Rolezinho em Guarulhos

23dez13

Captura de Tela 2013-12-23 às 17.38.11 Eliane Brum escreveu uma bela matéria sobre os novos “vândalos” do Brasil, protagonistas da novidade deste Natal, o “rolezinho”, ocupações de shoppings por “juventude pobre e negra das periferias de São Paulo”, uma espécie de anuncio da vontade deles de “fazer parte da festa do consumo”. A resposta tradicional tem sido a criminalização da moçada.
Um dos palcos dos acontecimentos referidos por Eliane foi o Shopping Internacional de Guarulhos, que você pode ver na foto acima.
Guarulhos está na região metropolitana de São Paulo. O shopping traz consigo um pouco da história do Brasil recente. Ali funcionava, desde 1959, uma unidade da fábrica da Olivetti, que fazia máquinas de escrever. A fábrica (3.000 operários) funcionou até os anos noventa, quando fechou. O prédio foi comprado por um empresário local e foi convertido no Shopping Internacional Guarulhos.
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Muita coisa do edificio da Olivetti foi preservado. Na foto ao lado está uma das tantas gigantescas abóbodas de vidro que são do prédio original. Passei pouco mais de hora por ali, um dia desses. Procurei alguma sala que contasse a história do prédio da Olivetti, mas não há nada. O que há são histórias tristes, sobre como foi destombado e destruído um casarão tradicional que ficava no meio do estacionamento, coisas assim.
O prédio é imenso, dizem que visto de cima ele parece uma máquina de escrever. Não consegui ver a tal máquina.
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Numa das alas do shopping há um altíssimo pé-direito e ali funciona um parque de diversões, com trens, barcas, rodas gigantes, tiros ao alvo, martelos, jogos de bolas e um ruído infernal; fiquei pensando como as crianças podem suportar aquela barulheira. Caminhei mais um pouco e me perdi e me cansei. Era um labirinto, com milhares de pessoas zanzando para todos os lados, o ruído não parava, o calor não parava; entrei na única livraria que ali havia mas não me demorei, pois havia pouca coisa para olhar além de tons de cinza.
Foi nesse shopping que no sábado passado, dia 14, entraram dezenas de jovens, “cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção,” conta Eliane. Houve repressão, fechamento de lojas, correria.
O prédio tem nove salas de cinema. Eu havia ido lá pensando em ver algum filme, uma possível sala com a história da Olivetti e fazer um lanche. Não havia sala da Olivetti, apenas o prédio para quem soubesse ver; quanto ao filme, eu desisti do mesmo ao ver que todos eram blockbusters dublados ou pastelões nacionais. Quanto ao lanche, depois da visão do espaço de alimentação, do tamanho de um campo de futebol, dei de mão num pão de queixo e fui embora. Meu rolezinho em Guarulhos terminou em depressão, pura e simples.
foto-2Não me admira nada que tenha sido palco do que a Eliane descreveu. Há um Brasil por aí que muita gente não conhece e não compreende. Eu mesmo acho que fui apresentado a ele naquela tarde.
Obrigado, Susana Albornoz, por ter chamado a atenção para a bela reflexão da Eliane.

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