Nesses domingos molhados de dezembro em Santa Maria quase podemos cortar o ar com a faca da manteiga. Um gesto a mais e a gota escorre na testa e pinga no olho, salgada. A gata deita na laje fria e pisca.
Dezembro 19, 2009
Quem não cometeu?
Quem não cometeu versos na adolescência? Aqui, tomo a palavra “versos” de modo vago, de modo a abranger a poesia, mas também as divagações confusas sobre o mundo.
Na minha turma de clássico, no Maneco, ler era uma paixão.
Schirmer, por exemplo, fazia um estilo mais contido, gostava de falar – lembro como se fosse hoje – de relações internacionais como se fosse um assunto da rua onde morava e tinha preferências mais tradicionais em Literatura Brasileira. Ficava com Machado, se lembro bem. O Candinho era dividido. Flertava com concretistas, Rubem Braga, e na hora agá resvalava para o romantismo. Cézar Schirmer e eu e o Candinho e a Sílvia e o Paulinho e a Vera e tantos demais outros, éramos apenas uns adolescentes metidos, que liam mais do que podiam entender. Por exemplo, Guimarães Rosa era motivo de brigas sobre os conflitos entre conteúdo e forma, por exemplo. Li três vezes o Grande Sertão, para escrever um trabalho para a professora de Literatura (Léxico e Sintaxe em GSV), e incorri na ira do Tarso Genro, que, em nome do realismo luckacsiano, me advertiu sobre os limites políticos de quem privilegiava a forma, o estilo, o som da língua.
O que pensar de tudo isso hoje? Li a matéria da ZH de hoje sobre o Paulo Neves e me deu uma alegria. O Paulo Neves escreve muito bem, e diz coisas bonitas sobre poesia e adolescência. A reflexão dele sobre a des-importância da poesia na vida da gente é um tento.
Escrevi poemas horríveis na minha adolescência, como quase todos os meus colegas. O Paulo Neves joga umas luzes sobre essas compulsões. Ilumina.
Dezembro 12, 2009
A primeira foi decidida no Avenida
A primeira greve de professores da rede estadual do Rio Grande do Sul, para a região de nossa cidade, foi discutida e decidida na sede do Avenida Tênis Clube. A professora Sara Veras liderava a categoria. Era o ano de 1979. Ali quebrava-se um tabu, dizia-se. O tabu era que professor não fazia greve. Sara Veras deve ter sofrido, imagino, mas sustentou a greve.
Era uma porteira que se abria, mas ninguém, acho eu, imaginava o que viria. Em doze anos, até o início dos anos oitenta, o CEPERGS totalizou quase quatrocentos dias de greve do magistério.
De 1979 até hoje, imagino eu, temos quase seiscentos dias de greve.
Uma conta parecida se faz nas universidades. Falta pensar nos custos de tudo isso. O que ganhamos, o que perdemos?
Cada vez me parece mais evidente que uma das perdas ocorreu em uma área quase inefável.
Quebramos um tabu, mas a mística do professor entrou em crise.
Éramos professores, talvez mestres. Aí alguém sugeriu que a gente deveria ser apenas “trabalhador em educação”. Isso seria bom para as greves.
Deu no que deu. Com o fim dos professores, acabaram-se as escolas.
E as greves viraram isso que vamos ver nessa semana; pura chantagem, de lado e de outro.
Toca recomeçar tudo de novo.
Novembro 24, 2009
A faca e a cachorrada
Um sujeito que escreve coisas maravilhosas sobre faca é o Cabral de Melo. A faca do Jorge Borges em “O Sul” é a mais famosa da literatura, quem sabe. Mas o David Mamet escreveu um livro com esse título provocativo, “Três usos da faca” que me encantou. Saiu pela Civilização em 2001 e apenas agora o li, pela indicação do Pedro Rocha. O livro é uma reflexão “sobre a natureza e a finalidade do drama”. Drama, como ele diz, “é da natureza humana”. É a primeira frase do livro, que é pequeno, 82 páginas, mas cumpre o que promete, nos falar um pouco e bem sobre a composição do drama, no teatro, no cinema, na vida nossa de cada dia. Fiquei muito contente com a descoberta desse livro, que já li vez e meia no avião e no onibus. Eu me interessei por ele porque volta e meia me pego pensando sobre os rumos da arte nos dias de hoje, dividida entre algo que teimamos em chamar de arte e outras coisas que chamamos de entretenimento, e o Mamet discute bem isso. Lá pelos parágrafos me lembrei do Mestre Guina, não sei bem porquê:
“Shakespeare nos informa que a verdade é um cachorro que tem de ser chicoteado de volta ao canil, enquanto a senhora cadela pode ficar ao pé da lareira, fedendo”.
Achei muito bom isso do cachorro. De apontar na caderneta.
Novembro 15, 2009
El último objeto de culto
Depois de ler a matéria na ZH de hoje sobre a blogueira cubana, Yoani Sanchez, que está lançando um livro no Brasil, fui ler o blogue da moça. Vai aqui o link do Generacion y. O texto de hoje aborda um discurso de Fidel Castro elogiando as virtudes do programa cubano de fabricação e venda de panelas de pressão que cozinham com menos gasto de combustível. Fidel ocupou por várias horas a tevê cubana explicando às donas de casa as virtudes das novas panelas. É assim que termina? Fui conferir a notícia, mas há quase nada no Google sobre o tema.
O blogue da Yoany tem incomodado e já tem gente para dizer que a moça é manipulada pelo Pentágono, como se pode ver nesse outro blogue, de sintomático nome La Machetera. Vou pegar minha lambreta e dar um pulo na Ilha para ver de perto o tema, se eu puder.
Novembro 15, 2009
A Bússola da UFSM
Faz um tempão (15 de abril de 2009) que escrevi sobre a escultura que a atual administração da Ufesm postou na Avenida Roraima, nas proximidades da rótula. Naquela época o trabalho não estava concluído. Entre outras coisas eu disse que minha impressão era que a obra deixava o espectador um tanto desorientado: uma profusão de cores, uma forma ambígua de rosto e mapa, quatro pontas a sugerir os pontos cardeais, indicados por quatro letras.
Agora a Bússola está pronta.
Num sítio da internet encontrei uma matéria que diz que “Amoretti justifica o elemento simbólico por entender que o objeto é um instrumento de orientação considerado um dos maiores inventos da Humanidade. “A bússola, assim como a Universidade, nos permite tomar rumos do desconhecido”, esclarece Juan, que complementa: “como símbolo de orientação, aponta o rumo para aqueles que buscam a Instituição a fim de concretizar sonhos, ideais nos saberes das Ciências, Artes e letras”.
Acho boa essa comparação da bússola com a universidade.
Agora, no que diz respeito ao monumento, que fazer? Eu não gostei. Achei que o resultado final, que mistura elementos figurativos (o rosto), letras do alfabeto, pontos cardeais, num formato indefinido (mapa?) não ficou bom. Mais não digo porque se trata, como disse, de meu gosto, que pode ser um mau gosto. Agora, no mesmo sítio fiquei sabendo que Amoretti fez um projeto a ser concretizado (ou metalizado?) pela Prefeitura Municipal de Santa Maria, nas proximidades da rótula nova da Casa de Retiros. Trata-se de uma homenagem a Ícaro.
Da Bússola eu digo que não gostei, simplesmente. Agora, se o Ícaro for esse que está na foto acima (que encontrei na mesma matéria da internet), aí vai dar um debate bem interessante, eu acho, sobre os rumos da escultura bocamontina no contexto atual, não?
Para ver a matéria original sobre o Ícaro, com a foto, clica aqui.
Novembro 11, 2009
“A representação de uma experiência empobrecida”
A frase é de um amigo a quem devo mais do que posso tentar reconhecer. Ela me ocorreu ao pensar sobre as atitudes que a gente pode tomar diante desses temas que por vezes pedem para os filósofos discorrer, como o aborto. Por vezes nos defrontamos com a “representação empobrecida da experiência”, por vezes com a “representação de uma experiência empobrecida”. Quando nós, filósofos, apresentamos uma experiência empobrecida como se fosse o que as pessoas não filósofas, chamam de “realidade”, estamos muito mal. Fazer filosofia e estar à altura “de nossa experiência atual” e não de uma alucinada ou empobrecida descrição dela… isso não é para todos aqueles que reclamam a padrinhagem de Sócrates.
Os temas blogueiros que me incomodam agora são, como disse, o debate de ontem sobre o aborto – obrigado, Frank, pelos comentários, mais uma vez – ou a demissão da autoridade do professor (tema do outro blogue) ou os superinvestimentos libidinais sobre a democracia na direção das universidades. Eu estou voltado ao Marcuse, ao Benjamin e ao Freud, de onde saí um dia para fazer meus temas. Quanto ao Sartre, meu caro Vítor, a quem ainda devo umas palavras, ainda fico devendo. Mas uma coisa adianto: se ele fez alguns exageros nas descrições das operações da vontade – coisa que acho rica na descrição da Iris – compensou com seus esforços de representar a experiência humana de uma forma não empobrecida. Essa estratégia de pseudo-pensamento, infelizmente, ficou acadêmica e popular, algum tempo depois.
Novembro 9, 2009
A maior causa de mortes entre adolescentes no Brasil
Participei hoje a noite de um debate sobre o filme “O Segredo de Vera Drake”, a convite de um grupo de ex-alunas do Curso de Psicologia. Junto estava um pastor evangélico, Apóstolo Levi, e a Professora Maria Teresa Campos Velho. Fiquei impressionado com a informação que ela deu: abortamentos mal-sucedidos são a maior causa de morte entre adolescentes do sexo feminino. Nos adolescentes do sexo masculino a maior causa de morte são crimes associados ao consumo de drogas variadas.
Eu vi o filme de Mike Leigh faz muitos anos e não me recordava do enredo em detalhes. Assim, assisti ao filme como se fosse a primeira vez.
A Manoela Ludtke abriu os debates dizendo que o filme tinha como tema o aborto, o que era correto. Mas quando falei preferi chatear um pouco e disse que não eu não havia aceitado o convite para discutir o aborto, e sim a forma como discutimos o aborto. Afinal, é principalmente isso o que o filme nos proporciona, a meu ver: discutir as formas como percebemos e entendemos algo que a chamamos de aborto. Vera Drake se recusa a dizer que faz outra coisa a não ser “ajudar as moças”, “help young girls out”; é muito fácil ir para um debate sobre o aborto e dizer que somos contra ou a favor, a partir de um ponto de vista religioso ou feminista, por exemplo. O filme não faz isso; o diretor mostra uma pessoa extremamente boa fazendo algo que ela termina reconhecendo como mau. Qualquer semelhança com a estrutura das tragédias (como diria a Senhora Nussbaum) não é mera coincidência.
Até agora estou impressionado com a fala da Professora Maria Teresa. Entre outros aspectos, ela mostrou dados assustadores que eu desconhecia. Temos um milhão de abortos por ano no Brasil, na esmagadora maioria ilegais e com consequências danosas às mulheres; anencéfalos nascem pela lei, condenados à morte pela natureza; e a lei alimenta-se da pressão de lobbys de políticos que cedem à pressão de grupos os mais diversos, em especial os de tipo religioso. O ganho que tivemos na noite foi a gente concluir que o tema não é daqueles que basta ser a favor ou contra; que nele estão envolvidos dilemas morais profundos, que nos obrigam a ir mais fundo em nossas razões e que no fundo delas o que encontramos, para nosso susto, é a gente mesmo.
Outubro 25, 2009
Eleições
O vizinho país vota hoje para Presidente e deputados e senadores. Ontem a tarde conversei com um guardador de carros, numa das ruas transversais à Sarandi, em Rivera, e lhe perguntei em quem iria votar. “Frente Amplia”, não piscou. “Ajudaram muito os mais pobres”, acrescentou. Mujica deve ganhar, talvez em segundo turno, esperam, com certo realismo, os da Frente. Ontem mais de onze mil uruguaios tomaram o buquebus para vir da Argentina votar. Outro tanto grande viajou de onibus, da Argentina e do Brasil. O chamado “vigésimo departamento” (no Uruguai os nossos estados são chamados de “departamentos” e são dezenove), é composto pelos uruguaios que vivem no exterior e conta com mais de 500.000 patriotas, que poderão votar por correspondência a partir de 2010, se a medida for aprovada no plebiscito que está sendo realizado hoje. E junto com esse há mais um plebiscito, destinado a rever a anistia aos militares. Um dos pontos mais polêmicos das intenções de Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro que amargou muitos anos de cadeia, é revisar a forma de funcionamento da Udelar, a universidade pública do Uruguai. Autonomia universitária, diz Mujica, não pode ser confundida com independência …
A foto da sede do PC uruguaio pode ser vista em tamanho maior aqui.





