“De que jeito eu podia amar um homem?”

01jun16

IMG_8265-1Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos – vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa… Reforço o dizer: que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa… Aquilo eu repeli?

No momento em que se celebra a publicação, faz 60 anos, de Grande Sertão Veredas, do João Guimarães Rosa, parece ser também oportuno celebrar a brutal atualidade da trama do livro e a astúcia rosiana para lidar com as dificuldades da realidade: “há muitas coisas que o entender da gente por si não alcança.”
Wittgenstein disse que uma gota de gramática, por vezes, pode conter uma nuvem de filosofia. E Rosa mostra que um parágrafo da grande literatura pode ser um bornal de alimentos para o espírito.
Apaixonado que sou pela prosa rosiana, e com outro olho em certos temas atuais, não resisti a transcrever a passagem acima, que tenho anotada em um caderno velho, dos anos setenta. Ela está na página 374, mas eu não anotei a edição. Com certeza era uma daquelas primeiras, da José Olympio. É a minha homenagem aos 60 anos do Grande Sertão da nossa literatura.

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