Durante quarenta e cinco anos fui professor na UFSM, em diversos cursos: Filosofia, Psicologia, Administração, Economia, Letras, Medicina, Fisioterapia, Extensão Rural, Colégio Politécnico e por aí vai. Quando comecei minha vida profissional, em 1974, em plena ditadura militar, a UFSM já era uma universidade de referência, não apenas porque havia criado mecanismos de gerenciamento acadêmico e administrativo inovadores no Brasil, mas também porque manteve um ritmo acelerado de profissionalização de seu corpo docente e de seus cursos. Já nos anos 1960 a UFSM tinha uma política de mandar professores para o exterior, para que tivéssemos aqui, de forma pioneira no Brasil, um sistema de pós-graduação. Foi durante os anos 1970, ainda na ditadura, que a pós-graduação na UFSM expandiu-se para áreas como Educação e Filosofia, e os regimes de trabalho com dedicação exclusiva deixaram de ser privilégio das áreas duras.

A UFSM começou como uma pequena universidade do interior. Hoje é uma pequena galáxia. Uma das primeiras coisas que o Professor Mariano fez foi comprar um piano para o Centro de Artes, como símbolo da importância das Artes e Humanidades na UFSM. E por aí ele foi. Hoje, sexagenária, a UFSM é motivo de orgulho para milhares de pessoas que por aqui passaram, para milhares de pessoas que usufruem dela, de uma ou de outra forma. A UFSM não apenas ajudou a transformar o interior do Rio Grande, ela também transformou-se em uma instituição relevante para si mesma, diante de si mesma.

Há problemas, há desafios, mas é preciso lembrar que temos apenas seis décadas. Uma universidade jovem, na Europa, tem seis séculos de funcionamento. As mais antigas têm o dobro.  Precisamos identificar onde somos fortes e melhorar, precisamos conhecer nossas fraquezas e mudar.

Conheci pessoalmente todos os reitores da UFSM, desde a fundação. Tenho histórias com cada um deles, gostei mais de uns do que de outros, critiquei publicamente mais uns do que outros. Mas vendo essa série de nomes em retrospectiva preciso admitir para mim mesmo que tenho orgulho de todos e de cada um deles, sem exceções. Conheci pessoalmente todos os reitores da UFSM, desde a fundação; vi cada um deles dedicar-se à Universidade como se essa fosse a vocação final da vida de cada um, com paixão e responsabilidade. Todos eles dedicaram o melhor de si, como os pedreiros, a montar essa delicada obra do espírito que é uma universidade. Daqui a sessenta anos estaremos ainda melhor e com um pouco de sorte continuaremos tendo reitores que nos causam orgulho.

É claro que fico muito triste quando vejo, nos dias que correm, pessoas que foram ex-alunos da UFSM, que ficaram bem de vida com as profissões que ali aprenderam, ceder à tentação da crítica fácil às universidades públicas. Ouvem uma coisa ali, enxergam outra ali e saem a falar mal do prato onde se alimentaram. Me consolo pensando que a Universidade de Bolonha, que tem mais de mil anos, deve ter passado por algo parecido. Eles passarão e nós, que amamos a universidade, seguiremos. Se eu ainda fosse professor da UFSM, amanhã, em caráter absolutamente excepcional, eu não iria para minha aula. Eu avisaria os alunos e reservaria o dia para protestar contra aqueles de agenda curta e mesquinha, que pisoteiam no orgulho que deveriam ter de sua universidade. Se eu soubesse, tocaria piano na praça. Quem sabe homenageando assim nosso primeiro reitor o clima melhora, e a gente se toque mais.


“ – Olavo passou do ponto?

 O general respondeu:

“ – Sim. Passou do ponto. Aliás, já vem passando do ponto há muito tempo, agindo com total desrespeito aos militares e às Forças Armadas. E, quando digo respeito, é impressionante que ele, como um homem que se pretende culto e inteligente, desconhece normas elementares de educação. É também muito grave a maneira como ele se refere com impropérios a oficiais da estatura dos generais Mourão, Santos Cruz e Heleno e aos militares em geral.”

Como se sabe, as expressões que Olavo de Carvalho tem usado para se referir aos generais variam pouco e agridem muito. Não vou repeti-las aqui. Já os generais procuram não passar a linha escatológica; o general Eduardo Vilas Boas sugere apenas que, quem sabe Olavo seja “uma pessoa doente”, “um Trotski de direita”, “com pouca capacidade de enxergar a realidade”. Já o general Carlos Santos, qualificado como “bosta engomada” e “bandidinho”, retrucou apenas com um bem educado “desocupado esquizofrênico”. O vice-presidente, general Mourão, também alvo de bugiaria, limitou-se a dizer que o Bonzo de Virgínia é “astrólogo”.

A bugiaria cresceu muito e o Presidente Jair interveio na briga. A primeira providência foi assinar um decreto transformando o Bonzo em Comendador. Nas entrelinhas do discurso piscou para os generais:

– “É melhor já ir se acostumando com o Olavo”. Para que não ficasse dúvida sobre o lado em que está, Jair comendou os filhos Carlos e Eduardo.

Dizer que a situação está ficando complicada é pouco. Ela pode complicar mais. Afinal, o namoro entre Jair e Olavo não é de agora, vem de muito antes da campanha. Os ataques de Olavo ao exército brasileiro também são antigos.

Vamos por partes. Com relação ao namoro, Olavo defende Bolsonaro faz uns oito anos. Há textos dele em apoio a Bolsonaro, desde 2011, no mínimo, para quem quiser ler. É amizade antiga. Já com os generais, a conversa é outra, pois Bolsonaro não era mais visto na caserna como alguém de dentro.

Com relação às críticas: as críticas de Olavo ao exército brasileiro datam do começo do século, pouco depois de sua conversão. Como ele diz em um de seus livros, até os anos 1960 ele era de esquerda e “odiava e combatia o regime militar”. Isso não o impedia de negar as “realizações mais óbvias” da ditadura. Esse ponto merece um livro que alguém deveria escrever para que a gente entendesse melhor a quadra que vivemos. Depois da conversão, sempre que pode ele acusa o exército de ter sido brando e conivente com a esquerdização do país. Assim, as atuais críticas de Olavo ao exército apenas reforçam um tema que sempre esteve presente em suas crônicas.

Dito isso, se a situação está tensa, acho que vai ficar mais ainda. Olavo é namoro antigo de Bolsonaro e deu casamento. Ontem, depois de toda a bugiaria, Jair disse que sua vitória eleitoral tem o dedo do Olavo, que o Bonzo é um “ícone”, que o “admira”. Se os generais não se acostumarem com isso, é possível que pensem em já ir fazendo as malas.


ZH no Recanto

05maio19
Isso non ecziste!”

A Zero Hora do final de semana (4 e 5 de maio) trouxe uma reportagem sobre o Recanto Maestro, assinada por Itamar Melo. Li com o maior cuidado, pois tenho alguma noção do tema do Recanto e acompanho o jornalismo do Itamar faz já duas décadas.

Já me ocupei com esse tema do recanto, aqui no blogue, em 2010, pelo menos duas vezes.

Achei muito boa a matéria. Muita gente foi ouvida, muito material foi lido, e acho que houve bom destaque para o impacto positivo dos projetos do Recanto na região. Para mim a grande novidade foi o “desmentido da Universidade Russa”; não há, informa a fonte de Itamar na Universidade Estatal de São Peterburgo, o respaldo científico tão valorizado pela AMF. Os russos, ao contrário, considerariam a ontopsicologia uma coisa “cientificamente insensata” (ZH, Caderno DOC, p. 14).

Esse tema do respaldo da ontopsicologia por universidades já reconhecidas é antigo para mim. O grupo do Recanto fez, em 2008, uma proposta de acordo de cooperação com a UFSM. Quando o assunto tramitou no Conselho Universitário escrevi uma carta para o Reitor, que foi lida na sessão que tratou do assunto, no dia 27 de junho de 2008. O Processo tinha o número 139/07, “no qual a Faculdade Antonio Meneghetti solicita formalização de um protocolo de cooperação entre a UFSM e a Faculdade Antonio Meneghetti.” Entre outras coisas (minha carta está na ata da reunião) escrevi que os livros de autoria do Sr. Meneghetti tinham sido publicado por editoras de seu próprio grupo; seus artigos “científicos” não constavam dos mecanismos internacionais de indexação, ou seja, de revistas que estão na base de dados da produção acadêmica aceita para pontuação na UFSM. Lembrei também que a ontopsicologia não era uma prática terapêutica aceita pelo Conselhos de Psicologia, e as orientações da dita faculdade que queria o acordo baseavam-se na proposta ciência. Foi por aí. No final das contas o relator do processo foi contrário ao acordo e a maioria dos conselheiros foi contra a cooperação entre UFSM-AMF.

Com a matéria da ZH a legitimação via São Petesburgo cai por terra. Eu me pergunto se eles precisam mesmo disso? Conheço algumas pessoas que estudam lá, especialmente no Direito e na Administração. Elas parecem bem satisfeitas com a qualidade dos cursos. E parece bem reconhecer o impacto positivo dos projetos educacionais e culturais do Recanto. Só que tudo indica que o Recanto e a ontopsicologia andam de mãos dadas.

Mas o que pensar disso, um Bacharelado em Ontopsicologia! Como diria o Padre Quevedo isso non ecziste!

Lembrei do Padre Quevedo, um jesuíta católico, porque se o MEC reconhecer um Bacharelado em Ontopsicologia, se o MEC conceder ao Recanto o aval para uma “nova ciência”, o Ministro da Educação entra em conflito direto com a linha de pensamento do Olavo de Carvalho. Simples assim, é só somar dois mais dois. Se eu estou lendo a obra do Olavão direito, nem bebendo ele engole uma ontopsicologia! Ele terá de lembrar ao Weintraub que “isso non ecziste!”


Pensando no convite do Candinho e do Vitor, venci a inércia e as dores da fascite plantar e saí caminhando, no rumo da Feira do Livro, para o lançamento do Baixada Melancólica – Contos da Depressão Central.

Na metade da subida da Floriano aconteceu um fato trival, mas extraordinário, como diria Chesterton. Ao encontrar uma pessoa que conheço faz muitos anos, por meio dela tive um encontro com Onofre Ilha Dorneles.

Para quem não sabe, Onofre Ilha Dorneles nasceu perto daqui, em São Pedro, da Celina e do Vicente, e deu de ganhar a vida como ferroviário em Santa Maria. Morava no Itararé, na metade da Marechal Deodoro. Levava a vida com Dona Marieta e dois filhos, bem sucedido funcionário da Viação Férrea. Onofre era um tipo franzino, porém cativante e logo chegou ao sindicalismo ferroviário. Quando viu, era figura importante da União dos Ferroviários. Para brizolar foi um pulo. Era assim no começo dos sessenta. Quando os ventos da redentora sopraram o brizolismo lhe custou caro. No dia nove de abril o Diário da União tirou dele os direitos políticos. Dali em diante o sono de Onofre foi um tucotuco só. As fotos que ele tinha tirado com o Jango foram parar no desvão do sofá, que foi revirado pelos soldados e assim Onofre foi parar no Sétimo Quartel, suspeito de Grupo de Onze. E do Sétimo foi para o Belog e dali para o o Hagageú, com dores ativas e passivas. E assim foi desde abril de 64 até o fim de um ano que nunca termina.

No dia 28 de Dezembro de 1964, aos 46 anos de idade, diabético, infartado, molestado, Onofre morreu na Santa Casa de Saúde. O Natal de Onofre foi em liberdade, mas ele havia sido machucado além da conta e não resistiu. Seu cortejo começou na rua Deodoro do bairro Itararé e arrastou-se pela cidade, rumo, longo caminho, ao cemitério municipal. O caixão foi levado numa caminhonete que mal girava a roda, pois o cortejo era a pé. Os amigos subiram a Rio Branco e desceram a Venâncio no rumo do cemitério. Quando Onofre passou na frente do Sétimo, no fim da tarde, acontecia a troca de guarda. Com o movimento de armas o cortejo parou. O caixão de Onofre ficou, por alguns momentos, pousado na pedra batida da avenida, fez-se um minuto de silêncio. A guarda foi trocada e Onofre seguiu para o cemitério municipal de Santa Maria, ali na baixada melancólica.

Queridos Candinho, Rangel, Francisco, Tex, Orlando, Raul, Lipoold, Vitor Biasoli. Obrigado, por esses Contos da Depressão Central. Eles me falam de Santa Maria, mas por vias tortas, me apresentaram, na subida da Floriano Peixoto, na voz de uma velha conhecida, o Onofre Ilha Dorneles. Antes que vocês me digam que isso é muito surreal, eu quero dizer que sim, mas o que seria da vida sem essas coisas que parecem transcendê-la? No final das contas, fiquei pensando, foi mais um passo, quem sabe, para aprender que a vida comum é assim, muito extraordinária. É a distração da gente, na imensa maioria das vezes, quem não nos permite ver isso. Ainda bem que hoje, ao procurar o autógrafo de vocês, tive um vislumbre disso, mesmo que torto, mesmo que falível que me ajuda a continuar atento. Muito obrigado! Sei que não falei do livro, sei que não falei de nenhum conto em particular, mas para que serve mesmo a literatura senão para detonar mais e mais pensamentos que nos façam ir além de nossa calçada?


No último episódio do Game of Thrones, diante de uma eminente derrota, Sansa Stark diz para Tyrion: “É a coisa mais heróica que podemos fazer: encarar a verdade”. Em um episódio anterior, em uma conversa com Shea, ela fez outra observação sobre dizer a verdade: “é uma coisa terrível ou é uma coisa sem graça.”

Na conversa com Tyrion ela relembra o casamento fracassado e a impossibilidade de um genuíno encontro de almas. Isso não era possível, diz ela, por causa das “lealdades divididas” de Tyrion.

Lembrei de Sansa porque vez ou outra sou obrigado a pensar em alguns aspectos da situação atual e isso é terrível para mim, pois me obriga a pensar sobre as minhas lealdades. Ontem, ao que parece, saiu nova conversa sobre o patronato educacional brasileiro: o atual governo estaria disposto a mandar para o Congresso um projeto de lei nomeando outra pessoa para a vaga de Patrono da Educação. Vi isso em um Instagram da Folha de S. Paulo.

O tema, como diria Sansa Stark, é terrível. E aí vem a outra fala dela, o que podemos fazer: tentar, ao menos, encarar a verdade ou dividir nossa lealdade, como se ela fosse um pedaço de pão? Encarar a verdade, nesse caso, é terrível, porque implicaria em lembrar, por exemplo, que o custo do patronato, em abril de 2012, foi zero. O projeto foi aprovado por acordo de lideranças, sem ânimos contrários. Como explicar que seis anos temos esse clima? Encarar a verdade é terrível, nesse caso, porque ela parece ser mercadoria em baixa. O governo diz que vai atacar certos cursos, por darem pouco retorno. Esse mantra é antigo. Ocorre que o Patrono disse, em uma entrevista de 1972, o seguinte:

“Agora, o que não é viável é que se pretenda realizar investigações que não tenham nada a ver com a realidade imediata, que não tenham nada a ver com os interesses mais concretos do país. Eu não saberia agora dar um exemplo no campo da Pedagogia mas darei um exemplo no campo da Biologia. Aconteceu no Brasil, na Universidade onde fui professor há 15 anos. Um professor da Faculdade de Medicina do Recife propôs-se a investigar, no campo da fisiologia, porque o animal chamado ‘bicho-preguiça’ passa 10 anos dormindo. Ele queria estudar as glândulas endócrinas para detectar sua preguiça. Um professor de Harvard poderia fazer isso, ainda que o chamassem de louco, mas no nordeste do Brasil onde a expectativa de vida da população é de 27 anos, não é possível que haja um professor que se proponha tal investigação.”

Não apenas está aí o tema do desinvestimento mas também a discriminação do Nordeste. Os sinais são trocados, você dirá. Mas tem sido assim: essa coisa de filmar professores, por exemplo, é maoísmo!

Não sei aonde nos levará uma lealdade dividida entre, digamos, esse meio olho fechado para nossa própria história e a prioridade de uma resistência contra o “atraso” e o “fascismo”. É o Jogo dos Cachaceiros e dos Malucos? Como disse o Slavov Zizek no final do debate com Peterson, na semana passada: “eu espero sinceramente que tenhamos feito com que algumas pessoas pensem em rejeitar as oposições simples. Se você é um esquerdista, não se preocupe em ser politicamente correto, não tenha medo de pensar. Chamar os outros de fascista é preguiça, you make it all to easy to play these games.”

Como diria Sansa Stark, a gente não deveria conversar fiado na hora da morte. Sim, eu acho que ela vai ocupar o trono de ferro. A linha do roteiro aponta para o fim daqueles que tem parte com o mundo sobrenatural, o que inclui não apenas Jon e Dayneris, mas também o vidente. Não faz sentido, no mundo humano, em Westeros ou no Brasil, pensar que alguém é capaz de ver o futuro.


Um chasque

26abr19

O Vítor me passou um chasque pelo zap querendo saber se eu ia escrever sobre o assunto de hoje na área, o desinvestimento na Filosofia e Sociologia. O tema é complicado, vai um chasque apenas.

Eu me lembrei, de forma irresistível, que nos anos 90 algumas pessoas que tinham trânsito na esquerda (lembro aqui da Marilene Felinto e do Dimenstein) atacaram dogmas como a gratuidade do ensino nas federais. Desde quando, escreveram eles em grandes jornais, que o dinheiro público devia sustentar faculdades gratuitas para pessoas que podiam pagar?

Depois lembrei que quando Lula chegou à presidência, a militância raiz estava pronta para que ele, na linha apontada por Darcy Ribeiro e Brizola, declarasse que o ensino fundamental teria prioridade total em um governo petista, pois as universidades federais eram assunto da classe média. Mas aí veio a militância média e o que aconteceu foi uma improvável expansão do sistema federal superior de uma forma, digamos assim, meio apressada.

Depois lembrei que em 2014 a Presidente Dilma Roussef, em uma manifestação que a gente não quer lembrar, como diria Cervantes, defenestrou a Filosofia e a Sociologia, dizendo que um currículo inchado no ensino médio, por exemplo, com 12 “matérias”, não dava mais. Nada contra essas duas matérias, ela acrescentou, mas assim não dava. O sincericídio de Dilma foi sintomático de um estado de coisas superior às táticas e estratégias.

No que tomamos conhecimento hoje, o Presidente deu sequência, penso eu, a coisas que foram anunciadas não apenas nas entrelinhas da campanha, mas principalmente em um dos livros que ele apresentou ao país na noite de sua eleição. Não é a Constituição, claro. Vencedor, o Presidente quer implementar algumas sugestões que estão contidas no livro que deixou a entender que estava lendo. Basta ler o cujo. Alguém?

Em resumo: imaginava-se (por dever de ofício) que o “defunding” das humanidades ia acontecer. Ele seria anunciado por um filósofo, algo que poderia ajudar no amaciamento do bife junto a certas comunidades. Aí o filósofo caiu. O atual ministro usou da presença do Presidente para dar mais força ao aviso.

Mas há mais. Nesta semana as universidades foram informadas sobre mudanças nos critérios para merecimento do regime de dedicação exclusiva. O cinto vai apertar. O novo MEC quer mais horas-aula por cabeça-docente, além de melhorias nos índices de concluintes por vaga de ingresso. Meu lado realista me faz lembrar também que nada disso está longe das coisas que preocupavam pessoas como Marilene e Gilberto já nos anos 90 (tratei desses temas no meu Sentimentos de Outono, ainda nos anos 90).

O chasque ficou meio longo. Passeio o dia meio arrepiado, como a gente fica vendo uma cena do Chien Andalou.


Saí mal na foto, ontem. A matéria sobre Paulo Freire, no Jornal da Cultura, me deixou mal na foto, pois no final das contas fui, das três pessoas ouvidas, a única que passou por “crítico” de Paulo Freire. A matéria seguiu o padrão que já discuti: repete as “fake news” dos “300 trabalhadores rurais do Rio Grande do Norte”, e insiste em argumentos que são, no fundo, falácias de autoridade. Já abordei esse assunto aqui embaixo no blogue e não vou me deter nisso. Na fala de Sérgio Haddad, ao caracterizar o método de alfabetização, não há menção à consciência fônica; pode ter sido uma decisão do editor, mas isso diz algo sobre a forma de apresentar o “método”; a metáfora-guia da matéria é de tipo jurídico, pois o jornalista fala em acusação, defesa, advogados, provas, sacudindo a Pedagogia do Oprimido. Bom, então vamos discutir a Pedagogia do Oprimido! Mas disso ninguém quer falar! O comentarista principal, o jornalista Antonio Gois, fechou a matéria dizendo que “o problema é a qualidade das críticas”, que Paulo Freire é apresentado “como se fosse um doutrinador marxista”, que “é o brasileiro mais estudado no exterior” e que é preciso “elevar o nível da discussão”.

Como eu fui o único “crítico” que apareceu na matéria, fiquei, evidentemente, associado às críticas de baixa qualidade. Mal na foto da Cultura, bem feito, quem sabe assim eu volto a me dedicar à sociologia de lambreta.




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