Sentimentos: política como ventriloquismo?

04nov16

Como compreender as ocupações de escolas, a voz das julias? Vamos comprá-las pelo valor de face? Vamos comprá-las pelo que dizem os cartazes de fora isso e contra aquilo? Mas como poderíamos fazer isso depois de tanto elogio da cultura da suspeita? Também não me parece que está disponível o antigo caminho da crítica à doença infantil do esquerdismo, pois nem esse lado sequer é invocado. O enigma das ocupações parece ser ainda maior, pois a meninada não parece estar encharcada de futuro, não há utopistas nessas trilhas. E devemos colocar no mesmo saco ocupações de escolas e universidades?
Quanto a como compreender as ocupações de escolas, tendo a ver nelas um exercício de voz; mas não é qualquer exercício de voz. É uma voz imprensada entre o Cila da impossibilidade da saída (não há como entrar na escola apostilada, veja o preço das mensalidades) e o Caribdes da lealdade que flerta com a dissonância cognitiva (é preciso ver o que há de bom no que temos). É por isso que tento não colocar no mesmo saco a ocupação das escolas e as ocupações de universidades. Nas escolas há um zelo por regras (apartidarismo, bloqueio à imprensa e visitantes) que faz lembrar os senhores das moscas. Nas universidades o senhorio é do gozo do portal transposto, o ritual do vestíbulo finalmente materializado em bandeiras e gritos.
O que fazer diante dos senhores das moscas? Alguns idiotas no parlamento querem exigir da gurizada a conversa racional e o bom senso, o acordo que nem os grandes conseguem. Outros não menos apressados no entendimento sugerem um interpretaço na fala deles: é a verdade bruta do fora uns e do contra aquilo. Essas extremidades são mais estremecimentos do que pensamento; a verdade dessas coisas deve estar em algum ponto intermediário.
E não é assim que desde os anos oitenta quem podia pagar mensalidade em escola particular tratou de ali colocar seu filho?
A escola pública estadual, desde os anos oitenta, foi abandonada por todo mundo. Ela  entrou em um processo de desmelhoria (permitam-me) crescente. E o cenário em que vivemos, com estados falidos, que sequer conseguem pagar os salários em dia, nada mais faz do que agravar uma tendência que surgiu quarenta anos atrás e da qual não temos um bom diagnóstico a não ser o tal do neoliberalismo. Mas essa conversa mole de bandido e mocinho tem quarenta anos…
Peço desculpas ao leitor do blogue, se ele, ao começar a ler essa postagem, imaginou que eu teria algo de interessante a dizer sobre a compreensão das ocupações das escolas públicas estaduais. O que eu queria expressar era apenas uma impressão de desconforto com as manifestações políticas que oscilam entre um exercício de ventriloquismo da gurizada e a cooptação imediata e simplista do “fora quem está aí”. Faz algum tempo que desconfio que o buraco, como se diz, é mais fundo e está em outro lugar, que começou a ser cavado nos anos oitenta, quando a maioria das pessoas que hoje tem mais de cinquenta anos tratou de continuar defendendo o ensino público enquanto matriculava seus filhos nas escolas privadas e não viu nisso um grande problema. Ou, ao menos, um problema que merecia ser teorizado. Mas nesse ponto o assunto fica complicado, a hora é tarde, o dia termina.

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