Captura de Tela 2018-04-29 às 19.02.50.pngPara quem quiser conhecer o ponto de vista da revista fundada por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Le Temps Modernes, sobre a revolução bolivariana de Chavez-Maduro, basta acessar
https://www.cairn.info/revue-les-temps-modernes-2018-1.htm
Descobri o link depois que recebi de uma das autoras um PDF de seu escrito. Gisela Kosak-Rovero fez a gentileza de me mandar uma cópia de seu escrito na revista, “Memoires d’une universitaire rangée: les fantomes de Castro”.
Gisela é professora titular na mais importante universidade da Venezuela (a Universidade Central da Venezuela), na área de Letras. Ela começa o artigo falando da importância da Universidade, e a seguir descreve como Fidel Castro ali entrou em 1959, para dar uma Aula Magna, a partir da qual uma nova era na UCV começou, com uma forte contribuição para a formação dos quadros que um dia iriam dar na “revolução bolivariana” dos anos 90. Gisela foi marxista, como milhares de outros, “sem correr outro perigo do que sofrer a indigestão de teoria e de supremacismo intelectual (e moral) daqueles que compreendem as leis da história por meio do materialismo histórico e dialético”. Ela fez parte de uma geração de esquerda que passou um cheque em branco para uma esquerda ainda mais radical que fez uma aliança com os militares e com o carisma de Hugo Chavez. E deu no que deu: um triunfo que “transformou a Venezuela em uma emanação do mundo comunista do século XX”, na qual o Estado passou a ser a medida de todas as coisas. Ela descreve um ambiente muito semelhante ao que vivemos aqui no Brasil no começo dos anos sessenta: o desprezo pela democracia representativa e liberal por parte da vanguarda política. Fidel Castro deu todo o apoio a Hugo Chavéz e assim ajudou este a consolidar o modelo do socialismo como “controle absoluto do poder econômico, político e militar pelo Estado e pelo partido”, chegando assim à “tirania” (Le Temps Modernes, p. 250). A descrição que ela faz da destruição da universidade é de chorar: não resta praticamente mais nada do que se entende por universidade; elas simplesmente agonizam. Elas sequer são controladas, pois o chavismo pensou em uma solução mais radical, “les laisser totalement à l’abandon.” O fantasma de Fidel, conclui ela, continua vivo: é um “fantôme sonore, que sobreviveu à queda do Muro e à Hugo Chávez, pois ele parece ainda ecoar arengas no Auditório Central da UCV.
Ainda não pude ler mais artigos desse número da Les Temps Modernes, a revista fundada por Sartre e Simone. Mas parece evidente que eles não seriam chavistas nas atuais circunstâncias como já argumentei na postagem anterior a essa.

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G01736Em Setembro de 1995 o Professor Ronaldo Mota organizou, em Santa Maria, um ciclo de palestras a que deu o nome de “13 Pragas de Primavera”. A iniciativa foi um sucesso e atraiu um grande publico. O evento apontava para os temas que se tornaram incontornáveis para o pensamento de esquerda desde os anos sessenta, em especial desde a “Primavera de Praga”, de 1968: a crise do socialismo real, a queda do Muro de Berlim, os dilemas do pensamento da esquerda em relação à democracia e outros tantos. Na ocasião tive a honra de fazer parte de uma das mesas, cuja provocação era uma pergunta feita pelo organizador: “Democracia com teu desafeto ou ditadura com teu predileto?” A pergunta explorava um dos dilemas que rondava as conversas sobre Cuba e o regime castrista, mas era também uma provocação que dizia respeito à forma de se pensar nossa participação política no Brasil. Afinal, as proclamações dos comunistas brasileiros sobre o valor universal da democracia eram relativamente recentes e surgiram apenas na esteira do eurocomunismo dos anos oitenta. A defesa do regime castrista valia-se de argumentos centrados na realização de direitos sociais (saúde e educação) em detrimento de direitos políticos e daí surgia a alternativa provocadora contida na pergunta colocada nas “Pragas de Primavera”.
Eu me recordei desse evento de 1995 ao ver que a Revista Le Temps Modernes acaba de publicar um número dedicado ao debate sobre a situação atual da Venezuela. A revista Le temps modernes ocupou, desde 1945, um lugar proeminente na vida intelectual francesa e foi dirigida, na sua origem, por Raymond Aron, Simone de Beauvoir, Michel Leiris, Maurice Merleau-Ponty, Albert Ollivier, Jean Paulhan e Jean-Paul Sartre. A presença de Raymond Aron no primeiro conselho editorial sugere que não se tratava de uma publicação de esquerda mas sim de um espaço de um diálogo entre posições.
Lamentavelmente a revista somente circula em papel e assim vai demorar um pouco para que circule entre nós. Eu fiquei curioso para lê-la pois os títulos dos artigos parecem indicar uma abordagens extremamente crítica do regime de Maduro.
Não é a primeira vez que os franceses da Temps Modernes rompem com regimes sul-americanos que exploram o rótulo do socialismo. Vale lembrar que Sartre rompeu com Castro, depois de uma década de enamoramento. A paixão entre os dois durou até 1971, quando Sartre assinou um manifesto condenando publicamente a prisão do poeta Heberto Padilha por Fidel. Sartre assinou o manifesto junto com outros intelectuais como Susan Sontag, Julio Cortazar, Mario Vargas Llosa, entre mais de cinquenta nomes. Todos eles foram excomungados por Fidel e proibidos de entrar em Cuba. O episódio do rompimento entre Sartre e Fidel ajudou a popularizar o seguinte argumento: a crítica àqueles que estão a serviço da revolução socialista, por mais bem intencionada que seja, não pode ser feita, pois cria armas para o inimigo, em especial se ela for feita por alguém que eventualmente partilhou um pedaço da viagem revolucionária. Os revolucionários bem intencionados não devem ser questionados, pensava Fidel.
Esse episódio sartreano dos anos 70 pouco repercutiu no Brasil, pois aqui muita gente de ponta resolveu continuar apoiando … os dois. Os fantasmas de Castro continuaram assombrando junto com o maoísmo de Sartre, em mais um exemplo curioso de coisas do campo brasileiro.
Passaram-se cinquenta anos da Primavera de Praga, e a julgar pelo prestígio de Chaves-Maduro em certos rincões, ela ainda demora.


Tumultos

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Captura de Tela 2018-01-03 às 11.48.32Comecei 2018 lendo o livro de Hans Magnus Enzensberger, Tumulto, um livro de 2014 (li na tradução para o espanhol, Malpaso Ediciones, Barcelona, 2015). É um livro autobiográfico, pequeno e explosivo, centrado em episódios vividos pelo autor nos anos sessenta, com relatos sobre suas idas e vindas à Russia e à Cuba, um intenso caso amoroso com Masha, relações com intelectuais como Pablo Neruda e Nelly Sachs, o encontro com Nikita Khruschov. Enzensberger escreveu o livro aos 85 anos (hoje ele tem 87) a partir de cadernos de anotações, cartas e manuscritos abandonados, que ele havia guardado e perdido no sótão de sua casa. Tudo dizia respeito aos anos sessenta e setenta, e foi a partir desse material que surgiu o livro, “recordações de um tumulto” que usa, em algumas partes, o recurso de uma conversa com um “alter ego”, um sósia. Há também, além das anotações dos anos sessenta, observações e complementos escritos em 2014 e 2015.
O livro é uma janela privilegiada para a gente voltar pensar sobre o “ano que não terminou”, assunto que será recorrente em 2018. É esse o meu gancho.
Uma das razões do meu interesse no Tumulto e em 1968 vem de alguns temas do Quando ninguém educa (Editora Contexto, 2017), em especial a compreensão predominante sobre a Pedagogia do Oprimido, cujo prefácio é assinado por Paulo Freire no “outono de 1968”. Há um clima “meiaoito” no livro de Paulo Freire que até hoje não foi adequadamente avaliado e compreendido. A PO, segundo seu autor, foi escrita “entre 1967 e 1968” (Pedagogia da Esperança, p. 73) e deve muito ao clima político-intelectual da época, em especial em sua adesão explícita ao maoísmo e ao “deplorável Ernesto Guevara” (aqui eu cito o Tumulto de Enzensberger). Freire tomou emprestado de Guevara a retórica do “homem novo” que povoa o início da Pedagogia. A história é longa (pretendo voltar a ela) e em favor do humor ferino de Enzensberger é bom lembrar que alguns intelectuais cubanos, como Heberto Padilha (que é um dos temas do Tumulto), já em 1968 dissentiam e protestavam abertamente contra Fidel Castro, escrevendo poemas irônicos sobre o “homem novo”. No Brasil, no final dos anos sessenta, apenas começávamos a importar, devidamente cristianizada, a retórica do “homem novo”; Paulo Freire e Thiago de Mello escreveram versões tropicais desse evangelismo. Essas coisas de 68, segundo o Zuenir Ventura, não terminam de terminar.


canoa furada (1 of 1)No começo de 2015 traduzi uma parte da introdução do livro de Judith Butler, Bodies that matter. On the Discursive Limits of ‘Sex’ (NY, 1993), para ajudar nos debates que fazíamos sobre esses temas em nosso curso de Filosofia. Cheguei à Butler pela leitura de Gumbrecht (Produção de presença – o que o sentido não consegue transmitir, Contraponto, 2010). Ele a insere na lista de escritores que tem discutido certos “limites da interpretação”, a começar por Umberto Eco, mas também Jean-Luc Nancy, Karl Heinz Bohrer, George Steiner, Miguel Taussig e, surpreendentemente, Hans-Georg Gadamer: todos eles partilham, diz Gumbrecht, um maior reconhecimento ao “não semântico, ou seja, às componentes materiais dos textos literários”. Butler insere-se nessa lista na medida em que, no livro Corpos que importam, traz para a discussão “a materialidade do corpo e a inércia que essa materialidade opõe a qualquer tipo de transformação”. Isso faz dela uma sofisticada debatedora das opiniões dominantes no “construcionismo”, algo que fica indicado no próprio subtítulo do livro, “Sobre os limites materiais e discursivos do sexo”. O trecho que traduzi (para finalidades estritamente didáticas) está aqui nesse link:
https://www.academia.edu/12370038/Judith_Butler_-_Os_limites_discursivos_do_sexo_
É evidente que estou lembrando dessas leituras e da tradução que fiz como parte de duas lembranças. De um lado, lembro a universidade como o lugar onde podemos analisar “tópicos de risco graças à distância da torre em relação à sociedade” (Gumbrecht). Há uma insularidade na academia que é a condição de possibilidade de pensar aquilo “que não pode ser pensado em nossos mundos cotidianos” onde a pressão da hora simplifica em demasia o pensamento, que transforma-se em slogan. De outro, como podemos ficar indiferentes à forma como a professora Butler foi tratada momentos antes de entrar na sala de embarque? Ali, a mais evidente falta de educação pessoal tentou se disfarçar em protesto civil e político; chegaremos um dia a nos recuperar dessa vergonha?
A primeira onda da cidadania, lembrou T. H. Marshall, foi a da cidadania civil, no século XVIII, e com ela veio o direito à liberdade de expressão. Mas, lembrou ele, “o direito à liberdade de palavra possui pouca substância se, devido à falta de educação, não se tem nada a dizer que vale a pena ser dito“. A tragédia que estamos vivendo, nesses dias, parece que tende a se agravar, pois, ainda segundo Marshall, tudo piora quando não temos “nenhum meio de se fazer ouvir se há algo a dizer.”


BH4H5182
Em Semiótica 101 aprende-se que a tipologia clássica dos signos também nos permite pensar sobre o modo de funcionamento do pensamento humano. Assim, ícones, índices e símbolos não apenas nomeiam diferentes tipos de signos, que funcionam por semelhança (figuras desenhadas), por contiguidade (pegada na areia) e por convenção (palavras), mas designam formas de cognição. Assim, as metáforas mostram a presença do pensamento icônico, na medida em que orientam-se por analogias e semelhanças; as metonímias são casos de pensamento indexical, pois tomamos uma parte pelo todo. Mas tudo isso é muito mais complicado, e o mais complicado de tudo é que o pensamento simbólico não existe sem uma base formada pelo icônico e pelo indexical. Assim, o pensamento do sapiens é sempre um complexo simbólico que não apenas não elimina os níveis anteriores, mas os conserva em modos mais elaborados. Isso nos permite sugerir uma forma de apresentação do pensamento científico como uma sofisticação do pensamento indexical, pois a ciência, no final das contas, orienta-se pela pergunta: descontadas certas aparências, o quê vai com o quê? Simples assim.
Essas lembranças de Semiótica 101 tem me ocorrido por ocasião dos primeiros debates e entrevistas sobre Quando ninguém educa – questionando Paulo Freire. Esse “Paulo Freire” na capa do livro faz com que o leitor lembre, por semelhança, os ataques que surgem na mídia e em livros, mas também em movimentos como o “escola sem partido” e na proposta de destituição do patronato da educação brasileira. Assim, é natural surjam dúvidas sobre se o QNE (e esse seria o passo indexical), estaria no mesmo campo desses ataques ao patrono Paulo Freire.
Vou tentar esclarecer isso. Mais do que uma crítica ao Paulo Freire, ocupei-me com a forma como ele tem sido recebido; mas ao apontar algumas características da Pedagogia do Oprimido é evidente que fiz várias críticas ao livro; não preciso lembrar aqui que esse é o feijão e arroz da filosofia.
Os ataques a Paulo Freire, feitos pela “escola sem partido” e assemelhados são de outra natureza, mas uma síndrome de indexicalidade pode levar alguém distraído a não perceber isso, pois ela se deteria na semelhança dos significantes. Não há nada que eu possa fazer com relação a isso, a não ser pedir que a pessoa leia o QNE e seja honesta com a diferença de contextos; somente me ocupei com Paulo Freire no livro porque nenhuma abordagem da educação brasileira a partir dos anos 1960 faz sentido sem isso. E se fiz críticas a ele, muitas mais fiz a Saviani e aos desconstrucionistas, sempre no mesmo espírito. Podem ter sido mais ou menos felizes, mas foram feitas em um registro acadêmico.
O mesmo não se pode dizer da abordagem de baixa complexidade que vemos nos protestos. Em um caso, o “escola sem partido”, temos um movimento que se diz reativo às doutrinações, mas de base fatual nula e de bases conceituais ainda mais frágeis, que culmina na defesa de um maoísmo de sinal trocado: o controle dos professores pelos estudantes, no melhor estilo chinês dos anos 60. Isso sem falar na enorme confusão entre o privado (família) e o público (escola). O outro caso, os ataques ao patronato e os protestos de rua contra Paulo Freire, são episódios de psicopolítica misturados com linchamento intelectual que somente podem surpreender venusianos. Voltarei a esses temas em outro espaço de escrita.
É possível que ocorra a alguém a ideia de colocar o QNE em outros sacos que não o do jogo acadêmico. Isso seria semioticamente compreensível, mas desonesto. Há ocasiões em que a semelhança é mera coincidência. Quando não vemos ou não queremos ver isso e ficamos impressionados pela semelhança, misturaremos alhos com bugalhos. Ao invés de tentar compreender, esbravejaremos. Mas isso, como já observou um filósofo, não seria filosofia, seria apenas a idiotia da indexicalidade, uma variante patológica da desonestidade intelectual.


image001.png Quando ninguém educa; questionando Paulo Freire, o livro que escrevi em 2016 sobre pedagogia, currículo e formação de professores, está disponível, a partir de hoje, no sítio da Editora Contexto:
http://editoracontexto.com.br/quando-ninguem-educa.html
No local acima está disponível o sumário e a introdução. Aproveito o dia para agradecer a todos que me acompanharam nesses meses de escrita e espera de julgamentos. Em especial, quero agradecer aqui a acolhida que tive na Editora Contexto.


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Na semana passada aconteceu em Vale Vêneto um pequeno evento na área de Filosofia, ali no prédio dos Padres Palotinos. O ponto central do evento era o debate do texto de Max Weber, A Ciência como Vocação. Abaixo de chuva e frio, o que nos esquentou foi a conversa e o vinho. Ficou claro para nós que, cem anos depois, o texto de Weber ainda dá o que pensar e circula entre nós nas mais diversas mãos. Uma passagem dele está sendo invocada, por exemplo, pelo movimento “escola sem partido”. Fiquei pensando sobre a brutal atualidade e importância da conferência que é gêmea dessa, A política como vocação. Foi dela que me lembrei, faz 22 anos, quando surgiu um dos primeiros debates sobre o comportamento ético e político da esquerda brasileira. O debate envolveu José Genoíno e Cézar Benjamim.
Cézar havia se desfiliado do PT em alto estilo. Ele havia publicado um artigo na Folha, no qual acusava o PT de passar por uma crise ética, na medida em que aceitava e praticava condutas semelhantes aos demais partidos, em especial aceitando financiamentos de campanhas por empreiteiras. Genoíno, em resposta, na mesma Folha, (31.08.95, Qual é a crise do PT?) sustentou que a crise do PT não era de caráter ético, e sim de natureza política. A partir de um mote weberiano, Genoíno argumentou, contra Benjamim, que a política não podia ser confundida com a ética, mas que nem por isso ela era desprovida de valores. Nada mais weberiano do que isso. Essa observação foi feita junto à outra: “Na concepção da esquerda tradicional sempre imperou a máxima de que os fins justificam os meios”, e deveríamos deveríamos ver, contra a “esquerda tradicional”, que “fins e meios devem estar de acordo, que somente determinados meios podem ser legitimados pelos fins”. No final do artigo essa singela crítica da esquerda curvou-se levemente, pois ele termina o artigo dizendo que “deve-se abandonar no PT a presunção de que exista um partido único portador da verdadeira moralidade. Nem a esquerda é santa e nem o PT está corrompido”. Mas isso faz muito tempo, vinte e dois anos.Hoje o que mais se ouve são as vozes do silêncio. Vou aproveitar essa quietude de santos para reler A Política como Vocação.




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