Sobre um certo desperdício

17nov16

captura-de-tela-2016-11-16-as-21-36-08O escrito aqui embaixo, sobre os senhores das moscas fez com que alguns amigos ficassem meio desconfiados comigo. Alguns acharam que exagerei nas tintas, que não descrevi corretamente as coisas ou que faltei com solidariedade à gurizada ocupante e meio que pisei na bola, pois a causa, no final das contas, é justa. Só faltou alguém me cobrar que eu mesmo assinei o manifesto de professores do meu departamento contra a PEC e a medida provisória da reforma do médio. De fato assinei e assinarei de novo, se me pedirem. A PEC, uma vez aprovada, me parece o marco de uma nova etapa na qual, no fim, não morreremos, mas vamos sim passar muita fome. A Reforma nos vem garganta abaixo, decidida no afogadilho de mandato, em medida provisória patrocinada por governo ainda mais provisório, que devia ter tido a grandeza de continuar o debate por meio de projeto de lei, que havia desde 2013 com o mesmo objetivo.
Isto posto, volto ao município de Santa Maria, limites do que escrevo, eis que este é apenas um blogue municipal. Se os ocupantes levaram a sério os sentimento de repúdio à PEC e ao governo, eu levei a sério o sentimento de vários amigos meus que sofreram os constrangimentos que relatei. Eles não foram inventados por mim e poderia ter contado vários outros que incluiram gestos como o de puxar pelo braço uma querida amiga, professora, que só queria saber porque não podia entrar no prédio onde tinha aulas. Querem o nome, a hora, o local? Não é o caso. Em homem e em mulher não se toca sem consentimento, pensei que fosse esse o mantra.
Revisando: a causa é boa, o movimento é sexy, mas não dá para copiar a ideia dos secundaristas sem recontextualização. Quando os secundaristas fecharam as escolas, os professores estavam em greve, e, tanto quanto sei, os colegas de magistério estadual não costumam ir, nas escolas, para suas salas de trabalho. Tanto quanto sei, na imensa maioria das escolas estaduais, há apenas uma sala de professores e eles não costumam ficar na escola quando não estão em aula ou em reuniões. Tampouco há laboratórios de pesquisa, etc. Assim, há uma transposição ao menos arriscada de métodos de “ocupa” quando passamos do secundário para as universidades. São coisas diferentes, com repercussões diferentes, e etc.
Mas a importância dessas coisas empalidece diante do que, no meu juízo, está por vir, no capítulo das ressacas dos enfrentamentos que aconteceram – impedimentos, derrotas eleitorais, fragmentação brutal dos movimentos, a maré montante de conservadorismo de todo tipo e feitio – e que, ao que parece, apenas estão começando. Esse tema, no entanto, é muito longo, fica para outra hora. Quero apenas dizer, mais uma vez, que não deveríamos desperdiçar a boa energia da universidade brigando entre a gente por detalhes básicos como poder ir e vir no local de trabalho. Mas estamos, infelizmente, nessa coisa de não poder cuidar das moscas, da capela, negociando no varejo a realização de concursos e seleções de professores e muito mais.  Esse vazamento de energia vai nos fazer falta, logo ali, eu acho. Não precisávamos desperdiçar tanta força que vai nos fazer tanta falta, pois não há conflito categorial entre protesto e aulas, só isso. Ou há?

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