A mira e o chumbo grosso

08jan19

A Folha de S. Paulo do domingo passado publicou “Na mira de Bolsonaro, obra de Paulo Freire é pilar de escolas de elite”. A matéria é assinada por Paulo Saldaña, que, entre outros aspectos, destacou algumas visões positivas sobre a obra de Paulo Freire. São elas:

1. “referência para a educação popular no início dos anos 60, quando desenvolve um bem-sucedido método de alfabetização de adultos em Angicos, interior do Rio Grande do Norte. O método, que parte dos saberes e experiências acumuladas, ganhou o mundo.”

2. “desenvolve uma pedagogia crítica (que vai além do método de alfabetização) com princípios fincados no diálogo entre professores e estudantes e no valor da educação como ferramenta para emancipação individual e social.

3. “O principal livro de Freire, “Pedagogia do Oprimido”, está entre as cem obras mais citadas em língua inglesa, segundo o Google Scholar, ferramenta de literatura acadêmica.”

Alguns autores estrangeiros são invocados para apoiar uma descrição positiva de Freire: Peter McLaren, Michael Apple e Martin Carnoy. Há também apoio de autoridades brasileiras, alguns francamente otimistas: “Todo educador no mundo inteiro tem como referência Paulo Freire”, afirma Mauro Aguiar, diretor do colégio Bandeirantes, na zona sul de SP.”

As características do “método Paulo Freire” foram assim sugeridas: “estratégias de alfabetização em que se parte do conhecimento e da realidade social do estudante;” defesa da “educação como ferramenta de emancipação e superação das injustiças”; “autonomia” do aluno, “valoriza os saberes dos alunos como ponto de partida para qualquer situação significativa de aprendizagem”; “visão filosófica de que não existe educação neutra”;

Uma das pessoas entrevistadas assim defendeu Paulo Freire da acusação de doutrinação: ele escreveu que “‘Ninguém educa ninguém’, as pessoas se educam mediatizadas, e ‘ninguém se educa sozinho’”. Ora, conclui, que se ninguém educa ninguém, ninguém doutrina ninguém!!! A mesma pessoa declarou, segundo a matéria que há um “desconhecimento sobre o que Paulo Freire escreveu”. A matéria lembra que há uma “onda de ataques a Paulo Freire”, desde o ano passado, ligada aos defensores da Escola sem Partido; por fim, A Folha perguntou ao ministro sobre o assunto como ele faria para dar conta da doutrinação. Não houve resposta, ao que parece.

Depois que li a reportagem escrevi um texto para o “Painel do Leitor”.

Na matéria sobre Paulo Freire repetem-se afirmações recorrentes: reconhecimentos honorários, citações na rede mundial, com pouco espírito crítico. Desde os 1990 há estudos sobre certas infelicidades da ‘sociologia da educação’ que dão uma dimensão mais modesta para o ‘populismo pedagógico’ (ver as releituras de Young); este viés está ausente nas análises freirianas mais conhecidas, de esquerda e direita, e a matéria ignora isso. Se continuarmos a sustentar essa visão complacente sobre Paulo Freire não conseguiremos tirá-lo da mira de Bolsonaro; a pontaria dele, evidentemente imprecisa, seguirá fazendo o trabalho com espingardas de chumbo grosso“.

No outro dia a Folha publicou minha carta com adaptações, por razões de espaço.

Como se vê, abaixo dela está a carta de Ana Maria Araujo Freire, que ficou muito contente com o teor da reportagem. Eu não fiquei. Acho que a matéria poderia ter explorado uma visão alternativa do mito Paulo Freire, na linha do que procurei fazer com o QNE. A Folha preferiu a tradicional complacência e manteve a novilíngua do progressismo brasileiro (obrigado, Prof. Abel!). Ela fica evidente em cada um dos pontos que a reportagem destacou. Deixo para outro momento o comentário sobre as falácias de autoridade.

A espingarda contra Freire tem pouca pontaria, mas ninguém ajuda ninguém ao jogar um mito contra outro.

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