IMG_8265-1Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos – vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa… Reforço o dizer: que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa… Aquilo eu repeli?

No momento em que se celebra a publicação, faz 60 anos, de Grande Sertão Veredas, do João Guimarães Rosa, parece ser também oportuno celebrar a brutal atualidade da trama do livro e a astúcia rosiana para lidar com as dificuldades da realidade: “há muitas coisas que o entender da gente por si não alcança.”
Wittgenstein disse que uma gota de gramática, por vezes, pode conter uma nuvem de filosofia. E Rosa mostra que um parágrafo da grande literatura pode ser um bornal de alimentos para o espírito.
Apaixonado que sou pela prosa rosiana, e com outro olho em certos temas atuais, não resisti a transcrever a passagem acima, que tenho anotada em um caderno velho, dos anos setenta. Ela está na página 374, mas eu não anotei a edição. Com certeza era uma daquelas primeiras, da José Olympio. É a minha homenagem aos 60 anos do Grande Sertão da nossa literatura.


Feliz Ano Novo

08jan16

Pelo desculpas aos meus nove leitores pela ausência nessa paragem e desejo aos mesmos um Feliz Ano Novo. Tenho vontade de voltar mais por aqui, mas me pego pensando nos versos de Sá e Guarabira:

Cartas, cartões, postais,recados
vem de longe para me dizer
que hoje em dia o silêncio é de ouro

Como serão as terras que eu não posso visitar?
Devem ter me esquecido amigos que eu não possso ver
Longe de mim o canto que eu precisava tanto escutar
que é da varanda grande de onde eu costumava olhar
um pôr-de-sol brilhante de uma terra boa de viver
Quem levou de mim esse tesouro?

Em cada boca fechada uma caverna silenciosa
onde não vive nada além do segredo
Em cada olho fechado
rola um planeta desorientado
onde não cresce nada além do medo

Abraço!


O Conselho Universitário da Ufesm bateu o martelo sobre a metodologia da estatuinte. Foi aprovada a proposta da comissão, que prevê a eleição, de 300 estatuintes, em três etapas, que deverão elaborar e encaminhar ao C.U. a proposta de um novo estatuto para nossa instituição. O assim chamado “congresso estatuinte” terá composição paritária, com igualdade de participação entre estudantes, professores e técnicos-administrativos.
Já disse aqui no blog que acho descabida a comparação do processo de uma estatuinte com o processo de escolha da lista tríplice, argumento que foi invocado na reunião do Conselho, para desviar a acusação de ilegalidade apresentada pelo relator.
O descabimento da comparação reside em dois aspectos.
Em primeiro lugar, a legitimidade da paridade na escolha da lista tem seu simbolismo enraizado no tempo da ditadura. As primeiras escolhas com paridade de voto dos segmentos são do inicio dos anos oitenta, e foram aceitas e realizadas dentro do espirito de redemocratização do país. O procedimento foi mantido, por assim dizer, pela força da gravidade política, com custos psicopolíticos assimiláveis. Em contraste com isso, um processo estatuinte como o atual, além de ser expressamente não previsto pela lei, tem seu simbolismo reduzido à compromissos de campanha.
Em segundo lugar, há um descabimento político de longo curso, o mais grave. Mantidos os termos da metodologia, não é dificil antever que a estatuinte dos 300 padecerá de um progressivo esvaziamento pela parte dos docentes. Poucos docentes concorrerão ao mandato estatuinte, pois sabem que serão rifados nos debates. Aqueles que participarem já entrarão no jogo, imagino, de acordo com as teses paritárias principais acordadas. Não vou comentar aqui os problemas inerentes ao gigantismo da operação. Tampouco vou imaginar a possibilidade de questionamento publico dos termos do processo, nos termos já apresentados pela Procuradoria Jurídica da Ufesm e pelo relator do Processo. Só isso bastaria para que o Ministério Publico questionasse, com toda razão, o paritarismo.
Eu acho que não vai haver estatuinte. A coisa toda é uma maré muito fora de ritmo e deverá morrer na praia, esvaziada aos poucos. Ou de uma vez só, quem sabe?
Prometo parar de bater nessa tecla. Ela que toque sua própria e desafinada música, se conseguir reunir os 300 instrumentistas. Prometo parar com esse assunto e coisas assim de norte. Ando mais com umas ideias de sul.


BH4H6123-1-2A reunião do Conselho Universitário da Ufesm na manhã de hoje mostrou que as patrolas da paridade terão que contar mais favas. O parecer da Comissão de Legislação do Consu rejeitou a proposta de metodologia, lembrando que a LDB indica que os processos de decisão que levem à alteração de estatutos e regimentos das universidades não podem deixar de cumprir a regra 70/30. Contra esse argumento (de resto respaldado pela Procuradoria Jurídica da Ufesm) foi dito por outro membro da comissão de legislação que a LDB não se aplica ao caso, pois o texto final da comissão paritária que escreverá a estatuinte será homologado por um Consu 70/30. Esse contra-argumento baseia-se na analogia com a escolha do reitor, feita por voto paritário e homologado pelo 70/30.
Já disse aqui e repito: a analogia é fraca, e isso é mortal para o pensamento por analogia. Uma coisa é o episódio pontual da escolha de dirigentes, outra coisa é o processo de recriar a instituição. Não é necessário corredor polonês para garantir a lista triplice que sai das urnas; mas acho que ele voltará para garantir os conselhos paritários que sairão necessariamente de uma estatuinte assim concebida.
O processo foi retirado da pauta, por um pedido de vistas, para novo parecer. Voltará em breve, para nova contagem de favas.
São duas posições, por ora. Uma delas diz algo assim: “Relaxem, pois tudo o que for parido pela Estatuinte Paritária será depois pesado pelo Consu 70/30!”.
A outra parece dizer algo assim: “Para que esse teatro de parir o Paritário, se o Consu não poderá aprová-lo? Quem ganhará com esse circo de pares”?
E, acrescento eu: qual perfil de professor vai se candidatar a membro uma estatuinte na qual os outros dois segmentos já deram as mãos para patrolar a coisa toda no rumo dos conselhos paritários?
Assim, quando a estatuinte sair, se ela sair nos termos em que está sendo proposta, uma coisa é certa: será mais vazia do que bolso de cueca, por falta de uma representatividade docente razoável; e será mais furiosa do que jaguatirica enredada, no rumo da utopia dos pares.
Antes que me tirem de legalista, esclareço: não me emociono demais com os argumentos da LDB, apenas os respeito; eu me impressiono muito mais é com aqueles que promovem uma analogia medíocre e fajuta: que uma universidade federal é uma pequena sociedade para a qual valem os mesmos princípios que usamos para pensar a sociedade civil. Que falta faz um Hegel nessa hora!
Nada contra repensar, em uma Estatuinte, a instituição; tudo contra a patrolagem promovida pelo pensamento que faz greve de pensamento.

.


No próximo dia 28 de agosto a greve dos servidores técnico-administrativos da Ufesm vai completar três meses. No dia em que a greve foi decidida comentei com uma grevista do meu prédio que esperava vê-la de volta em setembro, infelizmente, disse, com nenhuma reivindicação atendida. Ela fez uma expressão de que não acreditava no que eu dizia. Expliquei que faz mais de trinta anos que acompanho essas coisas, que isso era totalmente previsível no clima que vivíamos, nas universidades e no país. Falei sobre o esvaziamento e a banalização das greves, etcetera. Nos despedimos.
Dias depois os docentes da Ufesm recusaram a greve. E semanas depois recusaram de novo. Tivéssemos entrado, estaríamos por fazer também três meses de greve. Dizem que os docentes da Ufesm passam por “passivos”, etc.
A descrição que os sindicatos fazem é que dezenas de universidades estão em greve, fortes, firmes, coesas. Há quem diga que não é bem assim. A UFRGS conta na lista das universidades em greve, por exemplo. Mas não, como se sabe.
Há novidades, no entanto. Depois de três meses de parada o Ministro da Educação aceitou conversar com os grevistas. Pelo Facebook.
O presidente do ANDES-SN, Paulo Rizzo, fez hoje uma avaliação da conversa e concluiu (ou foi um protesto?):
“Ele dá respostas pelo Facebook, mas efetivamente não negocia”.
Tendo em vista a posição de intransigência de Renato, haverá nesta semana uma Grande Marcha para Brasília, para que, no dia 28, ele seja pressionado para negociar com a categoria. A hastag é #negociajanine.
Os temporas e os mores estão de fato mudando!
A greve entrará Setembro a dentro, na espera de um pretexto para ser encerrada.


27jul15

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Hoje pela manhã pude finalmente manusear um exemplar da nova edição de “Ensino de Filosofia e Currículo”, lançado pela Editora da UFSM. O livro ficou muito bonito mesmo, e a impressão do miolo em papel pólen 90g – 220 páginas – deu a ele mais corpo. O livro pode ser comprado no sítio da UFSM, aqui. Esta edição conta com um belo prefácio da Professora Gisele Secco, do Departamento de Filosofia da UFRGS e passou por uma nova revisão.


BH4H6121-1A Política como Vocação (1919), de Max Weber é um livro notável. Weber conta ali a história de um sujeito que deixa de amar a esposa e passa a gostar de outra. Claro, ele abandona a primeira em favor da segunda. Não contente com apenas fazer isso, ele sente-se obrigado a oferecer para si mesmo uma explicação para seu gesto. Ao invés de dizer simplesmente (para ele e para a deixada) que não gosta mais dela, ele elocubra razões para sua decisão e diz, por exemplo, que ela o decepcionou por isso e aquilo e aqueloutro. Assim, como se não bastasse o fato de ter sido abandonada, a cuja vira culpada. E o sujeito acha uma legitimidade qualquer em virtude da qual ele pretende ter razões para fazer a troca de mulheres. Com esse curioso exemplo Weber quer introduzir uma das dificuldades da política, que ele chama de o vício clerical de querer ter sempre razão.
Para explicar-se melhor, Weber continua com a história desse tipo de sujeito. Quando um homem assim compete com outro homem pelo amor de uma mulher (nos tempos atuais a gente teria que adaptar o exemplo, não? Mas deixa assim, por enquanto…) e vence, ele fica convencido que seu rival vale menos, pois perdeu a batalha para ele.
Assim pensa o sujeito: quando ele ganha, é porque tem razão. E quando ele perde, é porque … tem razão!
O que é a ética, nessa perspectiva, senão apenas um meio do sujeito se convencer que a razão está sempre com ele? O sujeito da história de Weber nunca perde uma batalha, nunca perde uma eleição e nunca perde uma greve. Afinal, ele está santificado pelos fins que proclama com sua boca grande e alma mais inflada ainda. Ele sempre está à cavalo na razão. Tem razão quando ganha, tem razão quando perde.
Os valores do cavalheirismo, da dignidade e da objetividade são apenas uma flor roxa e murcha no altar de suas boas intenções.
A política, entre nós, parece ser feita cada vez mais com cavaleirismo.




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