Tumultos

03jan18

Captura de Tela 2018-01-03 às 11.48.32Comecei 2018 lendo o livro de Hans Magnus Enzensberger, Tumulto, um livro de 2014 (li na tradução para o espanhol, Malpaso Ediciones, Barcelona, 2015). É um livro autobiográfico, pequeno e explosivo, centrado em episódios vividos pelo autor nos anos sessenta, com relatos sobre suas idas e vindas à Russia e à Cuba, um intenso caso amoroso com Masha, relações com intelectuais como Pablo Neruda e Nelly Sachs, o encontro com Nikita Khruschov. Enzensberger escreveu o livro aos 85 anos (hoje ele tem 87) a partir de cadernos de anotações, cartas e manuscritos abandonados, que ele havia guardado e perdido no sótão de sua casa. Tudo dizia respeito aos anos sessenta e setenta, e foi a partir desse material que surgiu o livro, “recordações de um tumulto” que usa, em algumas partes, o recurso de uma conversa com um “alter ego”, um sósia. Há também, além das anotações dos anos sessenta, observações e complementos escritos em 2014 e 2015.
O livro é uma janela privilegiada para a gente voltar pensar sobre o “ano que não terminou”, assunto que será recorrente em 2018. É esse o meu gancho.
Uma das razões do meu interesse no Tumulto e em 1968 vem de alguns temas do Quando ninguém educa (Editora Contexto, 2017), em especial a compreensão predominante sobre a Pedagogia do Oprimido, cujo prefácio é assinado por Paulo Freire no “outono de 1968”. Há um clima “meiaoito” no livro de Paulo Freire que até hoje não foi adequadamente avaliado e compreendido. A PO, segundo seu autor, foi escrita “entre 1967 e 1968” (Pedagogia da Esperança, p. 73) e deve muito ao clima político-intelectual da época, em especial em sua adesão explícita ao maoísmo e ao “deplorável Ernesto Guevara” (aqui eu cito o Tumulto de Enzensberger). Freire tomou emprestado de Guevara a retórica do “homem novo” que povoa o início da Pedagogia. A história é longa (pretendo voltar a ela) e em favor do humor ferino de Enzensberger é bom lembrar que alguns intelectuais cubanos, como Heberto Padilha (que é um dos temas do Tumulto), já em 1968 dissentiam e protestavam abertamente contra Fidel Castro, escrevendo poemas irônicos sobre o “homem novo”. No Brasil, no final dos anos sessenta, apenas começávamos a importar, devidamente cristianizada, a retórica do “homem novo”; Paulo Freire e Thiago de Mello escreveram versões tropicais desse evangelismo. Essas coisas de 68, segundo o Zuenir Ventura, não terminam de terminar.

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One Response to “Tumultos”


  1. 1 Tumultos — Coisas do Campo – postsfilosóficos

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