A política como tragédia

23maio17


Dias atrás tive uma conversa com o Athos, na Cesma, sobre os curiosos destinos e caminhos de nossa geração, especialmente sobre a forma como lidamos ou não com a crise das esquerdas nos anos oitenta.
Conversa vai, leitura vem, tirei da estante um livro de Merleau-Ponty sobre algo parecido. Fiz umas notas, caro Athos, um dos poucos leitores que me restam nesse abandonado blogue, vai aqui.
Merleau-Ponty, em um texto de 1960 (o prefácio de Sinais) fez uma espécie de balanço sobre as relações entre filosofia e política; aproveitou também para avaliar a atitude de engajamento que caracterizou boa parte de sua geração. No núcleo do escrito está a discussão das relações entre filosofia e política. Os filósofos falam muito sobre política, diz ele, traçam sobre ela sábias perspectivas, mas os afetados por elas parecem não prestar atenção nisso; porque será, pergunta MP, que os filósofos tem tanta dificuldade em admitir que simplesmente não sabem do que se trata? Há uma verdadeira “mania política entre os filósofos” e isso não produz nem boa política, nem boa filosofia.
De um lado, os filósofos inflacionaram a política com cóleras santas, com os problemas do ser e do nada, com uma imensa carga metafísica sobre “dialética” e “história”; o combustível dessa inflação, no entanto, é apenas a magra álgebra da filosofia. Como seria possível tirar de nossos esquemas simples, desse “centro metafísico”, pergunta ele, “a reassunção total das origens humanas num futuro novo, a política revolucionária?” O que ocorreu, com o passar do tempo (MP escreve no momento do fim da guerra fria e do começo da paz quente) foi uma permuta de vícios:
“Em vez de unirem as suas virtudes, filosofia e política estabeleceram desde então uma permuta dos próprios vícios: seguia-se uma prática ardilosa e um pensamento supersticioso”. (12)
O que se imaginava é que coisas como a dialética, a revolução e a história universal estivessem presentes em uma votação no parlamento, em um desenho de Picasso, este “magro espécime”. Devemos então, continua, promover o rompimento entre filosofia e política? Assim como nos casamentos, há boas e más rupturas e não seria o caso de que os dois devam ser abandonados em suas misérias. Muito menos seria o caso do divórcio falhar apenas em desfavor da filosofia, ele acrescenta.
É nessa altura que Merleau-Ponty dá seu adeus aos amigos que ainda se referiam ao marxismo como um pensamento “verdadeiro”:
“Dizemos que com os acontecimentos dos últimos anos, o marxismo entrou decididamente em uma nova fase da sua história, na qual pode inspirar e orientar análises, conservar um sério valor turístico, mas na qual já não é decerto verdadeiro no sentido em que se julgava verdadeiro (…).” (16)
Há quem pense que os únicos modos da existência intelectual sejam o verdadeiro e falso e contra isso ele diz que a história do pensamento opera de outra forma, pois alguns autores e obras viram “clássicos”, que falam para além de seus enunciados. São os livros que não tomamos mais ao pé da letra, mas cuja letra, de alguma forma nos ajuda a pensar os fatos novos. “Dizemos que Marx está em vias de passar a esta verdade segunda”.
Não é pouca coisa pensar assim. O cúmulo da arrogância filosófica era praticado por aqueles para quem o marxismo era “a operação da história posta em palavras”, e assim passaram a ser objeto de troça, pois pretendiam que “o ‘processo histórico’ passava pela sua mesa de trabalho.”
Ao dar esse adeus ao marxismo, em 1960, Merleau-Ponty comprometia-se com uma agenda de filosofia que não encontrou eco entre seus pares. Hoje a gente pode pensar que foi pior para eles. Hannah Arendt escapou disso, leitora atenta do francês.
Estamos em Maio de 2017, o tempo está feio, a tarde está fria. Deixo aqui um abraço ao Athos e aos outros nove leitores que ainda me restam. Fica aqui registrado esse modesto fichamento das reflexões do francês sobre a política como tragédia. Ou seria o contrário, sobre a tragédia como política?

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4 Responses to “A política como tragédia”

  1. 1 Ruy Gessinger

    Desculpa. Estava estranhando tua ausência com teus sábios textos.

    – o que fazem duas taças de vinho…

  2. 2 Vítor Costa

    Olá, professor. Um dos outros nove leitores saúda o movimento de sua pena e se põe, abatido pelo feio frio que se nos desce sobre os palas, a comentar.

    Primeiramente, gostaria de lembrar que o avesso do engajamento é engajamento ingênuo, porque também se engaja em não se engajar. Sem ter como sair do horizonte da questão posta, aqueles como os que operam de forma estritamente técnica e analítica e que estão convictos de que passam ao largo das cabriolas da história só tem o privilégio de uma surpresa maior diante das ironias do destino. Mas como não me misturo muito com esses técnicos, apenas sinalizo aqui que me parece que a neutralidade, assim como a democracia, é um ambiente pródigo em produzir “brilhantes aliados dos próprios coveiros”.

    Segundamente, como ando com os amigos do Merleau, estou inclinado a supor que se os significantes despóticos de outrora já não comovem, isso não significa que o despotismo não seja hábil em se valer de outros significantes cunhados na forja das melhores das intenções. Os amigos de Merleau, hoje, me parece, estariam mais fragmentados, disputando entre si, como em uma olimpíada, uma superioridade moral que não parece senão o prêmio de consolação diante de uma realidade que inviabiliza a ação. Condenada aos próprios gestos, a galera com a qual o Merleau andava já não consegue e não quer se entender entre si. Um dos amigos do Merleau, inclusive, hoje seria considerado como um mendicante por biscoitos, já que se metia em tudo o que não era seu, digamos, lugar.

    Aliás, obrigado por me sugerir que me tornasse amigo do Merleau: ele nos ajuda a não andar (somente) com más companhias.

    • 3 Ronai Rocha

      Caro Vitor, obrigado pela visita nessa tarde fria e obrigado pela simpatia para com as observações do MP. Um só reparo: o “engajamento” tem mais de um avesso, como mostra a história da humanidade e, mais claramente, a história da filosofia, desde os episódios que se seguem ao engajamento de Platão. É a essa dimensão que, na minha opinião, MP se refere. Não se trata, para ele, como sabes, de passar ao largo das “cabriolas da história”, mas de ter, em relação a ela, mais paciência. Nessa medida o contrário de “engajamento” não é “neutralidade”; mas reconheço que há quem queira levar para esse lado.

  3. 4 Athos Cunha

    Para completar esse imbróglio todo faltou um cappuccino no Cesma Café.


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