“Essas coisas do cotidiano”

No minuto 12:27 de Mr. Dreamer, um dos personagens faz um comentário sobre a questão da paixão pela música: “É transcendental, não é uma dessas coisas do cotidiano”. O personagem segue explicando para a gente: “Sabe, tem as coisas do dia a dia, e existe a música, tipo assim, tem as conversas e tem o canto, tem o caminhar, mas há o movimento e a dança, e muita coisa mais que no final das contas nos leva até à música”. O personagem parece ter saído do livro de Alva Nöe, Stranger Things, ao fazer essas comparações sobre as pequenas transcendências que podemos ter no cotidiano. Naquele minuto a gente se acomoda melhor na cadeira, pois “Mr. Dreamer”, que poderia ser apenas um documentário sobre a suposta crise de identidade do personagem – o rapaz de classe média, apaixonado pela música, que troca isso por uma segura carreira de executivo e reflete sobre isso quarenta anos depois -, passa a ser uma celebração do lugar da música na vida cotidiana.

Não é pouca coisa. A música é uma dessas facetas da humanidade que desafia a nossa capacidade de reflexão. Faça um teste, procure uma definição, ou uma boa caracterização sobre, afinal de contas, o que é a música, desse ponto de vista de seu lugar na nossa vida cotidiana. O resultado é sempre desapontador, pois há mais coisas em jogo em nossa paixão pela música do que a nossa capacidade de torna-las explicitas. A melhor coisa que um dia li sobre isso foi que a música é uma coisa que é duas: uma manifestação de nossas capacidades mais instintivas, ligadas ao corpo e, ao mesmo tempo, a forma de levar alguma paz para esses espaços brutos que existem em cada um de nós. Essa ideia parece boa. Seja ouvindo Bach, seja quando, no documentário, a gente vê Alice Tunney cantarolando Molly Malone (minuto 28:30), a música é capaz de fazer isso, pegar gente pelo pescoço e nos levar de arrasto para essa brecha estranha, na qual ficamos imprensados entre o corpo e a alma.

Foi assim que fui vendo Mr. Dreamer, como uma conversa fascinante sobre as coisas que a música pode fazer por nós. Quem controla o quê na música? Pois as vezes tudo se passa como se ela nos controlasse, como se os ritmos e as melodias fossem entrando nos músculos e nos ossos e nos levando para essa terra das pequenas imortalidades que estão ao nosso alcance, como também sugere um personagem (no minuto 43:00). O personagem principal, Pedro Sirotsky, quer nos contar a história do extravio que tirou a música do lugar central que ela ocupava na vida dele. Fazendo isso, ele vai nos levando a ver outras vidas, nas ruas de Dublin, que, tomadas pela mesma paixão, procuram resistir, com a música, aos extravios. É comovente dar um pulo nas ruas e espiar aquela gurizada que aposta nessa coisa meio transcendental, como diz, com toda a tranquilidade o garoto do minuto 12. Aquela criatura, capaz de ver o transcendental na rua, no meio do redemunho, é um desses sinais para ir adiante, para seguir tentando passar certas coisas a limpo, como se vê no “Mr. Dreamer.” Que venham outros, o tema recém foi tocado!

Mr. Dreamer, o documentário, foi dirigido pela Flávia Moraes, e está disponível no canal Now. Pedro Gomes da Rocha fotografou e Laura Brum foi a montadora. Não foi a familiaridade com eles que me fez gostar do filme. Foi a coisa toda, em especial a paixão pela música.

Derblay Galvão (1928-2021)

Faleceu ontem, em Brasília, o ex-reitor da UFSM, Derblay Galvão, aos 92 anos. Quebro o longo jejum de escrita nesse blog para dedicar a ele uma memória de gratidão. É apenas isso que vou fazer , escrever um parágrafo para me fazer lembrar de novo o quanto o seu reitorado, no final dos anos 1970, foi um grande marco na história da UFSM, em especial no que diz respeito ao processo de abertura política que foi vivido na transição da década. Para dizer de uma forma simples: Derblay, por assim dizer, peitou o “sistema”. Em uma época na qual as Assessorias de Segurança nas universidade federais metiam o nariz em tudo, ele foi tudo, menos subserviente. Quando João Figueiredo foi visitar a Exposição Agropecuária na UFSM, em 29 de setembro de 1979, a assessoria queria que ele mandasse apagar as pichações estudantis contra a ditadura, que haviam sido feitas na ponte da Avenida Roraima. Nada feito. “Quero que o presidente tenha uma visão realista do nosso campus”, foi a frase dele, e as pichações foram vistas por Figueiredo. Um pouco antes, no mesmo ano, ele deu luz verde para que fosse realizado, em conjunto com a Câmara de Vereadores, um seminário sobre mudanças na legislação trabalhista. Para esse seminário os convidados incluíam um senhor de nome Luis Inácio da Silva, de apelido Lula. O seminário foi realizado em agosto, e Lula foi palestrante, junto a Tarso Genro e Carlos Alberto Chiarelli, entre muitos outros. Derblay prestigiou o evento, contra a opinião de muitos que não gostaram da lista dos convidados. No mesmo ano, foi Derblay quem entregou a Adelmo Simas Genro o prêmio de primeiro lugar no concurso Felipe de Oliveira. Vou resumir: Derblay, por atitudes como essas, era respeitadíssimo na cidade, na imprensa, na comunidade universitária. Havia quem o achasse avançado demais para a época, mas ele parecia saber muito bem o que estava fazendo, e era respeitado por isso. Foi na gestão dele que assumi, pela primeira vez, a Coordenação do Curso de Filosofia. Artheniza Weimann, a grande e inesquecível professora Artheniza, assumiu, na mesma data, a coordenação do Curso de Geografia, e o Reitor Derblay Galvão sempre manteve aberta a porta do gabinete para nos ajudar a navegar naqueles tempos. Não vou incluir neste parágrafo o lado estritamente acadêmico de Derblay, pois aí a história seria longa demais: ele foi, pela experiência trazida do Centro de Ciências Rurais, uma peça decisiva na afirmação da pós-graduação da UFSM. E logo depois que deixou a Reitoria, ficaram tão evidentes os talentos dele que não houve outro caminho a não ser sua longa jornada em Brasília, junto ao MEC e a outros setores relacionados. As histórias de Derblay na UFSM são muitas, e eu não sei como caracterizar em poucas palavras seu reitorado. Para mim ele sempre foi um modelo de profissional que sabia combinar a mais fina elegância de trato pessoal com a mais clara paixão pela boa administração universitária pela ciência e pela política com pê maiúsculo. Só consigo pensar nele com gratidão pela pessoa que ele foi, e dele sempre vou recordar o respeito e o carinho que sempre teve comigo, mesmo nas horas difíceis. Ele era uma dessas figuras cada vez mais raras, tão raras que preciso escrever assim: um gentleman. Mas, acrescento, um cavalheiro que vinha com a formação política ao estilo maragato, quem sabe, petebista, segundo outras línguas. Nunca conversamos sobre isso, pois para mim sempre bastou sua firme elegância de eleger, em primeiro lugar, os seculares valores da universidade pública.

O menino que via no escuro

Era uma vez um menino que não tinha medo do escuro.

Os meninos e as meninas têm um medinho do escuro. Até gente grande tem medo do escuro. O menino dessa história, no entanto, não tinha nem medinho do escuro. De noite, se era precisava buscar um brinquedo esquecido no pátio, ele pegava a lanterninha e ia. Todos diziam que ele era um menino valente, pois andava no escuro com a lanterninha.

O menino foi crescendo sem medo do escuro.

Um dia seus pais acharam que era hora de levar o menino ao cinema. O filme contava a história de um menino que morava em uma casa muito grande, tão grande que um dia ele perdeu-se dentro dela e foi parar, misteriosamente, em uma outra casa ainda maior e ali passou muito trabalho, mas com a ajuda de um novo amigo que fez ali ele conseguiu voltar para sua casa de verdade. Quando os pais perguntaram se ele tinha gostado do filme, fez que sim com a cabeça.

Depois daquele dia o menino ficou mais quieto do que costumava ficar. A mãe dele reparou nisso no outro dia, ou melhor, na outra noite. Ele teve que buscar a bola no pátio e foi lá sem levar a lanterna. Depois, na hora de dormir, ele não deixou a lanterna ao lado da cama.

Sua mãe percebeu que ele, com o passar dos dias, quando estava quieto, ficava mais quieto do que de costume e  quando ficava agitado, ficava mais agitado do que costumava.

O que estava acontecendo com ele? Ele dizia que era nada, nada.

Até que um dia, depois de muita insistência, ele desabafou.

“É o escuro”.

A mãe perguntou de volta, com uma voz muito suave:

“O escuro? Mas não tens medo do escuro, agora vais no pátio, à noite, sem a lanterninha!”

Ele então disse uma coisa que deixou sua mãe muito intrigada. “Justamente. Não existe mais o escuro.”

A mãe estava picando umas couves para o jantar. Ela deixou a faca e as couves de lado ela era só ouvidos. “Fala mais, filho, me explica isso, que o escuro não existe mais!”.

“Mãe, quando eu fecho os olhos, eu continuo vendo as coisas”.

“Como assim? Se tu fechares os olhos, vais ver se eu estou picando as couves ou se eu parei?”.

“Não, não é isso. Se eu fechar os olhos sei que não vou ver a maninha sentada perto do fogão, nem o papai trabalhando no computador, nem tu picando as couves. Não é isso que eu quero dizer. Eu quero dizer que eu continuo vendo coisas, não adianta fechar os olhos, a gente continua vendo coisas, outras coisas. Não existe mais o escuro. Não adianta fechar os olhos, eu continuo vendo. De noite, quando eu durmo, eu sonho e continuo vendo coisas, e de dia, se eu fecho os olhos, não fica escuro, continuo vendo coisas. Eu achava que quando a gente fechasse os olhos a gente não via mais nada. Mas tem um monte de coisas que a gente vê de olhos fechados.”

A mãe tranquilizou o menino, dizendo que isso não era nada demais, “É só a imaginação da gente!”.

O menino não pareceu satisfeito. “Ainda mais que quando eu fecho os olhos, às vezes aparecem umas coisas que eu não gosto de ver. Parece que a gente não manda mais naquilo que vê”.

Agora ela era ainda mais ouvidos: “Como o quê, me conta.”

“São coisas ruins, montes delas, eu fico perdido, eu caio em um buraco, essas coisas. Eu só sei que eu queria que quando eu fechasse os olhos tudo ficasse escuro mesmo.”

“E desde quando isso está acontecendo contigo?”, perguntou a mãe.

“Não sei. Acho que foi depois da história sobre o menino que se perdeu e levou muito tempo para voltar para casa. Eu fico pensando nessas coisas que a gente pensa quando está de olho fechado.”

A mãe achou que era hora de voltar para as couves. Ela viu que nem era preciso tentar acalmar o menino. Ele já estava mais calmo só de falar. Ela ficou certa disso porque ele seguiu: “Eu só queria te dizer isso, o escuro não é bem escuro, é uma coisa grande, com muitas coisas dentro dele. Eu acho que o escuro é uma coisa muito estranha. O escuro funciona de um jeito muito esquisito.”

A mãe tinha terminado de refogar as couves. Ela pediu que ele ajudasse a arrumar a mesa e chamou todos para o jantar. As couves luziram no prato, fumegantes, e o escuro ficou quieto, no lado de fora da casa.

Sobre a pureza e o respeito na docência: Cecília Meireles, nos anos 1930.

Cecília Meireles escreveu muito sobre educação. Entre 1930 e 1941, ela publicou mais de 350 crônicas, hoje reunidas em livros, organizados por Leodegário de Azevedo Filho (Crônicas de Educação, Editora Global, 2017). São mais de 1.100 páginas de escritos sobre todo tipo de questão pedagógica.

Em uma dessas páginas ela escreveu, no distante ano de 1930, que uma condição essencial para o prestígio moral do professor é que ele tenha, diante de seus alunos, uma aparência de “pureza e respeito”. Essas expressões podem soar um tanto estranhas hoje, especialmente a primeira, “pureza”, mas também a segunda, “respeito”. Da primeira alguém diria que é ingênua; da segunda, que é apenas um artigo em falta generalizada na praça das relações humanas. Como eu gosto muito da Cecília, vou defendê-la aqui dessas críticas imaginárias.

Em que sentido um professor poderia ser “puro”? Pureza parece ser coisa de extremos, como cocaína e anjos. Como essa expressão poderia ser aplicada ao exercício de uma profissão como a do professor? Já a afirmação que o professor deve ter uma aparência de respeito é mais palatável. No entanto, o respeito hoje parece ser algo que se alimenta de uma exigência de reciprocidade simétrica, como se houvesse uma regra do tipo, “eu dou respeito na quantidade e na qualidade que me dão”. Assim, há quem diga que o professor deve ser amigo dos alunos. Nesse caso, seria um respeito simétrico, parecido com o de mesa de bar ou de jogo de futebol e esse tipo de respeito pouco tem a ver com a relação entre professor e aluno.

A frase dela é essa: “O professor que não aparece diante de seus alunos com uma auréola de pureza e respeito perenemente luminosa não deve ter a esperança de influir beneficamente no seu destino”.

A frase é inspiradora em cada detalhe. Em que poderia consistir a “pureza” do professor? Como pode haver um respeito assimétrico entre ele e os alunos? Finalmente, de que modo essa aparência resultaria em influências benéficas?

Eu não posso responder essas perguntas por ela, mas quero sugerir algumas direções de respostas. Em primeiro lugar, é notável que ela se refira ao “aparecimento” do professor na vida de uma criança. Antecipando algumas elaborações de Hannah Arendt, ela tematiza a diferença entre auto-apresentação e auto-exposição. Nossa auto-exposição, por assim dizer, é desligada de nossa vontade e escolha, pois nela exibimos as características que temos, por assim dizer, independentemente do que queremos. Já a minha auto-apresentação é uma questão de escolhas que eu faço sobre a imagem que quero mostrar ao mundo. Eu não posso mudar minha altura ou a cor dos meus olhos, mas se eu decido aparecer ao mundo como uma pessoa honesta, isso significa que faço uma promessa para mim mesmo, de agir sempre nesse sentido. Como diz Hannah Arendt, as virtudes humanas começam muito singelamente com o elogio que fazemos a elas. Depois da promessa-elogio, fazemos o melhor para cumpri-la. A hipocrisia, lembra ela, é a quebra dessa promessa.

E como devem apresentar-se os professores? Quais são as promessas que devem fazer? A “pureza” a que se refere Cecília tem muitos matizes. Creio que o principal deles é o da intenção pedagógica, que sempre deve ser temperada pela consideração das características do nível de ensino que estamos tendo em mente: criança, adolescente, adulto. Há casos, diz ela, nos quais “o professor tem a obrigação de lhe garantir a mais rigorosa neutralidade de atitudes, justamente para o livrar de imposições estranhas aos seus verdadeiros interesses.” Dizendo de uma forma muito direta: há casos nos quais “o professor quer pregar uma doutrina, quer obrigar os alunos a meterem na cabeça certas ideias.” É nessa direção, possivelmente, que ela está usando o conceito de “pureza”: ligado a situações que exigem “honestidade profissional”, ligado a situações que exigem “neutralidade política e religiosa da escola, oferecendo-lhe toda a sincera contribuição informativa, mas sem partido (…).” O itálico é meu.

É, de fato, possível o cultivo dessa auto-apresentação ligada à valores de neutralidade, isenção, respeito? Lembrando Rilke, ela diz: “Educar? Quem pode pensar em semelhante coisa? Quem existe, no mundo, capaz de missão de tal ordem?E, na verdade, o que fazemos são tentativas.” Cecília sabe bem, na companhia de Rilke, que educar é uma profissão impossível. É uma profissão que exige esforços e sacrifícios contínuos, onde a auto-apresentação está ligada a valores muito exigentes de honestidade profissional. Ela vai a detalhes:  

“... direi que a dificuldade maior de ser professor é quando os alunos já são gente crescida, que leu umas coisas e pensou um bocado.  Nessas condições, dar uma aula é precisamente o mesmo que fazer um exame.  E que exame! menos generosos, talvez, que as crianças, nesse particular, os jovens sabem analisar todos os defeitos do professor, com uma nitidez tão rigorosa que às vezes chegam a deixar passar desapercebida alguma qualidade que, também, por acaso, possuam.

Nada escapa: a voz, o gesto, a linguagem, a intenção, as contradições, os lapsos, a banalidade, os erros, etc.

Dessas coisas, porém, uma parece que atrai de preferência a curiosidade dos estudantes: a intenção. Diante de um professor que vai dar uma aula, os jovens que se dispõem a ouvi-la parece que preliminarmente se propõem esta pergunta: “Que será que este cavalheiro pretende fazer de nós?” Há, provavelmente, uma certa desconfiança. Uma certa cisma de que o professor quer pregar uma doutrina, quer obrigar os alunos a meterem na cabeça certas ideias.  E parece que há também uma prevenção inicial, de defesa.”

Veja que ela não apenas ilustra claramente o conceito de respeito assimétrico – o reconhecimento do direito do professor de “dar aula” – mas também o mecanismo da transferência, a cisma, a desconfiança, no caso. Ela pisa em território freudiano. Basta lembrar aqui a famosa passagem em que Freud (nas observações de 1915 sobre amor transferencial) recomenda ao analista a atitude de “distanciamento” (ou “neutralidade):

Visto exigirmos estrita sinceridade de nossos pacientes, colocamos em perigo toda a nossa autoridade, se nos deixarmos ser por eles apanhados em um desvio da verdade. Além disso, a experiência de se deixar levar um pouco por sentimentos ternos em relação à paciente não é inteiramente sem perigo. Nosso controle sobre nós mesmos não é tão completo que não possamos subitamente, um dia, ir mais além do que havíamos pretendido. Em minha opinião, portanto, não devemos abandonar a neutralidade para com a paciente, que adquirimos por manter controlada a contratransferência.”

Sejam sentimentos de ternura ou de ódio, eles são sempre arriscados e não podem ser deixados à solta. Eu não sei o que Cecilia Meireles pensava sobre Freud e a psicanálise, mas sou levado a pensar que há muito mais nela e nele que deveria ser de nosso interesse, nós que estamos meio perdidos nesse grande sertão pedagógico.

Tempo de aprender

Não foi apenas por curiosidade que eu me matriculei no curso de alfabetização oferecido pelo MEC, intitulado “Tempo de Aprender”. O curso é, evidentemente, virtual e consta de diversos módulos que a gente vai percorrendo e fazendo as avaliações no final de cada um. Eu estou fazendo o curso porque, nessa quarentena, convivo com minha neta, que está na pré-escola, e decidi aprender mais sobre alfabetização. Eu me interesso pelo tema desde que trabalhei com o grupo do GEEMPA, durante vários anos, em Porto Alegre, nos anos 1990. O GEEMPA, para quem não sabe, é uma instituição dirigida pela Professora Esther Grossi, dedicada ao estudo da didática da alfabetização, de matemática e de outros temas ligados às séries iniciais. Foi ali que eu consolidei meu interesse por educação. Agora, com minha neta às vésperas do “primeiro ano”, voltei a pensar em questões mais práticas ligadas ao processo de alfabetização. Tenho também uns interesses mais teóricos no tema. Desde 2015 tenho trabalho em um livro sobre as relações entre o surgimento da escrita alfabética e a filosofia, e assim esses temas de alfabetização e escrita tem me ocupado bastante.

Então, como disse, fiz minha inscrição no curso do MEC, “Tempo de Aprender”. Acho que estou me saindo bem, tenho tirado boas notas nas provas. A minha surpresa no curso foi essa: como tenho um bom tempo livre, dada a quarentena atual, logo fiquei um pouco frustrado, pois o curso não está ainda pronto. Hoje (29 de Março de 2020) menos da metade do curso (oito módulos) é oferecido. Eu fiquei meio frustrado porque esse projeto, “Tempo de Aprender”, é do atual governo, que já está no MEC faz ano e pouco. O curso que eles estão oferecendo é baseado no material online de uma universidade da Flórida. Fui lá conferir: as fichas de atividade são adaptadas, em bom nível. E todo o curso tem como ponto de partida conceitual, digamos assim, o desenvolvimento de consciência fonológica. Para quem é do ramo sabe que aqui há o tema de uma guerra cultural de métodos de alfabetização. Pensando em parentes meus que são professores na região da fronteira sul do Brasil, estou achando que o “Tempo de Aprender”, mesmo como está, é bom. Aqui entre nós tem muito disso, o “bom” é inimigo do “ótimo” e a gente se estrepa.

Mas isso é outro capítulo, muito longo para uma pequena escrita de quarentena.

Resenha do "Escola Partida", por Bruna Frascolla

Victor Costa escreveu a primeira resenha do Escola Partida: ética e política na sala de aula. (Editora Contexto, São Paulo, 2020); hoje saiu, na Gazeta do Povo, de Salvador, uma resenha assinada por Bruna Frascolla. Há outras, pelo que sei, por sair. O título da resenha feita por Bruna (Doutora em Filosofia pela UFBA) foi escolhido pelo Jornal e saiu algo como “Paulo Freire: de manifesto maoísta a manual de pedagogia”. Nas condições de distanciamento social em que estou trabalhando agora (não estou em Santa Maria, em minha casa, e escrevo em um computador improvisado, longe de meu escritório) não consigo colocar aqui o link para a matéria. Se o leitor interessado digitar esse título em um buscador poderá espiar o escrito dela.

Gostei muito da resenha feita por Bruna. Ela tocou temas diferentes daqueles que foram abordados por Victor e arriscou uma linha de entendimento sobre a minha abordagem do “Escola sem Partido”. A decisão dos editores da Gazeta do Povo, de privilegiar no título da resenha a retomada que fiz sobre a recepção de Paulo Freire pela pedagogia brasileira, mostra o quanto ainda há de, digamos assim, de um “contencioso” sobre esse tema. Havia muito mais sobre Paulo Freire na primeira versão do manuscrito, mas aos poucos me convenci que não valia a pena manter no livro mais essa frente de discussão, se quisesse ter como foco do livro os temas de ética e política na sala de aula e o “Escola sem Partido”. Mas não há como deixar de reconhecer que a recepção de Paulo Freire está longe de ser um assunto razoavelmente encaminhado entre nós.

Deixo aqui meu agradecimento ao Victor e à Bruna pelas resenhas. Deixo aqui o link, sem a certeza que vai funcionar direito.

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/paulo-freire-manifesto-maoista-manual-pedagogia/

Deve a Medicina basear-se em evidências?

Se conhecimento chovesse, seria relativamente fácil tê-lo: bastaria estender a mão para ter um pouco dele nos dias da chuva. Seria preciso ter a sorte de cair na mão o tipo e a quantidade certa. Tomar banho nessa chuva, no entanto, não seria garantia de ficar molhado com o conhecimento adequado aos nossos interesses. De que me serve um banho de física quando decido ser um eficiente hortelão? E se me cai um banho de filosofia quando preciso elaborar estatísticas seguras? 

Pouca coisa chove além da velha e boa chuva: poeira e bençãos, se diz. A primeira cai sobre todos, sem distinção, a segunda depende das crenças da gente. E se chovesse conhecimento, nem por isso a gente colocaria a mão para fora, como já antecipou Samuel Johnson. O mais seguro mesmo é a gente sair atrás daquele conhecimento que a gente precisa, no momento em que a gente precisa. Uns de nós fazem disso a profissão e vão fazer nuvens de física, que choverão na hora certa, para as coisas em que ela se faz necessária; outros fazem nuvens de agronomia ou de matemática e assim por diante. Tudo isso tem custo. 

É possível viver sem essas chuvas? Uma descrição bem pedestre do modo como a gente vive o cotidiano sugere que sim e que não e que, portanto, depende de duas coisas: a primeira delas é que no mais das vezes a gente vai gastando nosso capital cognitivo inicial, aquela imensa quantidade de coisas que a gente aprendeu desde que se conhece por gente e que inclui amarrar os cordões do sapato, escovar os dentes e regar as alfaces na horta. A gente aprende a aceitar e a contar com muitas coisas e fica contente com isso: que a chuva molha e pode nos deixar gripados, que não é bom dar cachaça para as crianças e ponto final. A outra coisa é que quando o bicho pega na horta da gente, a gente procura quem sabe mais do que nós: físicos, médicos, estatísticos, agrônomos, as nuvens de conhecimento.

Estou lembrando dessas coisas porque descobri recentemente que a expressão “educação baseada em evidências”, que se tornou popular no Brasil faz uns quinze anos (voltarei a esse tema em outro momento) surgiu ainda no século passado, na Inglaterra, para servir como referência contrária a, por assim dizer, “educação baseada em ideologia política”. O planejamento educacional poderia estar baseado, em um lado, nas evidências contidas em ricas estatísticas e dados sobre escolarização e aprendizagem, e, de outro, baseado nas concepções sociais e filosóficas sobre sociedade e história de Mengano da Silva e outros grandes pensadores. 

Desculpe o leitor a natureza absolutamente esquemática desse paralelo. Mas veja que as questões por detrás dessa expressão, “educação baseada em evidências”, são tão presentes que tivemos, no ano passado, um evento chamado “Conferência Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências”, a CONABE. Nesse evento ficou previsto a criação de um RENABE, um “Relatório Nacional de Alfabetização baseada em evidências”. E por aí a vara vai curvando, de volta. Voltarei ao tema. 

O que eu queria dizer, para encerrar esse retorno ao blog, já que meus 12 leitores ainda estão vivos e em quarentena, é que esse tema da educação baseada em evidências, ao que indicam as fontes que consultei, faz parte do clima no qual surgiu, em Oxford, nos anos 1990, um programa de mestrado em “cuidados de saúde com base em evidências”. O programa se fazia necessária porque uma coisa é formar profissionais da saúde capacitados, e outra bem diferente é garantir que a conduta deles, na sequência da vida, vai continuar inspirada em bons hábitos de registros, estatísticas, atualizações, e, acima de tudo, de aprendizado constante.  Pois não é que estamos vendo, aqui no Brasil dos anos 2020, no começo da implantação das medidas de contenção do coronavírus, um debate no qual se insinua o tema: deve a medicina estar baseada em evidências?  Será preciso chamar uma conferência nacional de medicina baseada em evidências? Um dos grandes teóricos da educação progressista, Henri Giroux escreveu um livro chamado Teoria e resistência na Educação (Londres, Heinenmann, 1983).

A impressão que tenho é que está surgindo agora uma espécie de “Teoria e resistência na Medicina”. Até mesmo devotos comunistas dos anos 80, como o deputado Osmar Terra, parecem agora estar rabiscando alguma coisa nessa direção. Acho que estenderam a mão para fora, na chuva, mas não sei bem o que pegaram. Bênçãos?

Caetano, Bishop & Schwarz

Publiquei, no blog da Editora Contexto – blog.editoracontexto.com.br – um texto sobre, entre outros nomes e temas, Caetano Veloso, Elisabeth Bishop e Roberto Schwarz. Caetano leu Bishop e foi lido pelo Roberto. Ele gostou dela e Roberto não gostou dele. Deu um samba que dura exatos cinquenta anos e não terminou, na minha opinião. Escrevi o texto, originalmente, para meu livro, A Escola Partida – Ética e política na sala de aula, que deverá começar a circular a partir da metade de fevereiro do ano que vem, publicado pela Editora Contexto, de São Paulo. No processo de editoração do livro concluímos que o trecho, que era ainda mais longo do que esse que saiu no blog, era um desvio demasiadamente intrincado na minha argumentação.

Para minha surpresa, semanas atrás começou toda essa polêmica ao redor da Elizabeth Bishop! Foi assim que surgiu a ideia de divulgar o capítulo suprimido do livro. Eu acho que o tema dá um livro, mas como recém terminei de escrever “A escola partida”, não quero pensar nisso muito cedo.

Deixo aqui, então, a sugestão, para os sete leitores que me restam no blog: Quem quiser um gostinho do que vai aparecer no Escola Partida, saiba que, ao ler o texto sobre Bishop, Caetano e Scharwz, vai conhecer um capítulo que estava originalmente ali.

Não haverá aulas amanhã, haverá aula amanhã.

Durante quarenta e cinco anos fui professor na UFSM, em diversos cursos: Filosofia, Psicologia, Administração, Economia, Letras, Medicina, Fisioterapia, Extensão Rural, Colégio Politécnico e por aí vai. Quando comecei minha vida profissional, em 1974, em plena ditadura militar, a UFSM já era uma universidade de referência, não apenas porque havia criado mecanismos de gerenciamento acadêmico e administrativo inovadores no Brasil, mas também porque manteve um ritmo acelerado de profissionalização de seu corpo docente e de seus cursos. Já nos anos 1960 a UFSM tinha uma política de mandar professores para o exterior, para que tivéssemos aqui, de forma pioneira no Brasil, um sistema de pós-graduação. Foi durante os anos 1970, ainda na ditadura, que a pós-graduação na UFSM expandiu-se para áreas como Educação e Filosofia, e os regimes de trabalho com dedicação exclusiva deixaram de ser privilégio das áreas duras.

A UFSM começou como uma pequena universidade do interior. Hoje é uma pequena galáxia. Uma das primeiras coisas que o Professor Mariano fez foi comprar um piano para o Centro de Artes, como símbolo da importância das Artes e Humanidades na UFSM. E por aí ele foi. Hoje, sexagenária, a UFSM é motivo de orgulho para milhares de pessoas que por aqui passaram, para milhares de pessoas que usufruem dela, de uma ou de outra forma. A UFSM não apenas ajudou a transformar o interior do Rio Grande, ela também transformou-se em uma instituição relevante para si mesma, diante de si mesma.

Há problemas, há desafios, mas é preciso lembrar que temos apenas seis décadas. Uma universidade jovem, na Europa, tem seis séculos de funcionamento. As mais antigas têm o dobro.  Precisamos identificar onde somos fortes e melhorar, precisamos conhecer nossas fraquezas e mudar.

Conheci pessoalmente todos os reitores da UFSM, desde a fundação. Tenho histórias com cada um deles, gostei mais de uns do que de outros, critiquei publicamente mais uns do que outros. Mas vendo essa série de nomes em retrospectiva preciso admitir para mim mesmo que tenho orgulho de todos e de cada um deles, sem exceções. Conheci pessoalmente todos os reitores da UFSM, desde a fundação; vi cada um deles dedicar-se à Universidade como se essa fosse a vocação final da vida de cada um, com paixão e responsabilidade. Todos eles dedicaram o melhor de si, como os pedreiros, a montar essa delicada obra do espírito que é uma universidade. Daqui a sessenta anos estaremos ainda melhor e com um pouco de sorte continuaremos tendo reitores que nos causam orgulho.

É claro que fico muito triste quando vejo, nos dias que correm, pessoas que foram ex-alunos da UFSM, que ficaram bem de vida com as profissões que ali aprenderam, ceder à tentação da crítica fácil às universidades públicas. Ouvem uma coisa ali, enxergam outra ali e saem a falar mal do prato onde se alimentaram. Me consolo pensando que a Universidade de Bolonha, que tem mais de mil anos, deve ter passado por algo parecido. Eles passarão e nós, que amamos a universidade, seguiremos. Se eu ainda fosse professor da UFSM, amanhã, em caráter absolutamente excepcional, eu não iria para minha aula. Eu avisaria os alunos e reservaria o dia para protestar contra aqueles de agenda curta e mesquinha, que pisoteiam no orgulho que deveriam ter de sua universidade. Se eu soubesse, tocaria piano na praça. Quem sabe homenageando assim nosso primeiro reitor o clima melhora, e a gente se toque mais.