esperanças de que, nos debates da Estatuinte da Ufesm, em 2015, todos nós pensemos um pouco mais antes de invocar metáforas de muros e torres para falar mal da academia.

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5 Responses to “Sobre a torre de marfim do mundo acadêmico”

  1. 1 Arno

    Muito boa a reflexão metafórica. Abraço

    Arno

  2. 2 Daniel

    Aplausos Ronai!! Também me preocupa quando um discurso político lugar-comum, populista, em certa medida esvaziado assume destaque em um ambiente que deveria priorizar o pensamento crítico e a expansão das fronteiras do conhecimento.

  3. 3 Laercio

    elitista vazio, se sentindo ameaçado quando o “mundo real” espia da entrada da caverna..

  4. 4 Alexandre

    De pleno acordo com o querido colega Ronai, acrescento uns poucos comentários e observações que incluem minha atual experiência como conselheiro no CEPE.

    Essa história da torre de marfim do mundo acadêmico, seja do ponto de vista de quem a defende ou de quem a ataca, ou de quem defende e ataca conforme a circunstância, e para continuar no espírito das metáforas, é uma estranha pista, larguíssima, com umas 6 ou 7 faixas cujos sentidos podem mudar a qualquer momento, com enorme potencial para acidentes… Ou… o mundo das ideias é realmente complicadíssimo, onde quase tudo está sempre invisível até que alguém pinta uma ideia com alguma cor visível, e aí ela já está tão perto que pode causar um acidente…

    Ahh, as ideias… Vejamos: quem está mais alienado do mundo real, aquele que, fora da universidade (improvável) ou fora de seu “staff” – aluno, por exemplo – acusa a universidade de torredemarfinismo ou aquele que, estando dentro da universidade na condição de docente ou/e administrador (o termo da moda é “gestor”), seja qual for seu nível hierárquico – e portanto olhando as coisas a partir da torre – também acusa a universidade de torredemarfinismo?

    Esta talvez seja a mais importante das reflexões num momento como o atual, em que mudanças drásticas podem transformar, e já vêm transformando, a universidade no Brasil em algo tão diferente do que sempre foi que sua própria razão de ser está mudando… E no âmago dessa estranha metamorfose – só aparecendo para quem logra colorir o invisível, e de cabeça para baixo – está aquele enorme centro gravitacional que é, há décadas, a vocação política do Brasil, seja ele de esquerda, direita, em cima, embaixo, frente ou trás: o centralismo estatal – tão morbidamente obeso que nem consegue abrir os olhos para enxergar à sua volta… Imaginem por um instante o que seria de um presidente, de seus ministros e, descendo pela árvore (ou torre?), dos reitores das IES públicas se pouca gente ou ninguém precisasse deles. Isto seria bom ou ruim? A resposta a essa pergunta é evidente, mas a obesidade impede a visão: quanto mais perto do bom, mais desenvolvido o país…

    Nesse “clima”, sinto-me tranquilo em dizer que as reuniões do CEPE a que tenho ido, desde que fui nomeado para ali estar, me parecem capítulos de livros de George Orwell: “autonomia universitária” ali significa fazer tudo que o governo federal manda, exceto acatar decisões judiciais (provoca curtos-circuitos); professores que discordam das opções em votação precisam abandonar a plenária devido à incompatibilidade entre sua visão e a proibição da abstenção (qualquer semelhança com o voto obrigatório nas eleições gerais é mera coincidência?); relatores de processos e alunos falam em nome de comunidades indígenas (e outros contemplados com cotas especiais) sem nenhuma procuração para tanto, julgando a si mesmos como altamente conectados ao “mundo real” enquanto a esmagadora maioria da população, inclusive das minorias privilegiadas com cotas, nem sabe de sua existência (dos ilustres conselheiros, bem entendido)… Branco é preto, em cima é embaixo, autonomia é obediência servil, etc., etc.

    Como se vê, o centralismo estatal pluri-multi-exacerbadíssimo opera milagres! A continuar como vamos, com ou sem estatuinte, a Ufesm se transformará num grande forum de discussões sobre assuntos diversos e nada mais. Só quem deliberará será o ministro da educação. Na rabeira do ENEM, em breve teremos provas de habilidade específica nacionais – e semelhantes oxímoros. Afinal, somos tão autônomos que não podemos mais ter nossas próprias provas de ingresso; somos tão autônomos que se quisermos manter uma proporção de vagas para cotistas dentro do razoável, tentando assim minimizar o estrago causado por uma lei insana que exige o mínimo de 50% e nenhum máximo, temos que nos retirar de plenárias do CEPE para lembrar que estamos numa democracia…

    E olha que estamos no fim de 2014, não em 1984…

  5. 5 Ronai Rocha

    Caros Arno, Daniel, Laercio e Alexandre, obrigado pelos comentários. Ao Arno, boa viagem! Ao Daniel, obrigado pela partilha de preocupações com o populismo barato e burro que nos ronda. Ao Laércio, agradeço pelas aspas na expressão “mundo real”, diante da caverna; estou mais para Aristóteles do que para Platão. Ao Alexandre, obrigado pelas visitas e comentários no Blog. Muito boa sorte nas jornadas do CEPE! Teremos um 2015 bem emocionante na Ufesm, e sempre que puder vou continuar fazendo por aqui minhas observações. Abraço!


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