A velhice é uma merda

13jul15

Vim a ser professor na Ufesm faz uns quarenta anos, primeiro como horista e eventual e depois no quadro do Departamento de Filosofia. Em 1976 não havia concurso nos modelos atuais. As plenárias departamentais, na maioria das vezes, estudavam os currículos dos candidatos e decidiam quem contratar, a partir das vagas disponibilizadas. Os concursos vieram depois, e me submeti a um, quase que como formalidade. Assim, posso dizer que me lembro muito bem de um tempo em que não havia carreira nenhuma, por assim dizer, pois nossos contratos eram de horistas, de no máximo doze horas por semana. Os mais bem aquinhoados, poucos, tinham contratos de vinte horas. E havia um pequeno olimpo, uma vintena de professores entre o total da universidade, com contratos de quarenta horas. A dedicação exclusiva era ainda mais rara. Alguns centros de ensino, até o final dos anos setenta, não possuiam um único contrato de trabalho em quarenta horas e dedicação exclusiva. Eu me lembro, como se fosse hoje, de quando um dos meus professores, na Filosofia, abandonou o departamento e mudou para outro centro de ensino, pois lá estavam sendo distribuídos contratos de 40 horas e DE. Na Filosofia, nem pensar. Ninguém tinha contrato de trabalho superior a vinte horas, até 1974. Simples assim.
Foi na Filosofia que nasceu o movimento docente, pela iniciativa de meu colega, Noli Brum de Lima, fundador da APUSM. A Apusm foi fundada como associação e não como sindicato pois era simplesmente impossivel na época criar um sindicato na universidade. E foi como Apusm, como associação de professores, que fizemos sindicalismo até 1989, quando foi fundada a Sedufsm. Assim, quem ajudou a criar a Andes foram professores em torno da Apusm. E eu sei essas coisas porque eu estava na reunião de criação da Andes, em Campinas, representando a Apusm.
Hoje foi dito, duas vezes, que as greves são importantes, e foram elas que conquistaram grandes feitos, entre eles o RJU, Regime Jurídico Unico.
Certo. Concordo com as duas coisas. Greves são importantíssimas. E por isso mesmo não podem ser banalizadas, sendo repetidas a cada dois anos. E foi por meio delas que conquistamos coisas como o RJU. O que não é dito, o que é silenciado, é que as greves que fazíamos e que desembocaram na conquista do RJU eram greves específicas de professores de universidades federais. E, especificamente, a conquista do RJU foi o resultado de um longo processo de greves e protestos específicos dos professores das universidades federais que se aproveitaram de uma grande fraqueza dos governos militares da época: a existência de um sistema universitário federal dualista, de autarquias e de fundações. Os professores das fundações ganhavam mais do que nós para fazer a mesma coisa. Essa bandeira era um abraço, fácil de dar e defender. Assim, em uma série de greves e protestos, ao longo de muitos anos, provocamos a fusão do sistema, criando, no final, o RJU, em um período que vai do fim do regime militar – as primeiras paralisações que fizemos foram em 1979, se bem me lembro, até 1987, quando apenas ensaiávamos a democracia.
Os anos noventa foram outra história. E eu acho que ela está mal lembrada, e está dando nesse quadro de falta de reconhecimento.
Antes de arriscar uma hipótese, devo lembrar que a cronologia de nossas greves não coincidia, nos anos oitenta, com a cronologia da greve dos técnicos da UFSM. Eles levaram mais tempo para colocar greves nas ruas e elas eram independentes das nossas. Havia um sentimento que a força da greve de cada categoria dependia da especificidade do que era reivindicado.
Não vou conseguir desenvolver aqui minha hipótese para nossos extravios. Apenas faço um gesto. Nos anos noventa começaram as “greves de bojo” que deram no que temos hoje: pautas com oitenta itens, e solidariedades extremadas entre todo tipo de sindicato. Aos poucos, deixaram de existir greves de professores de universidades federais. A especificidade do movimento docente foi aos poucos dissolvida numa pauta de dezenas de itens, no mais das vezes totalmente genéricos, no bojo das greves do funcionalismo federal, no mínimo.
Um exemplo menor disso é o fato que os servidores da Ufesm tem, na sua pauta de reivindicações, a luta por conselhos paritários e meu sindicato concordou com isso sem me perguntar. Meu sindicato não só concorda com isso, mas quer fazer uma greve junto com quem tem isso na pauta, sem que isso esteja na nossa pauta. Só pode dar estranhamento, não?
Falta muita conversa para passar a limpo, eu acho. Mas bem que a Assembleia de hoje proporcionou umas conversas interessantes. E uns protestos bem humorados, como o do Juca.
As greves são importantíssimas, mas foram banalizadas por nós, especialmente quando deixaram de ser específicas e começaram a flertar com a reforma completa do vasto mundo. Eu, que não me chamo Raimundo, acho que isso não é solução para nossos encalacramentos.
Eu pedi a palavra, no final da assembléia, e propus que a gente fizesse algum tipo de debate de autocrítica, antes de querer mobilizar e criticar os outros. Tive a ligeira impressão de que não me deram muita bola.
A velhice é uma merda, as vezes.

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4 Responses to “A velhice é uma merda”

  1. 1 Juca

    Que bom que encaraste com bom humor o meu protesto. Mas eu estava puto mesmo! Não me sinto confortável como massa de manobra. Um colega chegou a reclamar do uso do tratamento “companheiro”. Companheiro desta turma eu também não sou. E teria mais a reclamar. Mas continuar a protestar seria abusar da paciência dos demais. Protestaria contra a pauta: “Deflagração da greve”. Como assim? Deflagar uma greve que havia sido rejeitada na assembléia anterior? Reclamaria da comunicação visual: punhos fechados e as cores vermelho e amarelo. Não estou participando de uma revolução socialista. Não compareci ali para finalmente subjugar o capital. Fui a uma assembleia que deveria tratar da campanha salarial de professores. Discordaria dos “informes” e da “análise de conjuntura”. UFRGS em greve? Como assim? Lá, 1.300 professores votaram contra a greve em uma consulta ampla. Mas, como umas poucas dezenas de professores, reunidos em assembléia do sindicato chapa branca, disseram que a UFRGS está em greve, então o informe é que a UFRGS está em greve. Foi demais para mim. Mas ouvi a Cristiane e calei-me. Ela, com muito mais delicadeza, já tinha percebido que eles estavam perdidos.

  2. 3 Alexandre

    Ronai, não sei se tua intenção no fim do texto acima foi um eufemismo de cavalheiro… Em todo caso, esclareço aos leitores mais jovens que a postura do presidente da SEDUFESM diante da tua fala final foi muito pior do que não dar bola. Para minha surpresa – pois sou novo nas assembleias e não o conhecia até há pouco – ele foi arrogante e desrespeitoso, pois disse que você não conhecia a história das conquistas sindicais e papel das greves nisso tudo… Se estás ficando velho, o decrépito é ele…

  3. A “velhice” nesse contexto, Ronai, incomoda porque vem acompanhada de sabedoria e bom-senso!


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