Uma foto, “en passant”

15nov16

Procurei em diversos lugares do Facebook por uma fotografia recente, na qual aparecia o reitor da universidade e três assessores; eles visitavam um prédio ocupado por estudantes. Não consegui encontrá-la e assim a descrevo na forma como me lembro. Ou seria na forma como ela me impactou? Ela foi tomada de baixo para cima e as quatro autoridades, ao sol, representavam estar em silêncio, algumas com a mão no queixo, na posição de quem está pensando gravemente. A força da foto parece vir do fato que as autoridades não gesticulam, elas estão paradas, olhando para um lado, para o chão, para alguma parede, e não estão em situação de diálogo. Parece que ali não havia muito a dizer, apenas estar ali, em uma atitude intermediária entre o testemunho, a simples constatação, um fio de solidariedade, quem sabe, pois as autoridades deram-se ao trabalho de deslocarem-se de seus lugares de trabalho para vir ao sol, na porta de um prédio ocupado. Ali encontraram a ocupação e mostram algum sentimento, que cabe ao espectador descobrir qual seria. A legenda dizia que as autoridades estavam ali para prestar solidariedade à ocupação, mas a gente não fica necessariamente convencida disso. Eles mais parecem perplexos, sem saber ou ter muito o que fazer.
Na foto, os estudantes não estão em destaque. Eles parecem estar sentados, olhando para os representantes da reitoria, como se estivem prontos para uma longa espera. Eles esperam ouvir as as autoridades, o que elas tem para dizer, esperam que o protesto tenha algum efeito, esperam que o tempo faça algum trabalho, ajudado pelos sentimentos que nutrem de estar fazendo algo pelo futuro.
O olhar se volta mais uma vez para as autoridades e tenta adivinhar o que elas estão pensando. Parece sensato pensar que, seja o que for, eles reconhecem, pela atitude de pensadores preocupados, que as dificuldades são importantes.
De um lado, os reitores das federais não esconderam a desconformidade com os horizontes previstos na PEC55 e assim não podem desautorizar os sentimentos de quem protesta; esses sentimentos são, essencialmente, de “repúdio” às mudanças constitucionais que alterarão as regras orçamentárias que tem sustentando, entre outras instituições, as universidades federais. Os reitores tem apontado, entre outros, o fato que a universidade tem um crescimento vegetativo na folha que – aprovada a PEC – corre risco de ser bloqueado, por exemplo, sem falar nos demais cerceamentos orçamentários.
De outro lado as universidades estão divididas; apenas uma parte dela está sem aulas e o quadro não vai mudar muito; o calendário está correndo e assim em duas semanas o semestre estará encerrado para a grande maioria dos estudantes; a ocupação vai resistir por um bom tempo, pois a PEC 55 apenas entra em votação decisiva no mês que vem; restará em Dezembro uma universidade cada vez mais esvaziada de movimento e assim será necessário que as ocupações façam alguma escalada; todos sabemos o final do filme: ocupar a Reitoria, o ultimo bastião da repercussão possível antes do travo final e do Natal: e, como Dante, no Inferno, as esperanças ficam na porta ocupada, pois depois das demonstrações de força no impedimento e nas eleições municipais, quem acredita que a PEC possa ser retirada ou derrotada?
Mas trata-se de sentimentos, da expressão de repúdio, de recusa, de nojo até.  Parece haver uma suposição velada de que a própria saúde espiritual de muitos depende dessa manifestação pública de raiva. Lembro aqui o recente livro de Martha Nussbaum, Anger and Forgiveness e o tema da “raiva nobre”, a “raiva transicional”, que implica em atitudes contra aquilo que parece ser uma injustiça social. Pois não é assim que as autoridades precisam deslocar seus corpos para junto da porta ocupada e ali permanecer vários minutos, mesmo que nada tenham a dizer? Elas simplesmente precisam ficar ali, fazer o jogo transicional de simplesmente molharem-se ao sol. E não é assim que os ocupantes precisam também preencher todo o tempo com o jogo da ocupação, para que ela não seja vista apenas como uma tardia noite do pijama? Os sentimentos não podem ser apenas isso, puros, eles precisam ser recobertos por pensamentos, por mais imperfeitos e vastos: corrigir as coisas por meio da imposição de um certo sofrimento aos outros, na leitura de Martha. Afinal, no horizonte nos espera um encolhimento da universidade, um sofrimento contado no rosário dos dias. Assim, é preciso, por assim dizer, antecipar o luto.

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Olho mais uma vez para a foto que não encontrei mais. As autoridades parecem pedir paciência, em especial àqueles que desejam fazer seu luto de outras formas; há muitas formas de fazê-lo e nem sempre os momentos de celebração da perda coincidem. Deixem os ocupantes em paz, parecem pedir as autoridades. Por um momento não me parece um pedido descabido; eu olho novamente a foto e o que as autoridades estão vendo parece ser algo muito grave, que minha imaginação não consegue conceber. Por um momento eu tenho a impressão de entrever os sentimentos dos meus alunos e me solidarizo com eles, a celebrar um luto que desafia o pensamento. Mas é só um momento, pois na minha idade os momentos começam a ficar escassos e eu prefiro fazer meu luto en passant.

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