Captura de Tela 2016-11-24 às 11.28.29.pngO Reitor da UFSM, ao comentar as ocupações e as tensões surgidas nos últimos dias em um vídeo feito pelo Sedufsm, mencionou algo que não deveria passar desapercebido. O comentário dele introduz no debate um tema que até o momento não foi objeto de discussão aberta. Em um certo momento de sua fala ele faz um elogio das mudanças ocorridas nos últimos anos na universidade na direção de “uma universidade inclusiva, que trouxe para dentro da universidade a diversidade, os pobres, os negros, os indígenas, como cidadãos e cidadãs com os mesmos direitos que toda a população brasileira. Talvez isso esteja incomodando alguns setores”. A fala dele é muito mais enfática do que parece na minha transcrição.
Eu não tocaria nesse tema não fosse o fato desse enfoque do Reitor já ter aparecido em outras manifestações públicas dele e, o que é mais relevante, ela surgir com força no meio de um manifesto em prol de distensão e paciência no campus. Pois o que chama a atenção é que, tanto quanto sei, as motivações abertas para ocupar ou desocupar o campus é o posicionamento quanto às medidas governamentais, em especial quanto à PEC 55. O que poderia ligar a questão da presença de “pobres, negros e indígenas” aos protestos contra a PEC? A questão é relevante pois ela surge com naturalidade na fala do Reitor, que insiste em mais de um momento no tema da “inclusão e respeito à diversidade”.
As disputas travadas no campus seriam então mais complexas e profundas do que sonham nossos protestos? Eu não tenho alternativa a não ser pensar que sim. Levando a sério as observações do Reitor (e por quê não as levaria?) há mais do que protesto contra a PEC nas ocupações. Haveria uma discussão sufocada, um tema de corredores, um “sobre isso não se fala” que explodiu. Seria, precisamente, sobre as formas de recepção dos “pobres, negros e indígenas”. Quais foram as medidas curriculares, pedagógicas e avaliativas que a universidade tomou sobre isso? Quais foram as formas de preparação de cada um de nós, professores, para lidar com as políticas de inclusão? Elas oscilaram apenas entre os dois extremos, o da recusa silenciosa e da aceitação improvisada? Eu escutei a fala do Reitor como uma explosão de desabafo perplexo; desabafo, porque nunca teria havido uma discussão e medidas razoáveis sobre o tema; perplexo, porque trata-se de mais um daqueles processos em que cada um de nós ocupa um papel, nem sempre dos mais brilhantes. Afinal, há ou não uma discussão de corredores, – e conflitos abertos em sala de aula – em muitos cursos da universidade sobre os “cotistas”?
Chama-me a atenção o fato de que os lemas das ocupações sejam, tanto quanto sei, de tipo nacional: contra a PEC, contra as reformas de ensino, contra Temer. Parece haver pouco espaço para esses temas mais espinhosos: quais as mudanças esperadas no cotidiano da universidade, quando temos no horizonte uma estatuinte? Quais as medidas de aperfeiçoamento da inclusão, se há conflitos que se escondem por detrás de uma “cortina de fumaça”, como afirma o Reitor? Haveria, nas ocupações, algo mais do que o alegado protesto contra a PEC? Isso parece ser evidente, mas é bem possível que o Senhor Reitor siga falando sozinho. E isso é uma lástima, pois, se ele tem razão (e me parece ter alguma), seguiríamos varrendo para baixo do tapete alguns males que podem muito bem ser melhor tratados.
Eu não concordo com a estratégia de trancar a única entrada de edifícios onde centenas de pessoas estudam e trabalham. Mas isso não me impede de ver que há algo mais nos céus do campus do que os helicópteros da Base Aérea. Mas sobre essas coisas escondidas por nuvens de fumaça parece que é muito difícil falar e assim, no final das contas, não me surpreendo muito.

(A ilustração é de Barbara Kruger, “Por que você está aqui?” fotografia e tipo sobre papel, 1991.)


captura-de-tela-2016-11-21-as-20-39-21Hoje pela manhã um juiz federal determinou que o Reitor da Universidade de Brasília providencie o fim das ocupações; se necessário, diz o despacho, seja providenciado o uso da força policial. Aqui na Boca do Monte alguns estudantes e professores entraram com representações junto ao Ministério Público e, no limite, algo parecido ao que se passa na UNB pode acontecer aqui.

O caso me faz lembrar um episódio em tudo semelhante, que envolve um nome importante da filosofia crítica alemã do século XX, Theodor Adorno. Vou resumir em duas ou três frases uma longa história, que posso detalhar depois. Adorno, junto com Jurgen Habermas, estava conduzindo um seminário de sociologia em Frankfurt. Na época (Janeiro de 1969) a Alemanha, na esteira do Maio de 68 francês, travava intensas discussões sobre reformas no sistema universitário. Os estudantes, muito mobilizados, fizeram diversas ocupações (também na esteira das ocupações que ficaram famosas na Califórnia, motivadas não apenas por temas universitários, mas pelo clima de protestos contra as convocações para lutar no Vietnã) e uma delas inclui o prédio onde funcionava o seminário liderado por Adorno. Adorno e seus colegas de instituto declararam então que a ocupação era, na verdade, “uma invasão e chamaram a proteção policial”. Eles escreveram e divulgaram uma longa justificativa, que terminava dizendo que não tinham outra alternativa que não essa, para “resistir à todas as tendências autoritárias e igualmente aos atos de violência pseudo-anarquistas levados a efeito por ativistas ostensivamente da esquerda, tanto quanto às ações cripto-fascistas de grupos na extrema direita.”
Como estou impedido de continuar com minhas aulas de História da Filosofia Contemporânea, fico com vontade de seguir por aqui contando essas histórias de quando um dos maiores frankfurtianos chamou a polícia para poder continuar com seu seminário. Ela é mais comprida do que contei e pode servir de consolo para nosso Reitor, Professor Burmann. Se ele tiver que chamar a polícia, saiba que um dos filósofos mais ilustres do século passado, incensado por muita gente  boa até hoje, já fez isso sem piscar.


captura-de-tela-2016-11-20-as-11-42-48Tendo em vista a repercussão um tanto negativa de minhas observações sobre os senhores das moscas, mais devida aos defeitos de minha exposição do que qualquer outra coisa, gostaria de explorar outros caminhos para pensar um pouco mais sobre o movimento estudantil no município de Santa Maria. Desde logo quero dizer que nada mais posso fazer do que escrever a partir de uns poucos fatos e notícias que conheço e que isso, para meu gosto, está muito longe de ser de grande valia. Haveria, antes de uma escrita dessas, muito trabalho empírico para sociólogos, antropólogos, historiadores, etc, pela frente: quem, onde, como, em quais circunstâncias, mas isso está por ser feito e eu nada posso fazer a não ser anotar aqui algumas especulações a partir do vejo no jardim.
Volto, no entanto, por um momento, ao mote que me levou aos senhores das moscas, a saber, a decisão inicial, na imensa maioria das ocupações de escolas por secundaristas, de elaborar um conjunto de regras; elas dizem respeito tanto ao modo de funcionamento no interior da ocupação (seja na criação de equipes responsáveis por limpeza, segurança, comida, atividades, etc, seja quanto à forma de funcionamento das assembléias e decisões) quanto às formas de relacionamento da ocupação com o exterior; aqui se destacam dois aspectos, a decisão pela despersonalização da liderança (não há um líder, um responsável único) e o controle do acesso do público externo, em especial da imprensa, para que haja alguma forma de controle das imagens da ocupação.
Quando comparei as ocupações com o texto de Goulding, tinha em vista essa questão do provimento das regras, pois isso me permitia olhar de forma mais clara para as formas de institucionalização ali providas. Por outro lado, ligado a isso havia a questão da submissão voluntária dos ocupantes a um período relativamente longo e incerto de provações de tipo físico e espiritual. E isso me sugeriu que as ocupações poderiam ser vistas, em primeira e terceira pessoa, como um tipo de prática de ideais ascéticos. “O que significam ideais ascéticos?” é a pergunta que Nietzsche faz na terceira parte da Genealogia da Moral e sua resposta é complexa. Mas a essência dela parte do reconhecimento que criaturas humanas não sobrevivem sem algum ideal ascético, pois não podemos viver sem objetivos e isso nos custa, às vezes e em alguns casos, muito! Deixo o tema aqui, daria um livro, mas esse já foi escrito pelo Nietzsche, que o leitor vá até ele.
O que quero anotar aqui – pensando em voltar algum dia ao tema – é apenas isso: o que aconteceria se tomássemos ao pé da letra, por um momento, uma das frases mais repetidas pelos secundaristas, a saber, que o movimento não é partidário? Se levarmos essa sério a frase, se a combinamos com o fato da ocupação, pelo aluno, de sua escola, se combinamos essas duas coisas com o que sabemos sobre a situação de crise da escola pública média no Brasil, e se combinamos tudo isso com o fato dos estudantes não se reportarem nem ao futuro nem à sobrevinda de uma escola ideal, mas de exigirem algo no aqui e no agora de suas escolas, não teríamos nisso a medida mais terrível de nossa crise educacional? Pois o que temos, num estado como o Rio Grande do Sul, é a falência do próprio estado, é a incapacidade do Estado de honrar o décimo-terceiro salário dos professores e dos servidores em geral, e isso significa a decomposição ainda mais acelerada dos serviços públicos e da escola pública. Enquanto isso os progressistas lambem as feridas e promovem protestos no atacado, sonham com a recomposição das frentes de esquerda, sonham com um futuro melhor e diferente. Eis o que me chama a atenção nas ocupações dos secundaristas, deste ponto de vista especulativo: parece que são os únicos que estão percebendo que não há futuro, não no sentido de um fim dos tempos, mas que a única política possível nessa hora é aquela que deixa de falar do futuro, que abandona a conversa da revolução para poder encarar a cara feia do presente. A impressão que eu tenho dos secundaristas é que eles não se deixam levar pelo “discurso da história”; são meio drummondianos, ligados ao “tempo presente, os homens presentes, a vida presente” e não foram contaminados pelas ilusões de paz e perfeição contidas nas promessas dos partidos que se pretendem progressistas. Há algo ali naquelas colinas, mas não é fácil de entrever.


captura-de-tela-2016-11-16-as-21-36-08O escrito aqui embaixo, sobre os senhores das moscas fez com que alguns amigos ficassem meio desconfiados comigo. Alguns acharam que exagerei nas tintas, que não descrevi corretamente as coisas ou que faltei com solidariedade à gurizada ocupante e meio que pisei na bola, pois a causa, no final das contas, é justa. Só faltou alguém me cobrar que eu mesmo assinei o manifesto de professores do meu departamento contra a PEC e a medida provisória da reforma do médio. De fato assinei e assinarei de novo, se me pedirem. A PEC, uma vez aprovada, me parece o marco de uma nova etapa na qual, no fim, não morreremos, mas vamos sim passar muita fome. A Reforma nos vem garganta abaixo, decidida no afogadilho de mandato, em medida provisória patrocinada por governo ainda mais provisório, que devia ter tido a grandeza de continuar o debate por meio de projeto de lei, que havia desde 2013 com o mesmo objetivo.
Isto posto, volto ao município de Santa Maria, limites do que escrevo, eis que este é apenas um blogue municipal. Se os ocupantes levaram a sério os sentimento de repúdio à PEC e ao governo, eu levei a sério o sentimento de vários amigos meus que sofreram os constrangimentos que relatei. Eles não foram inventados por mim e poderia ter contado vários outros que incluiram gestos como o de puxar pelo braço uma querida amiga, professora, que só queria saber porque não podia entrar no prédio onde tinha aulas. Querem o nome, a hora, o local? Não é o caso. Em homem e em mulher não se toca sem consentimento, pensei que fosse esse o mantra.
Revisando: a causa é boa, o movimento é sexy, mas não dá para copiar a ideia dos secundaristas sem recontextualização. Quando os secundaristas fecharam as escolas, os professores estavam em greve, e, tanto quanto sei, os colegas de magistério estadual não costumam ir, nas escolas, para suas salas de trabalho. Tanto quanto sei, na imensa maioria das escolas estaduais, há apenas uma sala de professores e eles não costumam ficar na escola quando não estão em aula ou em reuniões. Tampouco há laboratórios de pesquisa, etc. Assim, há uma transposição ao menos arriscada de métodos de “ocupa” quando passamos do secundário para as universidades. São coisas diferentes, com repercussões diferentes, e etc.
Mas a importância dessas coisas empalidece diante do que, no meu juízo, está por vir, no capítulo das ressacas dos enfrentamentos que aconteceram – impedimentos, derrotas eleitorais, fragmentação brutal dos movimentos, a maré montante de conservadorismo de todo tipo e feitio – e que, ao que parece, apenas estão começando. Esse tema, no entanto, é muito longo, fica para outra hora. Quero apenas dizer, mais uma vez, que não deveríamos desperdiçar a boa energia da universidade brigando entre a gente por detalhes básicos como poder ir e vir no local de trabalho. Mas estamos, infelizmente, nessa coisa de não poder cuidar das moscas, da capela, negociando no varejo a realização de concursos e seleções de professores e muito mais.  Esse vazamento de energia vai nos fazer falta, logo ali, eu acho. Não precisávamos desperdiçar tanta força que vai nos fazer tanta falta, pois não há conflito categorial entre protesto e aulas, só isso. Ou há?


Captura de Tela 2016-11-16 às 21.36.08.pngAntes da primeira ocupação na UFSM, ainda no dia 4, escrevi uma pequena nota (abaixo, no blogue) dizendo que não colocava no mesmo saco a ocupação das escolas e as ocupações nas universidades. Há muitas diferenças e a principal delas é que todas as ocupações escolares aconteceram durante greves de professores estaduais. No caso da UFSM as ocupações não foram sincronizadas com a greve de docentes, indicada para começar  a partir do dia 25 próximo. As ocupações das universidades introduziram um novo componente, até então não explorado, a não ser em casos isolados (na USP, no ano passado, por exemplo). O novo componente consiste em trancar, com mesas, cadeiras, cadeados, o acesso aos prédios. As portas dos prédios são bloqueadas (em alguns casos são os corredores de acesso, como no prédio de Humanas da UFSC) e ali fica um grupo de vigilantes para impedir que os obstáculos sejam removidos. A partir desse momento, quem quiser entrar no prédio ou simplesmente não poderá, como no caso das pilhas de mesas e cadeiras nos corredores ou deverá submeter-se a um pequeno ritual de esclarecimentos e identificações. Trata-se, na verdade, de um pequeno ritual de humilhação. O funcionário ou o professor deve pedir para entrar, identificar-se, deve dizer o que pretende fazer, e, se concedida a permissão, será acompanhado por um ocupante até a sala, para depois ser acompanhado na volta. Se ele tem uma pesquisa em andamento com Drosophila melanogaster, deve dar conta da tarefa e depois retirar-se. Como diria Cortazar, a casa está tomada, e isso não é uma metáfora. Há novos senhores das moscas, diria William Golding. Parece haver outro detalhe: em alguns casos, estudantes que tem base de aulas em um prédio fazem vigilância em outro, para evitar o constrangimento de terem que impedir a entrada de seu próprio professor.

Acho que foi por isso que ainda não fui até minha sala, que fica em um dos prédios cujo acesso está completamente bloqueado; fiquei pensando na possibilidade dos senhores da porta serem meus alunos, de terem que fazer de conta que não me conhecem, de pedir minha identidade, me acompanhar até minha sala. Seria muito constrangimento para eles, pensei. E se fossem desconhecidos seria, evidentemente, um pequeno e indisfarçável ritual de humilhação.

Esse é um passo mal calculado das ocupações. Se elas tivessem optado por uma greve do tipo sit in, haveria o constrangimento pelo olhar daqueles que optassem pela aula, haveria a desejada politização pelo convívio diário de posições opostas. A opção feita pelo bloqueio físico, pelos rituais de identificação e controle que estão sendo impostos aos professores e servidores  – são dezenas de casos que não passam disso, rituais de humilhação – está diminuindo a chance de um brilho politizador no movimento. Tudo está ficando esquemático e constrangedor. Dentro de poucas horas, lê-se nas redes sociais, alguns professores irão ao Ministério Público pedir ajuda para poder trabalhar sem constrangimentos. Não foi deixado outro caminho  diante do bloqueio, do impedimento, da proibição de que um docente faça a limpeza diária de sua capela sem ter que rezar diante dos novos senhores das moscas. A ocupação da UFSM, tomada pela soberba, não vai terminar sem crise antes do final de sua primeira semana.

“Jack estava de pé. – Vamos ter regras! – gritou, excitado. – Muitas regras! E quando qualquer um não as respeitar… – Uuuu-piu! – Uuuaai! – Puuum! – Taaam!” (William Golding, O Senhor das Moscas, p. 37)


Procurei em diversos lugares do Facebook por uma fotografia recente, na qual aparecia o reitor da universidade e três assessores; eles visitavam um prédio ocupado por estudantes. Não consegui encontrá-la e assim a descrevo na forma como me lembro. Ou seria na forma como ela me impactou? Ela foi tomada de baixo para cima e as quatro autoridades, ao sol, representavam estar em silêncio, algumas com a mão no queixo, na posição de quem está pensando gravemente. A força da foto parece vir do fato que as autoridades não gesticulam, elas estão paradas, olhando para um lado, para o chão, para alguma parede, e não estão em situação de diálogo. Parece que ali não havia muito a dizer, apenas estar ali, em uma atitude intermediária entre o testemunho, a simples constatação, um fio de solidariedade, quem sabe, pois as autoridades deram-se ao trabalho de deslocarem-se de seus lugares de trabalho para vir ao sol, na porta de um prédio ocupado. Ali encontraram a ocupação e mostram algum sentimento, que cabe ao espectador descobrir qual seria. A legenda dizia que as autoridades estavam ali para prestar solidariedade à ocupação, mas a gente não fica necessariamente convencida disso. Eles mais parecem perplexos, sem saber ou ter muito o que fazer.
Na foto, os estudantes não estão em destaque. Eles parecem estar sentados, olhando para os representantes da reitoria, como se estivem prontos para uma longa espera. Eles esperam ouvir as as autoridades, o que elas tem para dizer, esperam que o protesto tenha algum efeito, esperam que o tempo faça algum trabalho, ajudado pelos sentimentos que nutrem de estar fazendo algo pelo futuro.
O olhar se volta mais uma vez para as autoridades e tenta adivinhar o que elas estão pensando. Parece sensato pensar que, seja o que for, eles reconhecem, pela atitude de pensadores preocupados, que as dificuldades são importantes.
De um lado, os reitores das federais não esconderam a desconformidade com os horizontes previstos na PEC55 e assim não podem desautorizar os sentimentos de quem protesta; esses sentimentos são, essencialmente, de “repúdio” às mudanças constitucionais que alterarão as regras orçamentárias que tem sustentando, entre outras instituições, as universidades federais. Os reitores tem apontado, entre outros, o fato que a universidade tem um crescimento vegetativo na folha que – aprovada a PEC – corre risco de ser bloqueado, por exemplo, sem falar nos demais cerceamentos orçamentários.
De outro lado as universidades estão divididas; apenas uma parte dela está sem aulas e o quadro não vai mudar muito; o calendário está correndo e assim em duas semanas o semestre estará encerrado para a grande maioria dos estudantes; a ocupação vai resistir por um bom tempo, pois a PEC 55 apenas entra em votação decisiva no mês que vem; restará em Dezembro uma universidade cada vez mais esvaziada de movimento e assim será necessário que as ocupações façam alguma escalada; todos sabemos o final do filme: ocupar a Reitoria, o ultimo bastião da repercussão possível antes do travo final e do Natal: e, como Dante, no Inferno, as esperanças ficam na porta ocupada, pois depois das demonstrações de força no impedimento e nas eleições municipais, quem acredita que a PEC possa ser retirada ou derrotada?
Mas trata-se de sentimentos, da expressão de repúdio, de recusa, de nojo até.  Parece haver uma suposição velada de que a própria saúde espiritual de muitos depende dessa manifestação pública de raiva. Lembro aqui o recente livro de Martha Nussbaum, Anger and Forgiveness e o tema da “raiva nobre”, a “raiva transicional”, que implica em atitudes contra aquilo que parece ser uma injustiça social. Pois não é assim que as autoridades precisam deslocar seus corpos para junto da porta ocupada e ali permanecer vários minutos, mesmo que nada tenham a dizer? Elas simplesmente precisam ficar ali, fazer o jogo transicional de simplesmente molharem-se ao sol. E não é assim que os ocupantes precisam também preencher todo o tempo com o jogo da ocupação, para que ela não seja vista apenas como uma tardia noite do pijama? Os sentimentos não podem ser apenas isso, puros, eles precisam ser recobertos por pensamentos, por mais imperfeitos e vastos: corrigir as coisas por meio da imposição de um certo sofrimento aos outros, na leitura de Martha. Afinal, no horizonte nos espera um encolhimento da universidade, um sofrimento contado no rosário dos dias. Assim, é preciso, por assim dizer, antecipar o luto.

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Olho mais uma vez para a foto que não encontrei mais. As autoridades parecem pedir paciência, em especial àqueles que desejam fazer seu luto de outras formas; há muitas formas de fazê-lo e nem sempre os momentos de celebração da perda coincidem. Deixem os ocupantes em paz, parecem pedir as autoridades. Por um momento não me parece um pedido descabido; eu olho novamente a foto e o que as autoridades estão vendo parece ser algo muito grave, que minha imaginação não consegue conceber. Por um momento eu tenho a impressão de entrever os sentimentos dos meus alunos e me solidarizo com eles, a celebrar um luto que desafia o pensamento. Mas é só um momento, pois na minha idade os momentos começam a ficar escassos e eu prefiro fazer meu luto en passant.


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Em 1997, por insistência do Professor Delmar Bressan, então diretor da Editora da UFSM, reuni alguns ensaios e submeti ao conselho editorial da casa. O livro foi aceito e saiu com o nome de “Sentimentos de Outono: Ensaios sobre Universidade e Educação”. O título foi tomado de empréstimo, sob permissão oral, do Professor Aguinaldo Severino. Uma das partes do livro reunia ensaios sobre reformas na universidade, administração universitária e alguns dilemas enfrentados pela primeira geração de administradores eleitos mediante mecanismos de consulta comunitária. A segunda parte do livro trazia escritos de filosofia da educação, inspirados em Hannah Arendt e Wittgenstein. O livro encontrou alguns leitores generosos e saiu-se bem, na época. Depois entrou para o baú das ofertas, onde ainda hoje pode ser encontrado por uns poucos reais. Depois de tantos anos, quase vinte, resolvi fazer um PDF do livro e colocá-lo no meu Academia.edu. Depois de reler alguns trechos do mesmo, dias atrás, vi  que foi preciso mais ou menos vinte anos para que algumas previsões minhas no livro fizessem algum sentido. A página que fotografei acima dá uma ideia. O capítulo mais polêmico está na segunda parte e trata do que chamei, na época, de uma perspectiva de educação conservadora, na perspectiva de Hannah Arendt. Que falta que ela nos faz!




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