Theodor Adorno e a polícia

21nov16

captura-de-tela-2016-11-21-as-20-39-21Hoje pela manhã um juiz federal determinou que o Reitor da Universidade de Brasília providencie o fim das ocupações; se necessário, diz o despacho, seja providenciado o uso da força policial. Aqui na Boca do Monte alguns estudantes e professores entraram com representações junto ao Ministério Público e, no limite, algo parecido ao que se passa na UNB pode acontecer aqui.

O caso me faz lembrar um episódio em tudo semelhante, que envolve um nome importante da filosofia crítica alemã do século XX, Theodor Adorno. Vou resumir em duas ou três frases uma longa história, que posso detalhar depois. Adorno, junto com Jurgen Habermas, estava conduzindo um seminário de sociologia em Frankfurt. Na época (Janeiro de 1969) a Alemanha, na esteira do Maio de 68 francês, travava intensas discussões sobre reformas no sistema universitário. Os estudantes, muito mobilizados, fizeram diversas ocupações (também na esteira das ocupações que ficaram famosas na Califórnia, motivadas não apenas por temas universitários, mas pelo clima de protestos contra as convocações para lutar no Vietnã) e uma delas inclui o prédio onde funcionava o seminário liderado por Adorno. Adorno e seus colegas de instituto declararam então que a ocupação era, na verdade, “uma invasão e chamaram a proteção policial”. Eles escreveram e divulgaram uma longa justificativa, que terminava dizendo que não tinham outra alternativa que não essa, para “resistir à todas as tendências autoritárias e igualmente aos atos de violência pseudo-anarquistas levados a efeito por ativistas ostensivamente da esquerda, tanto quanto às ações cripto-fascistas de grupos na extrema direita.”
Como estou impedido de continuar com minhas aulas de História da Filosofia Contemporânea, fico com vontade de seguir por aqui contando essas histórias de quando um dos maiores frankfurtianos chamou a polícia para poder continuar com seu seminário. Ela é mais comprida do que contei e pode servir de consolo para nosso Reitor, Professor Burmann. Se ele tiver que chamar a polícia, saiba que um dos filósofos mais ilustres do século passado, incensado por muita gente  boa até hoje, já fez isso sem piscar.

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