“Terceira consideração”

20nov16

captura-de-tela-2016-11-20-as-11-42-48Tendo em vista a repercussão um tanto negativa de minhas observações sobre os senhores das moscas, mais devida aos defeitos de minha exposição do que qualquer outra coisa, gostaria de explorar outros caminhos para pensar um pouco mais sobre o movimento estudantil no município de Santa Maria. Desde logo quero dizer que nada mais posso fazer do que escrever a partir de uns poucos fatos e notícias que conheço e que isso, para meu gosto, está muito longe de ser de grande valia. Haveria, antes de uma escrita dessas, muito trabalho empírico para sociólogos, antropólogos, historiadores, etc, pela frente: quem, onde, como, em quais circunstâncias, mas isso está por ser feito e eu nada posso fazer a não ser anotar aqui algumas especulações a partir do vejo no jardim.
Volto, no entanto, por um momento, ao mote que me levou aos senhores das moscas, a saber, a decisão inicial, na imensa maioria das ocupações de escolas por secundaristas, de elaborar um conjunto de regras; elas dizem respeito tanto ao modo de funcionamento no interior da ocupação (seja na criação de equipes responsáveis por limpeza, segurança, comida, atividades, etc, seja quanto à forma de funcionamento das assembléias e decisões) quanto às formas de relacionamento da ocupação com o exterior; aqui se destacam dois aspectos, a decisão pela despersonalização da liderança (não há um líder, um responsável único) e o controle do acesso do público externo, em especial da imprensa, para que haja alguma forma de controle das imagens da ocupação.
Quando comparei as ocupações com o texto de Goulding, tinha em vista essa questão do provimento das regras, pois isso me permitia olhar de forma mais clara para as formas de institucionalização ali providas. Por outro lado, ligado a isso havia a questão da submissão voluntária dos ocupantes a um período relativamente longo e incerto de provações de tipo físico e espiritual. E isso me sugeriu que as ocupações poderiam ser vistas, em primeira e terceira pessoa, como um tipo de prática de ideais ascéticos. “O que significam ideais ascéticos?” é a pergunta que Nietzsche faz na terceira parte da Genealogia da Moral e sua resposta é complexa. Mas a essência dela parte do reconhecimento que criaturas humanas não sobrevivem sem algum ideal ascético, pois não podemos viver sem objetivos e isso nos custa, às vezes e em alguns casos, muito! Deixo o tema aqui, daria um livro, mas esse já foi escrito pelo Nietzsche, que o leitor vá até ele.
O que quero anotar aqui – pensando em voltar algum dia ao tema – é apenas isso: o que aconteceria se tomássemos ao pé da letra, por um momento, uma das frases mais repetidas pelos secundaristas, a saber, que o movimento não é partidário? Se levarmos essa sério a frase, se a combinamos com o fato da ocupação, pelo aluno, de sua escola, se combinamos essas duas coisas com o que sabemos sobre a situação de crise da escola pública média no Brasil, e se combinamos tudo isso com o fato dos estudantes não se reportarem nem ao futuro nem à sobrevinda de uma escola ideal, mas de exigirem algo no aqui e no agora de suas escolas, não teríamos nisso a medida mais terrível de nossa crise educacional? Pois o que temos, num estado como o Rio Grande do Sul, é a falência do próprio estado, é a incapacidade do Estado de honrar o décimo-terceiro salário dos professores e dos servidores em geral, e isso significa a decomposição ainda mais acelerada dos serviços públicos e da escola pública. Enquanto isso os progressistas lambem as feridas e promovem protestos no atacado, sonham com a recomposição das frentes de esquerda, sonham com um futuro melhor e diferente. Eis o que me chama a atenção nas ocupações dos secundaristas, deste ponto de vista especulativo: parece que são os únicos que estão percebendo que não há futuro, não no sentido de um fim dos tempos, mas que a única política possível nessa hora é aquela que deixa de falar do futuro, que abandona a conversa da revolução para poder encarar a cara feia do presente. A impressão que eu tenho dos secundaristas é que eles não se deixam levar pelo “discurso da história”; são meio drummondianos, ligados ao “tempo presente, os homens presentes, a vida presente” e não foram contaminados pelas ilusões de paz e perfeição contidas nas promessas dos partidos que se pretendem progressistas. Há algo ali naquelas colinas, mas não é fácil de entrever.

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