Procurei em diversos lugares do Facebook por uma fotografia recente, na qual aparecia o reitor da universidade e três assessores; eles visitavam um prédio ocupado por estudantes. Não consegui encontrá-la e assim a descrevo na forma como me lembro. Ou seria na forma como ela me impactou? Ela foi tomada de baixo para cima e as quatro autoridades, ao sol, representavam estar em silêncio, algumas com a mão no queixo, na posição de quem está pensando gravemente. A força da foto parece vir do fato que as autoridades não gesticulam, elas estão paradas, olhando para um lado, para o chão, para alguma parede, e não estão em situação de diálogo. Parece que ali não havia muito a dizer, apenas estar ali, em uma atitude intermediária entre o testemunho, a simples constatação, um fio de solidariedade, quem sabe, pois as autoridades deram-se ao trabalho de deslocarem-se de seus lugares de trabalho para vir ao sol, na porta de um prédio ocupado. Ali encontraram a ocupação e mostram algum sentimento, que cabe ao espectador descobrir qual seria. A legenda dizia que as autoridades estavam ali para prestar solidariedade à ocupação, mas a gente não fica necessariamente convencida disso. Eles mais parecem perplexos, sem saber ou ter muito o que fazer.
Na foto, os estudantes não estão em destaque. Eles parecem estar sentados, olhando para os representantes da reitoria, como se estivem prontos para uma longa espera. Eles esperam ouvir as as autoridades, o que elas tem para dizer, esperam que o protesto tenha algum efeito, esperam que o tempo faça algum trabalho, ajudado pelos sentimentos que nutrem de estar fazendo algo pelo futuro.
O olhar se volta mais uma vez para as autoridades e tenta adivinhar o que elas estão pensando. Parece sensato pensar que, seja o que for, eles reconhecem, pela atitude de pensadores preocupados, que as dificuldades são importantes.
De um lado, os reitores das federais não esconderam a desconformidade com os horizontes previstos na PEC55 e assim não podem desautorizar os sentimentos de quem protesta; esses sentimentos são, essencialmente, de “repúdio” às mudanças constitucionais que alterarão as regras orçamentárias que tem sustentando, entre outras instituições, as universidades federais. Os reitores tem apontado, entre outros, o fato que a universidade tem um crescimento vegetativo na folha que – aprovada a PEC – corre risco de ser bloqueado, por exemplo, sem falar nos demais cerceamentos orçamentários.
De outro lado as universidades estão divididas; apenas uma parte dela está sem aulas e o quadro não vai mudar muito; o calendário está correndo e assim em duas semanas o semestre estará encerrado para a grande maioria dos estudantes; a ocupação vai resistir por um bom tempo, pois a PEC 55 apenas entra em votação decisiva no mês que vem; restará em Dezembro uma universidade cada vez mais esvaziada de movimento e assim será necessário que as ocupações façam alguma escalada; todos sabemos o final do filme: ocupar a Reitoria, o ultimo bastião da repercussão possível antes do travo final e do Natal: e, como Dante, no Inferno, as esperanças ficam na porta ocupada, pois depois das demonstrações de força no impedimento e nas eleições municipais, quem acredita que a PEC possa ser retirada ou derrotada?
Mas trata-se de sentimentos, da expressão de repúdio, de recusa, de nojo até.  Parece haver uma suposição velada de que a própria saúde espiritual de muitos depende dessa manifestação pública de raiva. Lembro aqui o recente livro de Martha Nussbaum, Anger and Forgiveness e o tema da “raiva nobre”, a “raiva transicional”, que implica em atitudes contra aquilo que parece ser uma injustiça social. Pois não é assim que as autoridades precisam deslocar seus corpos para junto da porta ocupada e ali permanecer vários minutos, mesmo que nada tenham a dizer? Elas simplesmente precisam ficar ali, fazer o jogo transicional de simplesmente molharem-se ao sol. E não é assim que os ocupantes precisam também preencher todo o tempo com o jogo da ocupação, para que ela não seja vista apenas como uma tardia noite do pijama? Os sentimentos não podem ser apenas isso, puros, eles precisam ser recobertos por pensamentos, por mais imperfeitos e vastos: corrigir as coisas por meio da imposição de um certo sofrimento aos outros, na leitura de Martha. Afinal, no horizonte nos espera um encolhimento da universidade, um sofrimento contado no rosário dos dias. Assim, é preciso, por assim dizer, antecipar o luto.

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Olho mais uma vez para a foto que não encontrei mais. As autoridades parecem pedir paciência, em especial àqueles que desejam fazer seu luto de outras formas; há muitas formas de fazê-lo e nem sempre os momentos de celebração da perda coincidem. Deixem os ocupantes em paz, parecem pedir as autoridades. Por um momento não me parece um pedido descabido; eu olho novamente a foto e o que as autoridades estão vendo parece ser algo muito grave, que minha imaginação não consegue conceber. Por um momento eu tenho a impressão de entrever os sentimentos dos meus alunos e me solidarizo com eles, a celebrar um luto que desafia o pensamento. Mas é só um momento, pois na minha idade os momentos começam a ficar escassos e eu prefiro fazer meu luto en passant.


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Em 1997, por insistência do Professor Delmar Bressan, então diretor da Editora da UFSM, reuni alguns ensaios e submeti ao conselho editorial da casa. O livro foi aceito e saiu com o nome de “Sentimentos de Outono: Ensaios sobre Universidade e Educação”. O título foi tomado de empréstimo, sob permissão oral, do Professor Aguinaldo Severino. Uma das partes do livro reunia ensaios sobre reformas na universidade, administração universitária e alguns dilemas enfrentados pela primeira geração de administradores eleitos mediante mecanismos de consulta comunitária. A segunda parte do livro trazia escritos de filosofia da educação, inspirados em Hannah Arendt e Wittgenstein. O livro encontrou alguns leitores generosos e saiu-se bem, na época. Depois entrou para o baú das ofertas, onde ainda hoje pode ser encontrado por uns poucos reais. Depois de tantos anos, quase vinte, resolvi fazer um PDF do livro e colocá-lo no meu Academia.edu. Depois de reler alguns trechos do mesmo, dias atrás, vi  que foi preciso mais ou menos vinte anos para que algumas previsões minhas no livro fizessem algum sentido. A página que fotografei acima dá uma ideia. O capítulo mais polêmico está na segunda parte e trata do que chamei, na época, de uma perspectiva de educação conservadora, na perspectiva de Hannah Arendt. Que falta que ela nos faz!


“A título de exemplo de dificuldades atualmente existentes, a realidade de treze disciplinas obrigatórias em si contribui para limitar ou mesmo impedir que melhores e mais adequadas estratégias no processo ensino-aprendizagem sejam debatidas ou implementadas.”

 O professor Ronaldo Mota foi convidado a falar para a Comissão que discute a MP da reforma do ensino médio. Um dos pontos da fala que ele está propondo ilustra bem o que eu venho caracterizando como o impasse que se cria quando discutimos a questão da reforma apenas na perspectiva de primeira pessoa. Depois de mencionar “as treze obrigatórias”, Ronaldo repassou brevemente os argumentos que cada uma das treze tem para seu próprio caso. Todos são muito bons, por certo. Ele conclui, acertadamente, que “seguindo esta linha (…) ao final, chegamos a um indesejável e previsível engessamento.” 

Assim, Ronaldo sugere a busca de formas alternativas de pensar o EM, que não sejam orientadas  pela logica da obrigatoriedade para todos, inclusive para os maiores interessados, os alunos. Enquanto a discussão da reforma for feita pelas comunidades das disciplinas apenas na perspectiva da primeira pessoa, teremos o tipo de impasse acertadamente lembrado por Ronaldo. 

Meu vôo está sendo chamado. Volto ao assunto assim que puder!


Como compreender as ocupações de escolas, a voz das julias? Vamos comprá-las pelo valor de face? Vamos comprá-las pelo que dizem os cartazes de fora isso e contra aquilo? Mas como poderíamos fazer isso depois de tanto elogio da cultura da suspeita? Também não me parece que está disponível o antigo caminho da crítica à doença infantil do esquerdismo, pois nem esse lado sequer é invocado. O enigma das ocupações parece ser ainda maior, pois a meninada não parece estar encharcada de futuro, não há utopistas nessas trilhas. E devemos colocar no mesmo saco ocupações de escolas e universidades?
Quanto a como compreender as ocupações de escolas, tendo a ver nelas um exercício de voz; mas não é qualquer exercício de voz. É uma voz imprensada entre o Cila da impossibilidade da saída (não há como entrar na escola apostilada, veja o preço das mensalidades) e o Caribdes da lealdade que flerta com a dissonância cognitiva (é preciso ver o que há de bom no que temos). É por isso que tento não colocar no mesmo saco a ocupação das escolas e as ocupações de universidades. Nas escolas há um zelo por regras (apartidarismo, bloqueio à imprensa e visitantes) que faz lembrar os senhores das moscas. Nas universidades o senhorio é do gozo do portal transposto, o ritual do vestíbulo finalmente materializado em bandeiras e gritos.
O que fazer diante dos senhores das moscas? Alguns idiotas no parlamento querem exigir da gurizada a conversa racional e o bom senso, o acordo que nem os grandes conseguem. Outros não menos apressados no entendimento sugerem um interpretaço na fala deles: é a verdade bruta do fora uns e do contra aquilo. Essas extremidades são mais estremecimentos do que pensamento; a verdade dessas coisas deve estar em algum ponto intermediário.
E não é assim que desde os anos oitenta quem podia pagar mensalidade em escola particular tratou de ali colocar seu filho?
A escola pública estadual, desde os anos oitenta, foi abandonada por todo mundo. Ela  entrou em um processo de desmelhoria (permitam-me) crescente. E o cenário em que vivemos, com estados falidos, que sequer conseguem pagar os salários em dia, nada mais faz do que agravar uma tendência que surgiu quarenta anos atrás e da qual não temos um bom diagnóstico a não ser o tal do neoliberalismo. Mas essa conversa mole de bandido e mocinho tem quarenta anos…
Peço desculpas ao leitor do blogue, se ele, ao começar a ler essa postagem, imaginou que eu teria algo de interessante a dizer sobre a compreensão das ocupações das escolas públicas estaduais. O que eu queria expressar era apenas uma impressão de desconforto com as manifestações políticas que oscilam entre um exercício de ventriloquismo da gurizada e a cooptação imediata e simplista do “fora quem está aí”. Faz algum tempo que desconfio que o buraco, como se diz, é mais fundo e está em outro lugar, que começou a ser cavado nos anos oitenta, quando a maioria das pessoas que hoje tem mais de cinquenta anos tratou de continuar defendendo o ensino público enquanto matriculava seus filhos nas escolas privadas e não viu nisso um grande problema. Ou, ao menos, um problema que merecia ser teorizado. Mas nesse ponto o assunto fica complicado, a hora é tarde, o dia termina.


Chapa branca

24out16

A UFPEL, a Federal de Pelotas, por meio de seu Conselho de Ensino, decidiu suspender o calendário acadêmico, em solidariedade às decisões de assembleias de docentes e servidores que entraram em greve. A decisão do Cocepe da Ufpel foi justificada como uma medida de solidariedade aos grevistas.  

O fato tem antecedentes em outras universidades, acho, mas não gosto nem de lembrar isso; me faz lembrar, isto sim, a pomba de Kant, na Crítica da Razão Pura. Era uma pomba que, quando voava e sentia nas asas a resistência do vento, ficava pensando que voaria mais rápido sem esse incômodo do ar nas penas.

Eis que houve, por algumas horas, na Ufpel, uma greve. Agora há apenas algo ainda menor do que vacuidade. Kant faz falta.


IMG_8265-1Mas Diadorim, conforme diante de mim estava parado, reluzia no rosto, com uma beleza ainda maior, fora de todo comum. Os olhos – vislumbre meu – que cresciam sem beira, dum verde dos outros verdes, como o de nenhum pasto. E tudo meio se sombreava, mas só de boa doçura. Sobre o que juro ao senhor: Diadorim, nas asas do instante, na pessoa dele vi foi a imagem tão formosa da minha Nossa Senhora da Abadia! A santa… Reforço o dizer: que era belezas e amor, com inteiro respeito, e mais o realce de alguma coisa que o entender da gente por si não alcança.
Mas repeli aquilo. Visão arvoada. Como que eu estava separado dele por um fogueirão, por alta cerca de achas, por profundo valo, por larguez enorme dum rio em enchente. De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa… Aquilo eu repeli?

No momento em que se celebra a publicação, faz 60 anos, de Grande Sertão Veredas, do João Guimarães Rosa, parece ser também oportuno celebrar a brutal atualidade da trama do livro e a astúcia rosiana para lidar com as dificuldades da realidade: “há muitas coisas que o entender da gente por si não alcança.”
Wittgenstein disse que uma gota de gramática, por vezes, pode conter uma nuvem de filosofia. E Rosa mostra que um parágrafo da grande literatura pode ser um bornal de alimentos para o espírito.
Apaixonado que sou pela prosa rosiana, e com outro olho em certos temas atuais, não resisti a transcrever a passagem acima, que tenho anotada em um caderno velho, dos anos setenta. Ela está na página 374, mas eu não anotei a edição. Com certeza era uma daquelas primeiras, da José Olympio. É a minha homenagem aos 60 anos do Grande Sertão da nossa literatura.


Feliz Ano Novo

08jan16

Pelo desculpas aos meus nove leitores pela ausência nessa paragem e desejo aos mesmos um Feliz Ano Novo. Tenho vontade de voltar mais por aqui, mas me pego pensando nos versos de Sá e Guarabira:

Cartas, cartões, postais,recados
vem de longe para me dizer
que hoje em dia o silêncio é de ouro

Como serão as terras que eu não posso visitar?
Devem ter me esquecido amigos que eu não possso ver
Longe de mim o canto que eu precisava tanto escutar
que é da varanda grande de onde eu costumava olhar
um pôr-de-sol brilhante de uma terra boa de viver
Quem levou de mim esse tesouro?

Em cada boca fechada uma caverna silenciosa
onde não vive nada além do segredo
Em cada olho fechado
rola um planeta desorientado
onde não cresce nada além do medo

Abraço!



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