Os senhores das moscas

16nov16

Captura de Tela 2016-11-16 às 21.36.08.pngAntes da primeira ocupação na UFSM, ainda no dia 4, escrevi uma pequena nota (abaixo, no blogue) dizendo que não colocava no mesmo saco a ocupação das escolas e as ocupações nas universidades. Há muitas diferenças e a principal delas é que todas as ocupações escolares aconteceram durante greves de professores estaduais. No caso da UFSM as ocupações não foram sincronizadas com a greve de docentes, indicada para começar  a partir do dia 25 próximo. As ocupações das universidades introduziram um novo componente, até então não explorado, a não ser em casos isolados (na USP, no ano passado, por exemplo). O novo componente consiste em trancar, com mesas, cadeiras, cadeados, o acesso aos prédios. As portas dos prédios são bloqueadas (em alguns casos são os corredores de acesso, como no prédio de Humanas da UFSC) e ali fica um grupo de vigilantes para impedir que os obstáculos sejam removidos. A partir desse momento, quem quiser entrar no prédio ou simplesmente não poderá, como no caso das pilhas de mesas e cadeiras nos corredores ou deverá submeter-se a um pequeno ritual de esclarecimentos e identificações. Trata-se, na verdade, de um pequeno ritual de humilhação. O funcionário ou o professor deve pedir para entrar, identificar-se, deve dizer o que pretende fazer, e, se concedida a permissão, será acompanhado por um ocupante até a sala, para depois ser acompanhado na volta. Se ele tem uma pesquisa em andamento com Drosophila melanogaster, deve dar conta da tarefa e depois retirar-se. Como diria Cortazar, a casa está tomada, e isso não é uma metáfora. Há novos senhores das moscas, diria William Golding. Parece haver outro detalhe: em alguns casos, estudantes que tem base de aulas em um prédio fazem vigilância em outro, para evitar o constrangimento de terem que impedir a entrada de seu próprio professor.

Acho que foi por isso que ainda não fui até minha sala, que fica em um dos prédios cujo acesso está completamente bloqueado; fiquei pensando na possibilidade dos senhores da porta serem meus alunos, de terem que fazer de conta que não me conhecem, de pedir minha identidade, me acompanhar até minha sala. Seria muito constrangimento para eles, pensei. E se fossem desconhecidos seria, evidentemente, um pequeno e indisfarçável ritual de humilhação.

Esse é um passo mal calculado das ocupações. Se elas tivessem optado por uma greve do tipo sit in, haveria o constrangimento pelo olhar daqueles que optassem pela aula, haveria a desejada politização pelo convívio diário de posições opostas. A opção feita pelo bloqueio físico, pelos rituais de identificação e controle que estão sendo impostos aos professores e servidores  – são dezenas de casos que não passam disso, rituais de humilhação – está diminuindo a chance de um brilho politizador no movimento. Tudo está ficando esquemático e constrangedor. Dentro de poucas horas, lê-se nas redes sociais, alguns professores irão ao Ministério Público pedir ajuda para poder trabalhar sem constrangimentos. Não foi deixado outro caminho  diante do bloqueio, do impedimento, da proibição de que um docente faça a limpeza diária de sua capela sem ter que rezar diante dos novos senhores das moscas. A ocupação da UFSM, tomada pela soberba, não vai terminar sem crise antes do final de sua primeira semana.

“Jack estava de pé. – Vamos ter regras! – gritou, excitado. – Muitas regras! E quando qualquer um não as respeitar… – Uuuu-piu! – Uuuaai! – Puuum! – Taaam!” (William Golding, O Senhor das Moscas, p. 37)

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