Argumentos e sentimentos

26maio15

GotasSó para constar. Amanhã, se entendi bem, meu amigo Zanatta vai presidir a assembléia. Vou estar lá. Pensei em pedir a palavra para ele, companheiro de tantas lutas, e argumentar que não devemos fazer greve nesse momento. Mas me dei por conta que não tenho argumentos contra a greve. Ao menos, não tenho argumentos contra os argumentos que serão feitos amanhã na assembléia. Para que possamos nos compreender por meio da linguagem, é preciso, como diria um filósofo, um acordo mínimo sobre nossos julgamentos e avaliações, não apenas sobre algumas definições de base. E os julgamentos que ouviremos na assembléia serão os de sempre, inflacionados, bombásticos, persecutórios.
Não havendo acordo sobre juízos (essa é a razão pela qual a maioria das grandes universidades aderiu ao PROIFES), resta lembrar que não agimos apenas baseados em argumentos. Restam, não poucos, alguns sentimentos.
Sinto que ter uma universidade publica aberta e funcionando é compatível com um processo contínuo de negociação em defesa daquilo que consideramos o melhor para nossas carreiras e salários.
Sinto que as greves no sistema educacional são atitudes especialíssimas e com consequencias tão funestas na formação de nossa gente que somente devem ser deflagradas em circunstâncias graves e por maioria ao menos simples da categoria.
Sinto que há uma profunda contradição em fazer greve na graduação e manter o sistema de pós-gradução intacto.
Sinto que há uma profunda contradição chamar de “greve” uma parada remunerada temporária de atividades.
Sinto que há uma profunda falta de sintonia entre os argumentos de greve e os sentimentos gerais daqueles que acorrem, aos milhares, por uma unica vaga na Universidade, seja para estudar, seja para nela trabalhar. Como é que tanta gente procura algo tão ruim?
Sinto, também, que há algum sentido em dar um tempo a mais para um ministro da educação que assumiu o cargo faz poucos dias.
Sinto, enfim, que há, na proposta de greve, uma coragem apenas burocrática, (já está definida uma paralisação no dia 29 “contra o ajuste fiscal do Governo…”).
Sinto muito. Amanhã eu vou na Assembléia para votar contra a greve agora.
Se eu perder, voltarei a dar aulas.
E para o primeiro grevista que me cobrar coerência (“Como você pode agora dar aulas, se foi para a Assembléia e perdeu na votação?), eu serei generoso e explicarei:
Claro que eu me contradigo” (Confesso que eu gostaria de dizer: Eu sou muitos, eu contenho muldidões.)
Assim, direi apenas:
Mas foi você quem me ensinou o caminho que dissolve a contradição, no momento em que sentou-se em sua sala, na segunda-feira, e deu orientação ao mestrando que precisa defender a dissertação daqui a alguns meses.”
Sinto que ele não admitirá que nossas greves fazem de nossos estudantes de graduação laranjas de amostra, bois de piranhas.
Confio que o amigo Zanatta não vai reeditar o triste episódio da soma dos votos de Palmeiras.

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One Response to “Argumentos e sentimentos”

  1. 1 Arno dallmeyer

    Este é o meu amigo Ronai. Claro, conciso e coerente. Parabéns pelo texto e pela postura. Estou a 1.800 km daí, caso contrário cerraria fileira contigo. Abraço

    Arno


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