A greve e a ética

29maio15

IMG_8369-1A primeira grande greve na Ufesm foi em 1984. Ela durou 84 dias, de 15 de maio a 7 de agosto. Entraram em greve dezenove universidades e mais algumas escolas federais. As reivindicações eram bem específicas: reajuste salarial, piso, coisas desse tipo. Assim que a greve foi aprovada em uma assembléia com o auditório do Hospital completamente cheio, fomos procurados (eu fazia parte do comando de greve) por alguns professores que, tendo aderido à greve, queriam conversar sobre as implicações de parar, para além das aulas. Eles tinham questionamentos de natureza ética, nos diziam, relacionados às suas atividades de pesquisa e pós-graduação. Para melhor entender o meu ponto, relembro alguns fatos:
Em 1984 a Ufesm tinha 1.241 professores, dos quais 730 trabalhavam em regime de tempo integral e dedicação exclusiva. E nesse 1984 a Ufesm tinha nove cursos de Mestrado funcionando. Cito eles aqui na ordem de criação:
1971: Mestrado em Agronomia.
1973: Mestrado em Medicina Veterinária e Zootecnica; Mestrado em Filosofia; Mestrado em Engenharia Mecânica e Elétrica; Mestrado em Controle de Medicamentos.
1975: Mestrado em Educação Agrícola.
1978: Mestrado em Educação Física.
1984: Mestrado em Ciência e Tecnologia de Alimentos.
Havia mais um tanto de Cursos de Especialização. E a ordem do dia era continuar a criação de cursos de Mestrado, bem como ampliar o regime de trabalho dos professores para o tempo integral e a dedicação exclusiva, que já era expressiva em 1984.
O questionamento dos professores dizia respeito ao quanto parar. Deveriam, para ficar em paz com a consciência grevista, parar com as pesquisas? Mas como poderiam fazer isso, sem prejuízos irreversíveis para o próprio trabalho? Aqueles que faziam pesquisas com organismos vivos nos lembravam que a interrupção de trabalhos em andamento implicaria a perda de meses de dados. E o que fazer com os orientandos? Como interromper, sem outros incontáveis prejuízos, a orientação deles? Como não atender os calendários e prazos dos organismos financiadores, como CNPq e Capes? Era preciso que uma Comissão de Ética da greve tivesse conhecimento do problema, para que eles não fossem tidos como “furadores” da greve, por manterem as atividades de pesquisa em dia. E assim foi entendido: que a greve se resumiria às aulas da graduação; que a tal da unidade entre ensino, pesquisa e extensão deveria ser quebrada, em nome das lutas.
Foi ali, creio, que nasceram as nossas laranjas de amostra, nossos bois de piranha, os alunos de graduação. Mas isso era 1984, quando vivíamos um regime militar, e o conflito ético ali explicitado era colocado entre parênteses em nome do contexto.
Quando as greves começaram, nos anos oitenta, já havia um sistema de pós-graduação e pesquisa em crescimento, já havia mais da metade dos professores da Ufesm em dedicação exclusiva. Não é verdade, como disse alguém, que as greves conquistaram tudo o que temos de bom nas universidades. O sistema publico de ensino superior e pesquisa já era consistente muito antes de começarem as greves. Na verdade, muitas delas fracassaram; outras tiveram sucessos moderados. E outras – quando começamos a deixar de fazer greves específicas das universidades – começaram a criar o enorme desgaste das greves de bojo, que se materializa na baixíssima mobilização em favor delas. Mas quem, hoje, dá bola para essa conversa de fazer diferença entre “greves específicas” e “greves de bojo”? Isso agora é história, como os dilemas éticos dos professores em 1984.

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3 Responses to “A greve e a ética”

  1. 1 Arno dallmeyer

    Meu estimado Ronai. Li com a devida atenção seu escrito sobre a greve e a ética. E por isto vi que há um detalhe na tua relação de cursos de PG lá nos idos de 1970. O curso que aparece como Engenharia Mecânica me parece que era Engenharia de Produção. E falta de Engenharia Agrícola, à época Engenharia Rural. Sei que isto não afeta seu texto, mas é um resgate de história. Abraço

    Arno

    • 2 Ronai Rocha

      Olá Arno, obrigado pela lembrança. Como lembras, o sistema era ainda um pouco maior do que eu descrevi. Eu me baseei em um documento da Universidade, talvez tenha anotado erradamente. Fica o teu comentário como uma correção do meu texto. Abraço!

  2. E aquela greve de 1984 derrubou a ministra Esther Figueiredo Ferraz, linha dura, e que usava uma flor branca na lapela do terno roxo!


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